Casos de violência contra o professor nas escolas brasileiras têm chocado a sociedade e suscitam preocupação. Em um dos casos ocorridos neste ano, o professor Carlos Christian Gomes estava na escola em que leciona Biologia, em São Cristóvão, região metropolitana de Aracaju (SE), quando foi atingido por cinco tiros que, segundo testemunhas, foram disparados por um aluno de 17 anos. Em outra situação, que também ocorreu neste ano, a professora Ana Paula Marino Cezar, que ministrava aulas de Inglês em uma escola pública de Piraquara, município da Grande Curitiba (PR), levou 15 facadas, dentro da sala de aula, de um aluno de 14 anos, conforme investigação policial. Em ambos os casos, o motivo dos atos infracionais teria sido o descontentamento dos agressores com uma “nota baixa”.

Dados da Pesquisa Internacional sobre Ensino e Aprendizagem (Teaching and Learning International Survey – Talis, em inglês) apontaram que o Brasil é o país em que os professores mais sofrem com intimidação e abuso verbal por parte dos alunos. Segundo a pesquisa, realizada com 100 mil professores e gestores escolares em 34 países pela Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE), 12,5% dos educadores brasileiros entrevistados afirmaram ser vítimas desse tipo de violência. O índice é o maior dentre todos os países participantes do levantamento (ver infográfico abaixo) e está bem acima da média entre eles (3,4%). Depois do Brasil, a Estônia, com 11%, e a Austrália, com 9,7%, têm os maiores índices de violência contra o professor.

 

Dados sobre a violência contra professores no mundo. Clique na imagem para ampliá-la.

A realidade é assustadora, mas, para a socióloga Miriam Abramoway, que já coordenou várias pesquisas sobre educação e violência e é professora da Faculdade Latino-Americana de Ciências Sociais (Flacso), ao se analisar a violência na escola e contra o professor, a primeira questão é “desculpabilizar”. “Os casos de violência contra o professor são muito emblemáticos, mas evidentemente não temos um professor esfaqueado ou que leva tiro todo dia. Não podemos colocar o professor só como a vítima; ele é vítima, mas é ator também”, ressalta Miriam. E completa: “O professor comete violências cotidianas contra os alunos. Por isso, temos que relativizar. Casos como esses [de violência contra o professor] não poderiam acontecer; no entanto, precisamos  conhecer a razão deles acontecerem”. Miriam comenta que há estudos e informações de professores e diretores que revelam que a violência no cotidiano da escola ocorre muitas vezes por motivos banais: nota baixa (como nos casos citados na abertura da matéria), colocar o aluno para fora da sala de aula, chamar os pais dos alunos na escola ou até mesmo xingar os estudantes (segundo informações dos próprios alunos, relata a socióloga). “Precisamos levar em consideração que algo considerado banal para um adulto pode ser considerado gravíssimo pelos jovens e adolescentes”, alerta Miriam. “Por isso, quando analisamos e pensamos [sobre a questão da violência], temos que analisar todas as partes e esse conjunto de fenômenos para entender bem por que isso acontece”, completa. Ela também acredita que, além de ouvir o professor vítima de agressão, é de suma importância ouvir o aluno acusado.

Miriam enfatiza que a clientela da escola hoje tem outro perfil; entretanto, a escola continua a mesma, é antiga e não tem o mesmo tipo de linguagem dos jovens, não sabe se comunicar com eles nem entendê-los. Além disso, novas formas de ensino e aprendizagem devem ser adotadas, a fim de que esse processo ocorra de maneira mais prazerosa. “A escola e os professores ficaram séculos atrás, e os alunos não aguentam essa escola. A maior reclamação deles é que a escola é chata, sem sentido, não têm por que ir à escola”, afirma a socióloga.

Flávia Schilling, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (USP) e autora do livro A sociedade da insegurança e a violência na escola (Summus Editorial), também acredita que é preciso investigar o que acontece, quando acontece, com quem acontece e o que foi feito para que isso acontecesse. “Para enfrentar essas questões, é fundamental um trabalho de diagnóstico que supere as generalidades e os chavões que existem sobre a violência nas escolas”, alerta Flávia, que é membro da Cátedra da Unesco (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) de Educação em Direitos Humanos, Paz, Democracia e Tolerância, da USP. A professora considera que, muitas vezes, o que aparece na escola tem origem na violência sofrida na família, no bairro. “A violência, assim, entra na escola”, afirma. E acrescenta: “Outras vezes, há grupos distintos, de localidades distintas, que se opõem (tal como torcidas de futebol) e promovem brigas”. Flávia também ressalta a importância de a escola estar preparada para receber o aluno de hoje: “Outras vezes, pode ser uma escola que não tem um projeto pedagógico forte, que não explicou a que veio. Assim, o cotidiano parece vazio e sem perspectivas para os alunos”.

A autora chama a atenção para o perfil da escola em que a violência tem maior probabilidade de ocorrer: “Há escolas em que não houve condições de se criar um projeto, um ambiente livre de violência. São escolas de ‘passagem’, onde não há um corpo docente estável, tudo se revela precário, e a escola perde o sentido. Nessas escolas, há queixas mútuas de desrespeito e incivilidade que podem levar a situações de agressão”. Mas Flávia adverte que não são todas as escolas que convivem com essa situação: “A violência nas escolas não é uma fatalidade”. Ela ressalta que há escolas que, mesmo localizadas em “territórios violentos”, estão intocadas, conseguem se manter livres da violência por causa de um projeto educacional bem estruturado e que conta com a adesão da direção, da coordenação, dos professores e da comunidade local. “E não são poucas”, acrescenta.

