No início de um romance, o coração costuma bater mais acelerado, e as mãos suadas denunciam o turbilhão de emoções dos novos apaixonados. O estudante que conta os minutos pelo resultado do vestibular também não tem a respiração nem o corpo tranquilos. Relaxar durante a entrevista do emprego tão almejado? Quase impossível. A ansiedade aparece em diversos momentos da vida, mas quando esse tipo de sensação se torna muito frequente e agudo, deixa de ser uma emoção comum para se transformar em risco à saúde e à qualidade de vida.

Diante de casos de transtornos de ansiedade, uma das primeiras preocupações dos médicos é identificar, junto ao paciente, o fator desencadeante da doença. Nessas conversas, é comum que situações ligadas ao ambiente de trabalho sejam identificadas como a origem do desenvolvimento do estresse elevado e, mais tarde, da ansiedade contínua. Não é de se estranhar que a saúde – e seus problemas – ande lado a lado com o cotidiano profissional. Afinal, o trabalho consome a maior parte do dia de cada um e é historicamente um fator essencial para a formação de identidade.

Autor do livro A saúde mental dos professores (Editora Expressão e Arte), o psicólogo e doutor em Educação Paulo Sérgio Silva defende que é justamente a frustração no trabalho o principal aspecto desencadeador de transtornos mentais entre os professores da rede pública no Brasil. “Para ter saúde mental ligada ao trabalho, um dos principais elementos é sentir resultado com o que você faz. Mas os nossos professores não estão tendo o prazer do trabalho realizado. O aluno sai do ensino fundamental sem saber os conteúdos fundamentais”, argumenta. 

Na avaliação de Silva, a falta de autonomia dos docentes nas escolas públicas também prejudica os profissionais da área. “O sistema é muito autoritário. O professor não participa do processo de organização das escolas. A estrutura funcional lembra um quartel. O professor se sente acuado”, afirma.

A presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Educação do Rio Grande do Sul, Rejane de Oliveira, defende que os professores constituem um grupo profissional vulnerável quando o assunto é saúde. A partir de uma pesquisa realizada em escolas gaúchas no ano passado, a entidade traçou um plano de ação para prevenir o surgimento de transtornos ligados ao trabalho e apoiar aqueles educadores que sofrem preconceito dos próprios colegas. Para a sindicalista, é fundamental que os transtornos de origem mental sejam devidamente diagnosticados. “A legislação não está preparada para receber profissionais com esse tipo de doença”, afirma. Com a parceria de uma equipe de consultores na área de Saúde do Trabalho, o Cepers desenvolveu a Cartilha da saúde dos educadores e realizou eventos de formação sobre essa temática.

Os especialistas lembram, contudo, que as condições de trabalho não são os únicos fatores responsáveis pelo surgimento de transtornos da ansiedade. “Várias pessoas podem estar submetidas a um mesmo ambiente, com um nível grande de desconforto, mas têm que haver uma predisposição genética para que algumas desenvolvam transtornos de ansiedade”, explica a médica psiquiatra Patrícia da Veiga Chaves Picon, professora da faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). 

Além da genética, a convivência colabora para fortalecer essa predisposição herdada dos pais. “Uma mãe ansiosa não vai conseguir dar o suporte e a tranquilidade à criança em situações momentaneamente difíceis”, complementa a médica psiquiatra Lizete Pessini Pizzi, professora do curso de Psiquiatria do Centro de Estudos Luís Guedes, de Porto Alegre (RS).

O tratamento para os transtornos de ansiedade pode envolver várias abordagens e incluir o uso de medicação – os mais comuns são os ansiolíticos, próprios para diminuir a tensão. “O médico precisa descobrir quem é essa pessoa que está sofrendo desse transtorno e por quê”, ressalta Lizete. Em casos extremos, a recomendação é o afastamento definitivo do ambiente desencadeador do estresse, o que pode incluir o local de trabalho. Mas mesmo esse tipo de mudança não dispensa atenção contínua à saúde. Para quem sofre com transtornos de ansiedade, controlar as próprias emoções é um aprendizado longo e para toda a vida. 

Entendendo o transtorno

De acordo com Lizete, a ansiedade é uma sensação que faz parte da vida. “É como um alarme que cada um de nós tem. Mas ela se transforma num transtorno, numa doença, quando tem muita intensidade e aparece com excesso de frequência.”

Essa espécie de pressão desagradável no peito, difícil de ser definida por quem sente, normalmente é acompanhada por outras reações, como suor, palpitação e inquietude. São esses e outros sinais manifestados pelo corpo que auxiliam os médicos na hora do diagnóstico. “Muitas vezes, as pessoas não se dão conta de que estão com ansiedade e procuram ajuda médica por causa dos sintomas físicos”, explica a especialista. Para quem ignora o problema, as consequências podem se agravar. “A crise de ansiedade acelera o funcionamento do corpo. Isso vai sobrecarregando o organismo e há uma possibilidade maior dessa pessoa vir a ter problemas cardíacos. É importante reconhecer, em primeiro lugar, por que a pessoa sofre. É uma dor física importante e que tem tratamento”, afirma a médica.

A ansiedade pode aparecer de diversas formas. Por isso, o Código Internacional de Doenças usa a classificação de grupo de transtornos de ansiedade. Os transtornos de ansiedade generalizada e a síndrome do pânico são os mais conhecidos, embora tenham características diferenciadas. “O transtorno do pânico é episódico, isto é, são ‘crises’ de pânico que podem depois vir acompanhadas de ansiedade persistente com temor de novas ‘crises’. Já o transtorno de ansiedade generalizada é um estado mais ou menos constante de ansiedade, que pode aumentar em situações em que a pessoa não está na sua ‘zona de conforto’. Por isso se diz que sua intensidade é flutuante, dependendo de eventos externos ou internos”, esclarece a psiquiatra.

 

Matéria publicada na edição de abril de 2012.

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