Não são apenas as novas tecnologias. O novo perfil de aluno também exige uma dinâmica diferente na sala de aula. O ensino focado nas competências e habilidades, como preconiza o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), também traz novas perspectivas ao processo educacional. Em meio a todas essas mudanças está o professor, responsável por administrar tudo isso e, mais do que nunca, manter-se atualizado. Para isso, encontrar tempo, recursos e disposição para a formação continuada é um desafio. Mas, além da capacitação profissional convencional, novas opções de aprimoramento estão surgindo, impulsionadas pela internet.

Na sociedade contemporânea, o professor tem um novo papel a desempenhar, que exige modelos de formação continuada que colaborem na organização de práticas de ensino mais instigantes, foquem no desenvolvimento de competências e habilidades básicas e preparem o educador para mediar processos de aprendizagem entre os alunos – não como notórios saberes, mas como especialistas que estimulem a reflexão e direcionem o processo de aprendizagem, inclusive sendo capazes de aprender com os alunos. Além disso, é preciso que esses modelos ensinem o professor a fazer uso pedagógico do computador, da internet e de outros dispositivos móveis, de forma a proporcionar oportunidades de reflexão sobre a prática docente re­lacionada à implantação das ações de ensino e aprendizagem e o papel do professor como agente transformador tanto dos alunos quanto de si mesmo, tendo como referência os quatro pilares para a educação no século XXI (aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a viver com os outros e aprender a ser). Essa relação de atributos para os modelos de formação continuada exigidos na atualidade faz parte do livro Crescer em rede, um guia para auxiliar professores a adotar as tecnologias digitais nos processos pedagógicos, lançado pelo Instituto Crescer. “O professor tem que usar a tecnologia, porque ela, hoje, já faz parte da vida das crianças e dos jovens. Mas a gente não conta para ele como se faz isso”, ressalta Luciana Allan, diretora técnica do Instituto Crescer, especialista em Tecnologias aplicadas à Educação e organizadora do guia. Segundo ela, falta orientação para que o professor possa não apenas se apropriar do recurso tecnológico, mas refletir sobre a importância da adoção desse recurso na estratégia pedagógica. “Não adianta a gente querer que o professor use o recurso se ele não tem tempo de entender para que serve e de pensar como ele vai explorá-lo em sua prática pedagógica”, comenta.

Para Luciana, hoje o grande desafio não está na adoção das tecnologias, mas na metodologia de trabalho. “A tecnologia ajuda a propiciar uma nova dinâmica na sala de aula. Na realidade, é necessária uma mudança de estratégia, e essa ferramenta só fomenta isso”, ressalta. Ela chama a atenção para o novo perfil de aluno que chega à escola: “é um aluno diferente daquele de vinte anos atrás. É um aluno mais crítico, muito mais participativo, que gosta de desafios, tem acesso à informação diversificada e deseja ser avaliado permanentemente”. A educadora acredita que esse aluno tem outra visão de mundo, outra dinâmica de interação e de relacionamento, além de outra forma de organizar o conhecimento. “A escola precisa trazer isso para a sala de aula”, considera. Para tanto, é fundamental que o professor entenda esse cenário, quem é esse aluno e que recursos tecnológicos são esses. “Com base nisso, o professor vai trazer uma nova proposta para a sala de aula, que seja muito mais aderente ao formato que os alunos querem”, observa.

Ela explica que o guia Crescer em rede é uma contribuição para que os professores possam refletir e colocar em prática o uso de tecnologias na educação. Organizado em dez módulos, a proposta é que seja feito um treinamento com os professores na própria escola. Além de apresentar a ferramenta tecnológica, o guia aborda a contribuição dessa ferramenta para o processo ensino-aprendizagem e propõe, ao final, o planejamento de atividades com uso dela. “O professor vai explorar a ferramenta e depois pensar em como trazê-la para a sua prática pedagógica”, explica Luciana. Por exemplo: o que é um blog, como fazer um blog e como usá-lo para o processo ensino-aprendizagem. O guia pode ser acessado gratuitamente no endereço eletrônico institutocrescer.org.br/cresceremrede/.

Formação em serviço

Redes de ensino de todo o País disponibilizam opções de formação continuada. Em São Paulo, por meio da Escola de Formação e Aperfeiçoamento de Professores (Efap) Paulo Renato Costa Souza, da Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, mais de 115 mil docentes participaram de cursos de formação em 2013, número 107% maior do que os 55 mil registrados em 2010. Segundo a coordenadora da Efap, Silvia Galletta, a escola oferece cursos para os quadros do magistério, de apoio escolar e de servidores da Secretaria da Educação. No caso dos professores, todas as áreas de ensino são trabalhadas. Por meio do programa Melhor Gestão, Melhor Ensino, os docentes das áreas de Língua Portuguesa, Matemática e Ciências, que atuam dos 6º ao 9º anos do ensino fundamental, foram contemplados no ano passado. De acordo com Silvia, a meta para 2014 é ampliar a abrangência do programa para os professores das disciplinas de História, Geografia, Inglês, Educação Física e Artes. Para o ensino médio, são trabalhados cursos por meio do programa Currículo e Prática Docente, que visam também à formação continuada em serviço.

