Carga horária de dois ou três turnos, tarefas fora do horário de trabalho, falta de tempo para o lazer e atividades físicas, além de hábitos como pular refeições, passar o dia à base de café e biscoitos, almoçar um lanche na cantina da escola, entre outras situações comuns na rotina de muitos professores, fazem do educador um candidato potencial a desenvolver uma das doenças que mais afetam os brasileiros: a obesidade.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 1,4 bilhão de adultos com 20 anos ou mais estavam acima do peso em 2008. Destes, mais de 200 milhões de homens e cerca de 300 milhões de mulheres eram obesos. No Brasil, dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) revelam que o excesso de peso atinge cerca da metade da população adulta, e a obesidade afeta 12,5% dos homens e 16,9% das mulheres.

A obesidade é uma doença crônica, caracterizada pelo acúmulo excessivo de gordura corporal. O parâmetro para o diagnóstico é o do Índice de Massa Corporal (IMC). Para calculá-lo, divide-se o peso pela altura elevada ao quadrado, sendo o peso considerado dentro da faixa de obesidade quando o IMC está acima de 30 kg/m². Do ponto de vista metabólico, é mais comum que a mulher distribua a gordura, inicialmente, no quadril. Já no homem a gordura concentra-se na cintura. O endocrinologista Josivan Gomes de Lima, professor de Endocrinologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e secretário da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), explica os riscos da gordura no abdômen. “A gordura visceral é a grande vilã, pois produz substâncias que aumentam a pressão, o colesterol, o diabetes e o ácido úrico”, informa.

De acordo com especialistas da área, alguns problemas e doenças associados à obesidade são diabetes tipo 2, hipertensão, dislipidemia (níveis elevados de lipídios no sangue), apneia do sono, artroses, doenças cardiovasculares e alguns tipos de cânceres. As causas estão ligadas a hábitos alimentares, sedentarismo, fatores genéticos e, mais raramente, a problemas hormonais ou outras disfunções. Já o tratamento envolve a adoção de hábitos saudáveis como reeducação alimentar, prática de atividades físicas e, eventualmente, medicamentos ou outros procedimentos, conforme a orientação médica. Entre as medicações que auxiliam no tratamento estão alguns antidepressivos e substâncias de uso controlado.

A nutricionista Maisa de Grande dos Santos, de São Paulo (SP), que atende professores com frequência, diz que o nutricionista pode passar orientações de acordo com a rotina e horários do educador. “Recomendo aproveitar os intervalos dos alunos para fazer um lanche leve como fruta ou iogurte, beber bastante água, evitar café com açúcar, optar por merenda, refeição balanceada ou levar marmita e evitar comer lanches”, explica.

Professores doentes

Uma pesquisa do Sindicato dos Professores do Rio Grande do Sul (Sinpro-RS) com 1.680 educadores, realizada em parceria com o Departamento Intersindical de Estudos e Pesquisa de Saúde e dos Ambientes de Trabalho (Diesat), mostra que 70% dos entrevistados sempre ou frequentemente realizam tarefas fora do horário de trabalho, muitas vezes em prejuízo do horário de lazer ou descanso. A pesquisa aponta que a obesidade atinge 23% dos professores. Os outros problemas de saúde citados foram dores (71%), problemas de sono (59%), rouquidão e perda de voz (49%), problemas alérgicos (47%), tendinite e problemas de articulação (44%). Ainda, gastrites (27%), enxaquecas (33%) e hipertensão (19%).

Para Cassio Bessa, diretor do Sinpro-RS, fatores como acúmulo de trabalho, pressão e estresse, jornada de trabalho extensa, falta de lazer e descanso, problemas financeiros, entre outros, fazem com que os docentes estejam mais vulneráveis. “É uma soma de fatores; o professor acaba não dando conta e adoece”, diz Bessa.

O estudo também revelou problemas emocionais como estresse (35%), ansiedade (32%) e depressão (11%), entre outros. Segundo a psicóloga Alecxandra Mari Ito, pesquisadora do Diesat e pós-graduada em Saúde Coletiva pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), a persistência desses quadros emocionais pode gerar diversos problemas correlatos, inclusive transtornos alimentares. “A ansiedade muitas vezes está mais associada à voracidade e, a depressão, à perda desta. Entretanto, elas não são o problema em si. No caso dos educadores, o ritmo acelerado e a sobrecarga de trabalho são os principais pontos a serem considerados como causa do desequilíbrio”, explica.

Polêmica

O problema da obesidade chegou a gerar polêmica na rede pública de ensino paulista. Em 2011, o Governo do Estado de São Paulo precisou reavaliar a situação de 304 professores que, após aprovação em concurso público, foram reprovados na perícia médica por serem obesos. O assunto causou polêmica, pois alguns docentes sentiram-se discriminados. Após a segunda perícia, de acordo com o noticiado na época, 17% ainda foram reprovados por obesidade. Procurada pela revista Profissão Mestre, a Secretaria de Gestão Pública do Estado de São Paulo informou que o exame pelo qual passam os candidatos não visa avaliar apenas a capacidade de trabalho do profissional, mas também “fazer um prognóstico da sua vida funcional, de forma a ingressar numa carreira que dura, em média, 30 anos”. Ainda segundo a nota enviada, “a obesidade, por si só, não é considerada fator impeditivo para o ingresso na carreira pública”.

Dando a volta por cima

A vida moderna e o ritmo agitado prejudicam cada vez mais a qualidade de vida das pessoas. No entanto, é possível remar contra a maré. Foi o que fez a professora do ensino fundamental e pedagoga Karina Serafim Pinheiro, de 32 anos, de São Paulo (SP). Ela conta que até pouco tempo sofria com o “efeito sanfona” de engordar e emagrecer, tomava remédios, sentia cansaço e nervosismo. Com a agenda cheia o dia todo, sobrava pouco tempo para se cuidar. Mas quando o marido passou mal e precisou parar de fumar, os dois priorizaram a saúde. “Começamos a fazer caminhadas e há cerca de seis meses fomos juntos para a academia. Começamos com 40 minutos na esteira, depois musculação e aulas de hidroginástica duas vezes por semana”, relata Karina. Animada e com alguns quilinhos a menos, a professora conta que a prática regular de exercícios traz mais disposição. “Antes não tinha vontade de fazer nada, agora estou mais ligada e durmo melhor. Na sala de aula também estou mais esperta, antes ficava mais sentada”, relata.

Dicas para começar a se mexer

  • Adote uma atividade física três vezes ou 150 minutos por semana.
  • Escolha uma atividade física prazerosa.
  • Faça atividades físicas não programadas, como subir e descer escadas, parar o carro mais distante e descer do ônibus um ponto antes.
  • Utilize um pedômetro na cintura para contar quantos passos você deu ao longo do dia.
  • Priorize e busque uma solução; se você deixar para fazer algo quando tiver tempo, nunca terá!

Fonte: Josivan Gomes de Lima, professor de Endocrinologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e secretário da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).

+ Educação
Assine a newsletter mensal e gratuita +Educação e receba ainda mais conteúdo no seu e-mail!