Sentar, levantar, gesticular, ficar horas em pé, escrever no quadro, corrigir provas, carregar livros pesados. Essas ações fazem parte do dia a dia dos professores. Segundo o escritor e psiquiatra Augusto Cury, educar é semear com sabedoria e colher com paciência, e esta sabedoria também deve estar ligada à saúde do professor. De nada adianta passar horas estudando e preparando aulas se a máquina que irá executar as atividades estiver com defeito. A professora e fisioterapeuta Fernanda Oaigen, de Florianópolis (SC), afirma que os docentes devem ter a consciência de que o corpo é seu instrumento de trabalho e que, por isso, necessita de cuidados.

A vice-diretora do Colégio Marista Santa Maria, de Santa Maria (RS), Andréa Oliveira Vieira, concorda com a fisioterapeuta e vê essa realidade na instituição em que trabalha. A escola é composta por 80 professores e 1,2 mil alunos, atendendo desde a educação infantil até o ensino médio. “Os professores trabalham em muitos lugares e acabam não tendo tempo para fazer atividade física. Percebo que eles não têm nem a cultura do cuidado com a saúde, [pois] utilizam o seu corpo mais do que podem e não fazem o que devem para prevenir as doenças”, explica.

Andréa conta que ela mesma já passou por isso quando atuava em sala de aula: foi diagnosticada com L.E.R (Lesão por Esforço Repetitivo) no punho, por carregar cadernos muito pesados todos os dias e escrever no quadro. “Tive que recorrer ao fisioterapeuta e fizemos um tratamento de oito meses. Fiquei curada, mas mudei meus hábitos. Passei a fazer frequentemente caminhadas e musculação.”

Ao identificar essa problemática e ver inúmeras reclamações sobre dores nas costas, o Colégio Marista Santa Maria realizou trabalhos preventivos, incluindo algumas atividades laborais com os professores. “Foi ensinado o que pode ser feito no começo, meio e fim das aulas para relaxar o músculo. Neste ano, em especial, estamos trabalhando com a temática ‘Saúde do Professor’, fazendo com que eles reflitam sobre projetos pessoais, profissionais e sobre a saúde do corpo”, afirma Andréa.

A gestora também lembra que, nos dias atuais, a exigência com os professores é muito grande. “Não basta mais só ter conhecimento do assunto. Ele [o educador] tem que pesquisar e trazer novidades aos alunos. Com esse bombardeio de informações que temos, a atualização do professor é primordial para ele se manter no mercado. Mas, com isso, não sobra tempo para cuidar da saúde e, então, vem a nossa parte em fazer com que eles entendam a importância de se cuidarem. Isso é um desafio, pois é preciso uma mudança mental dos professores”, comenta a vice-diretora.

Segundo Andréa, o maior índice de problemas posturais está em professores de séries iniciais, que precisam se agachar muito para atender aos alunos e muitas vezes pegá-los no colo. A fisioterapeuta Fernanda lembra de um caso próximo a ela: “A mãe de uma amiga era professora de educação infantil, e por ter que carregar as crianças no colo e sentar ‘de índio’ para as brincadeiras teve sérios problemas nas articulações e recorreu a tratamentos fisioterápicos.”

Fernanda afirma que os problemas posturais mais comuns que acometem os professores são as dores na região lombar, na coluna cervical, no ombro, no punho e no cotovelo. “As dores lombares e cervicais são sofridas em função de ficar muito tempo em pé, numa mesma posição. Já ombro, punho e cotovelo ficam por conta de escrever na lousa com a postura errada. Normalmente, a má postura tensiona a cervical, podendo originar essas patologias nos membros superiores”, explica.

Como prevenir?  

A fisioterapeuta afirma que é essencial ao educador fazer um trabalho de consciência postural, adotando atividades físicas como yoga, pilates, Reeducação Postural Global (RPG), musculação e caminhadas. “São diversas opções de atividades físicas que temos hoje em dia, e todas auxiliam na consciência corporal e postural. O professor deve tirar um momento do seu dia para cuidar do seu corpo e no intervalo das aulas é fundamental fazer alongamentos, principalmente na [região] lombar, nos membros posteriores e superiores”, comenta.

Fernanda é professora em uma escola técnica de Florianópolis (SC). Faz um mês que ela está em sala de aula e já sente dores na região lombar. “Dou quatro horas de aula e procuro me alongar no intervalo. Outra coisa importante é utilizar sapatos confortáveis. Normalmente, opto pelo tênis. Evito salto alto, pois eles tensionam a [região] lombar, e as rasteiras, que, por não terem salto nenhum, não amortecem o impacto na coluna. É importante o sapato ter um pouquinho de salto para fazer este amortecimento, sem prejudicar a coluna”, explica.

A seguir, acompanhe os principais cuidados que podem ser realizados durante a aula, elencados pela fisioterapeuta Fernanda Oaigen.

Na lousa

Ao escrever na lousa, é importante que a altura da mão não passe do ombro; o braço deve sempre permanecer em uma curvatura de 90º. Se esse limite for excedido, o ombro estará sofrendo um impacto que não é bom para seu melhor funcionamento, ocasionando problemas como bursites, tendinites, síndrome do impacto do ombro, entre outros. “Os movimentos repetitivos por si só já se encarregam de sobrecarregar vários músculos e tensionar a [coluna] cervical. Se executados com uma postura errada, prejudicarão ainda mais os membros superiores, neste caso”, conta a fisioterapeuta.

Em pé

É muito importante saber usar a postura a favor do corpo. O abdômen protege a região lombar. Portanto, enquanto estiver em pé, o abdômen deve estar contraído, pois dessa forma a região fica encaixada perfeitamente. “Quando os pacientes chegam até mim, a maioria não tem esta consciência, e então trabalhamos para que ele passe a contrair o abdômen quanto estiver em pé. O pilates é uma das atividades que ajuda muito nesse caso”, lembra Fernanda.

Outro problema é sobrecarregar o corpo em um membro só. Deve-se parar reto, com os dois pés segurando o corpo, pois ao pender para um lado apenas, prejudica-se o joelho e as articulações daquela perna que está sobrecarregada. Caminhar durante a aula também auxilia a evitar esse excesso de carga nos membros.

A fisioterapeuta recomenda que haja uma variedade de posições durante a aula, e que inclusive deve haver um momento reservado para sentar. Porém, todos esses movimentos devem ser feitos com a postura ideal para o seu corpo. “A falta de mobilidade é ocasionada por ficar muito tempo na mesma posição, dessa forma o músculo fica sem mobilidade e não é nutrido. Por isso, sentimos dor quando saímos daquela posição e adotamos outra.”

Ao sentar

Os professores costumam ficar muito tempo sentados para corrigir provas, estabelecer planos de aula e estudar o conteúdo que será dado em sala, entre outras atividades. Porém, neste momento deve-se dar atenção à maneira como está a coluna. Segundo Fernanda, o apoio da coluna tem que estar sempre na cadeira com a região lombar no encosto; os ossinhos do “bumbum” também devem estar encaixados na cadeira, assim como os braços devem formar um ângulo de 90º em cima da mesa e os pés devem ficar apoiados no chão. “Desta maneira, nenhum músculo será tensionado e a atividade poderá ser realizada corretamente”, completa Fernanda.  

 

Matéria publicada na edição de junho de 2012.

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