Flávia comenta que a violência na escola é uma situação que existe há 20 anos, com casos de maior ou menor gravidade. “Há estudos e pesquisas sobre o tema e projetos públicos de intervenção desde os anos de 1990. Os acontecimentos se repetem, desde depredações e furtos até as violências múltiplas no cotidiano escolar, como brigas entre alunos, furtos etc.”, observa.

Para mudar

Miriam Abramoway ressalta que, além de um projeto pedagógico consistente, é necessário que o professor esteja bem preparado. “Saber ensinar é fundamental, não é só ter boa relação com os alunos”, ressalta. Ela revela dados de uma pesquisa que coordenou para o Ministério da Educação (MEC), que deve ser divulgada em breve, a qual mostra que o professor é figura central na vida dos alunos. “Os alunos [ouvidos na pesquisa] afirmaram que pelo professor que saiba ensinar, respeitar e ter uma relação que não os coloque para baixo, eles não vão embora da escola”. A socióloga acredita que quando há uma relação de respeito e valorização do professor, o cenário é diferente. E ela chama a atenção para a “vitimização” que o próprio professor alimenta. “Os professores têm essa sensação de que são vítimas sempre e pouco valorizam o que os alunos acham deles. Os alunos mostram ter uma visão muito mais positiva de seus professores do que os professores têm sobre os estudantes”, conclui.

Outro aspecto apontado por Miriam para a mudança é a incorporação, por estados e municípios, de uma política de convivência escolar, em que se tenha um diagnóstico sobre as escolas. “[O diagnóstico] é importante para sabermos o que está acontecendo, mas ninguém quer fazer porque tem um custo”, acredita a socióloga. Ela também chama a atenção para a capacitação de professores: “mas refiro-me à capacitação sobre questões relacionadas à convivência escolar”. O ideal, para ela, é que esse tipo de capacitação ocorra nas próprias escolas. “Cada escola pode ter o seu próprio projeto, mas elas precisam ter meios, possibilidades”. Outro aspecto relevante destacado pela socióloga é que a escola precisa dar ferramentas aos alunos, de modo que eles se apropriem da instituição escolar, sintam “que a escola é deles, e não algo exterior a eles, e possam, de alguma forma, participar [dessa escola], o que não acontece. Em geral, a escola é muito autoritária e não dá espaço para os alunos participarem de absolutamente nada”. Miriam sugere que isso pode ocorrer por meio de um grêmio, da discussão de regras ou do que será feito na escola, e destaca que esse tipo de política [de convivência escolar] pode ser proposta pelo MEC. No entanto, a execução deve ficar por conta dos estados e municípios. E completa: “Temos que estar mobilizando em relação a isso e à qualidade da educação. Não é possível ter uma escola de melhor qualidade se houver esse nível de violência e péssimas relações sociais”.

Flávia também considera que é fundamental contar com a possibilidade de integração entre todos os atores envolvidos com a escola, de modo “que se comprometam com um projeto que possa orgulhar todos os que dele participam”. A professora da USP observa que é importante ter em mente que esse processo sofrido e difícil acompanha uma grande conquista (mesmo que tardia) do país: “É a primeira vez na história que o Brasil universaliza o direito à educação, universaliza a educação como um direito, e esse é um grande desafio”. Ela considera ações como projetos de cultura de paz, comunidade presente e justiça restaurativa nas escolas bons exemplos. “Se trata de apoiar os adultos da escola para que consigam acolher os alunos e lidar com os conflitos que normalmente existem nela. A partir de um coletivo forte e que sabe a que veio, são criados acordos com alunos, pais e funcionários, em um ambiente de diálogo, que promovem projetos e apoiam os que precisam”, comenta.

Para Ivonete Cruz, vice-presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação Básica da Rede Oficial do Estado de Sergipe  (Sintese), é urgente enfrentar a questão da violência na escola. “Precisamos enfrentar essa questão da violência, que não é só da escola, mas também é um fator social que tem crescido e precisa ser combatido. É necessária uma política pública que garanta a segurança de todos”, enfatiza. Além disso, Ivonete considera fundamental que a discussão passe pela revisão do projeto político-pedagógico das escolas. “Deve haver diálogo com pais, estudantes e educadores sobre questões relacionadas à reprovação, à desistência, ao comportamento agressivo dos alunos”. Para a vice-presidente do Sintese, esses dois focos de ação – políticas públicas de segurança e ampla discussão do projeto político-pedagógico da escola – representam um caminho viável de mudança. “Temos uma carência muito grande de discussão coletiva nas escolas. Além disso, precisamos de escolas mais estruturadas, melhores condições de trabalho e formação inicial e continuada de qualidade para os professores”, afirma. O sindicato também destaca um trabalho em parceria com a Universidade Federal de Sergipe (UFS), no Estado, com o intuito de desenvolver um diagnóstico dos casos de violência e do cenário de vulnerabilidade nas escolas.

O Sintese acompanhou de perto o caso do professor Carlos Christian e, segundo Ivonete, o órgão também defende que o aluno, em geral, seja ouvido. “Precisamos, entre nós [educadores] e com os estudantes, dialogar mais, ouvir mais o aluno, saber o que ele pensa e espera da escola”, frisa. Deve ser priorizada a criação de uma relação verticalizada respeitosa entre os sujeitos da escola, com espaço de discussão e diálogo para alunos e pais. “A gente precisa construir a cultura do diálogo, senão não vamos dar conta. O conflito vem da ausência do diálogo, é uma questão inerente às relações humanas, mas o resultado desses conflitos depende de como dialogamos sobre eles. Ou o resultado será a violência, física e moral”, analisa.

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Matéria publicada na edição de novembro de 2014.

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