Dores fortes no estômago, queimação e suor frio. Maria das Graças Ribeiro Alves, 59 anos, professora aposentada de História e Geografia, de Roseira (SP), convive com esses sintomas há mais de 30 anos. O diagnóstico: gastrite e úlcera; esta última, Maria teve sete vezes ao longo da vida, passando por vários tratamentos.

Segundo especialistas, estima-se que uma em cada cinco pessoas apresenta sintomas de gastrite ou úlcera. Essas doenças gastrointestinais acometem principalmente adultos com mais de 30 anos, sendo a prevalência um pouco maior em homens do que em mulheres. Os sintomas são variados como queimação, azia, dor na “boca do estômago” e empanzinamento (quando a pessoa tem a sensação de que comeu muito), mas em alguns casos a doença pode ser assintomática.

A gastrite corresponde à inflamação da mucosa (camada de tecido) que reveste o estômago. Já a úlcera gástrica é um processo inflamatório mais profundo e severo, pois acomete outras camadas e forma lesões no estômago. Ela também pode ser uma úlcera duodenal, quando está presente no duodeno (primeira porção do intestino delgado). “Quem tem úlcera não obrigatoriamente teve uma gastrite, mas isso é comum. O paciente com gastrite pode vir a ter úlcera com a piora da doença, mas elas são patologias distintas”, explica o médico gastroenterologista Jaime Zaladek Gil, do Hospital Albert Einstein e da Escola Paulista de Medicina (Unifesp-EPM).

As complicações mais frequentes são perfurações e sangramentos. Segundo o médico, o câncer de estômago não está relacionado diretamente a esses problemas gastrointestinais, mas os sintomas são semelhantes e também acompanham perda de peso e vômitos. “O paciente que apresenta sintomas recorrentes de gastrite ou úlcera deve procurar um especialista para avaliar o seu caso, o que é importante para inclusive descartar a existência de doenças mais graves como o câncer de estômago”, orienta o médico.

Além da avaliação clínica, o exame endoscópico é a principal forma de diagnóstico. Apesar de muitas pessoas acreditarem que as gastrites e úlceras são causadas por fatores emocionais, como o estresse, isso é um mito. “Evitamos usar o termo gastrite nervosa porque o estresse não é uma causa direta das lesões. No entanto, ele pode agravar os sintomas”, informa Gil.

O gastroenterologista explica que a principal causa dessas duas doenças é a presença de uma bactéria no estômago. “Ingerimos diversas bactérias pela boca todos os dias, seja por meio da alimentação ou das atividades diárias. Apesar de a maioria morrer no estômago devido à sua acidez gástrica, a H. pylori consegue resistir, causando lesões”, conta. De acordo com estudo da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP), cerca de 60% da população global é acometida pelo microrganismo – mas nem todos desenvolverão as doenças gastrointestinais. Outros fatores de risco estão associados às doenças, como o uso intenso de remédios, principalmente anti-inflamatórios, e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas.

Alguns alimentos podem piorar os sintomas e desconfortos. No passado, os médicos restringiam bastante a dieta dos pacientes, mas com o avanço dos tratamentos há atualmente maior flexibilidade quanto ao que se pode ou não comer. “Pedimos para o paciente observar aquilo que mais o incomoda e recomendamos evitar alimentos e bebidas muito quentes, frituras e comidas gordurosas, ácidas ou condimentadas, pois podem piorar a sintomatologia”, informa Gil. Com o tratamento, geralmente administrado com antibióticos, é possível controlar os sintomas e até curar as doenças. 

Estresse

Apesar do estresse e do nervosismo não serem causas diretas das gastrites e úlceras, essas situações podem agravar os sintomas do paciente. “Com o estresse, o paciente fica mais sensível e ocorrem mudanças na barreira de proteção da parede do estômago, que [assim] produz mais ácido, ocorrendo um desbalanço”, explica Gil.

A professora Maria das Graças sabe bem o que é isso. Com mais de 23 anos de atuação no ensino médio e fundamental, em escolas públicas e privadas, sentia na pele os efeitos do estresse na saúde, o que piorava os sintomas da gastrite e da úlcera. Ela conta que com a extensa jornada de trabalho, a qual durava até três turnos por dia e com as salas cheias, vivia uma rotina estressante e não tinha tempo para cuidar da saúde. “Não me alimentava direito. Às vezes tomava apenas leite ‘Ninho’ e pão de manhã, ficando sem comer até a hora do jantar. Eu também bebia muito café quando chegava à escola e tinha o hábito de tomar muitos remédios”, conta. Felizmente, Maria das Graças conseguiu dar a volta por cima. Adotou uma alimentação mais saudável e conseguiu controlar as doenças com tratamentos homeopáticos.

Mas o estresse continua a fazer parte do dia a dia de muitos professores. É o que mostrou uma pesquisa da Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), do Rio Grande do Sul. A pesquisa, que contemplou mais de 200 professores do ensino infantil, fundamental, médio e superior do Rio Grande do Sul, revelou um índice significativo de estresse entre os docentes, com expressivos prejuízos à saúde. “A prevalência de estresse na amostra estudada foi de 58,4%, e os sintomas que mais se destacaram foram o cansaço excessivo e a tensão muscular”, conta a coordenadora do estudo Janine Kieling Monteiro, professora da Graduação e Mestrado de Psicologia da Unisinos e doutora em Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Denominada “Avaliação do Nível de Estresse em Professores do Ensino Privado do Rio Grande do Sul”, a pesquisa também apontou os principais fatores de estresse: sobrecarga de atividades extraclasse, excesso de tarefas, falta de interesse ou desmotivação dos alunos, falta de educação ou limites dos estudantes, baixa remuneração e prazos curtos para executar o trabalho. “Assim, as queixas que mais apareceram foram cansaço excessivo, tensão muscular e dores lombares. Outros estudos também mostram que o estresse pode estar associado a doenças alérgicas, imunológicas, asma, coronárias (infarto) e estomacais, como gastrite e úlcera”, destaca a pesquisadora.

Dicas para os professores viverem melhor – com ou sem gastrite

  • Evite o uso abusivo e recorrente de medicamentos anti-inflamatórios;
  • Diminua o consumo de bebidas alcoólicas;
  • Evite alimentos de origem desconhecida, assim pode estar evitando produtos contaminados, diminuindo o risco da bactéria causadora da doença;
  • Ao apresentar sintomas recorrentes, procure a ajuda de um médico gastroenterologista;
  • Reduza os fatores de estresse, adotando mudanças pessoais: pratique atividade física, melhore sua alimentação, diminua o número de tarefas diárias e garanta um tempo para o repouso;
  • Para evitar situações de estresse no trabalho busque ambientes mais agradáveis, turmas menores de alunos, apoio em atividades administrativas e burocráticas.
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