Outro foco da Efap são os professores que ingressam na carreira do magistério da rede estadual. “A formação deles é acadêmica, mas o que eles precisam é de uma formação voltada a situações de sala de aula. É importante a formação acadêmica, mas o professor precisa estar mais direcionado às necessidades da escola”, ressalta Silvia. Segundo ela, neste ano está previsto o ingresso, por meio de concurso público, de cerca de 20 a 22 mil professores na rede. Os cursos para esses novos professores devem ser realizados durante o estágio probatório, com no mínimo 360 horas de formação.

O cronograma de cursos da escola obedece à demanda do setor e tem caráter abrangente, visando os professores da rede regular de ensino, bem como áreas mais específicas, como educação especial, ensino de jovens e adultos (EJA) e comunidades quilombolas. “A intenção é gerar melhora no processo ensino-aprendizagem, a partir do aprimoramento dos professores”, afirma a coordenadora. Os cursos da escola de formação combinam ensino a distância, por meio do sistema de videoconferências da Rede do Saber e ambientes virtuais de aprendizagem, com atividades presenciais e em serviço. “A meta é facilitar a formação continuada, sem tirar o professor da sala de aula”, comenta Silvia. A rede também incentiva a realização de mestrados e doutorados.

Professor despreparado

Apesar da oferta de cursos de formação continuada pelas redes de ensino ou de treinamentos como o proposto pelo guia Crescer em rede, o professor ainda não está habituado a esse novo ritmo de aprimoramento que a atualidade exige. “É fato que as formas como a escola está organizada e a dinâmica de trabalho é desenvolvida estão ultrapassadas. Por isso, o aluno não aprende, pois ele não consegue se motivar. E o professor quer mudar, mas, muitas vezes, não se sente apoiado”, afirma Luciana Allan, do Instituto Crescer. Em suas palestras, ela conta que sente que o professor “está angustiado”. Segundo

Luciana, entre as principais queixas dos professores estão questões como a falta de estrutura ou de abertura por parte da direção da escola. “Você ouve do professor: ‘Eu queria abordar [os conteúdos] de forma diferente, mas a estrutura que eu tenho na escola não me permite’. Já da parte do diretor, a queixa abrange a estrutura superior: ‘O MEC [Ministério da Educação] cobra que a gente trabalhe dessa forma’ ou ‘O meu cliente – o pai [do aluno] – acha que qualidade é caderno cheio’”, relata. A educadora observa que os professores não se sentem preparados não só por não terem uma base em sua formação, mas por não sentirem o apoio necessário. “Há espaço para mudar. O MEC tem diretrizes, mas há abertura [para inovar], porque há escolas com propostas pedagógicas totalmente fora do convencional. É necessário um trabalho de sensibilização, de mudança de cultura, por meio do qual devem ser trabalhadas a família, os alunos, os professores”, orienta a diretora do Instituto Crescer. E completa: “Tem que estudar muito e fazer as mudanças [pedagógicas] de forma bem planejada”.

O mais importante é que o professor esteja sensibilizado de que é necessário pensar de forma diferente. No caso das tecnologias digitais, Luciana enfatiza que o processo é simples. “Quando a gente dá um curso e o professor vê que tudo é simples, ele comenta: ‘sempre achei que era difícil, complicado’”, conta. De acordo com a educadora, é nesse momento que o professor percebe que uma mudança de estratégia, uma nova dinâmica para a aula, pode fazer com que os alunos se envolvam, participem e fiquem curiosos.

Como usar as tecnologias digitais para aprimorar sua prática pedagógica

Para Luciana Allan, diretora técnica do Instituto Crescer, há vários exemplos que ajudam a justificar o uso das tecnologias na educação, seja para o professor se aprimorar, seja para aprimorar uma aula. “Você extrapola os muros da escola, pode interagir de dentro para fora, de fora para dentro; há um movimento, uma dinâmica, o processo educacional ganha vida. Ele é criativo, é expansivo”, afirma. Para a educadora, “não dá mais para ficar fechado no livro didático, em uma atividade parametrizada, do mesmo tamanho para todo mundo, quando o mundo está aí, a informação está aí, a possibilidade de relacionamento com outras pessoas também está totalmente aberta”. Confira as dicas de Luciana para usar as tecnologias digitais, a fim de aprimorar sua prática pedagógica e mudar a dinâmica de sua aula.

Para acessar informação

A informação de que o professor e os alunos precisam não está necessariamente nos livros didáticos. Ela está disponível em diferentes formatos, em diferentes mídias, de diferentes formas.

Para trabalhar de forma colaborativa

O professor pode trabalhar com seus pares ou propor uma atividade que envolva alunos com alunos, alunos com professores, alunos com especialistas. Professor e alunos podem ter acesso a qualquer especialista, em qualquer lugar do mundo, para desenvolver um trabalho de pesquisa.

Para produzir conhecimento

O professor pode produzir materiais para divulgar em diferentes mídias os resultados de seu trabalho. Ele pode produzir vídeos, materiais diversos de comunicação, jogos, apresentação de slides. Há muitas coisas que podem ser produzidas para consolidar o processo de aprendizagem.

Para disseminar conhecimento

O professor pode usar a tecnologia também para disseminar o seu conhecimento em uma rede social, em um blog, no Youtube, no SlideShare. Ele ainda pode compartilhá-lo com a comunidade escolar e outras comunidades. Isso valoriza muito o trabalho que foi feito por ele. Além de disseminar, o professor pode receber um feedback das pessoas que têm a oportunidade de acessar o seu conteúdo.

 

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Matéria publicada na edição de janeiro de 2014.

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