Pesquisa com videogames de ação revelou ganhos em diferentes habilidades, sobretudo relacionadas ao foco

Os jogos, em especial os tecnológicos ou digitais, podem trazer benefícios para o cérebro que vão além da diversão. Para avançar nos desafios propostos pelos games, os indivíduos que se dedicam a essa prática acabam desenvolvendo melhores habilidades visuais, motoras e cognitivas, capazes de produzir mudanças na plasticidade cerebral. Contudo, não são todos os jogos que geram esse impacto e descobrir o que vale a pena levar para a sala de aula tem sido objeto recente de estudo dos neurocientistas voltados à educação.

O professor Marco Aurelio Bassi, mestre em Tecnologia da Informação e docente do curso de pós-graduação em Neurociência Aplicada à Educação, da Universidade Anhembi Morumbi, destaca que já existem várias pesquisas que confirmam a utilidade dos jogos no processo de aprendizagem. “O que é novo nesse aspecto é que temos que levar em consideração que jogos digitais, on-line ou não, trazem consigo alguns benefícios adicionais pela utilização dos sentidos, exigência de atenção e ganhos no aspecto da psico e neuromotricidade fina”, avalia. Contudo, Bassi enfatiza que o desempenho no aprendizado é uma equação complexa, relacionada a diferentes fatores internos, que afetam a cognição, o interesse pelo conteúdo e a capacidade de atenção. De qualquer modo, os jogos estimulam interações sucessivas de conhecimento, com base em sua evolução em fases, eficazes para melhorar o processo de análise e reavaliação quando bem utilizados. Na prática, isso significa saber decidir melhor e mais rápido.

Maior velocidade na tomada de decisões é um dos efeitos positivos obtidos pelo treinamento com videogames de ação no estudo, em laboratório, conduzido por Daphne Bavelier, pesquisadora da Universidade de Rochester, em Nova York (EUA), professora da Universidade de Genebra, na Suíça, e Ph.D em Ciências Cerebrais e Cognitivas. Depois de 50 horas jogando games de ação em primeira pessoa, durante dez semanas, os jovens adultos participantes da pesquisa apresentaram melhores habilidades visuais em relação ao grupo controle, como a capacidade de distinguir contraste e tons de cinza. Além disso, aqueles que jogaram tiveram maior performance em testes mentais de rotação de objetos. A prática de jogos de ação também está relacionada a um melhor desempenho em diferentes aspectos da atenção, como a habilidade de focar e eliminar distrações para realizar um objetivo, e na capacidade de executar múltiplas tarefas simultaneamente. “O mecanismo principal está relacionado ao controle da atenção. Do ponto de vista neuronal, os videogames de ação fazem com que se tenha mais facilidade em manter o foco”, explica Daphne. Além disso, a professora revela que aqueles que jogam esse tipo de game são melhores aprendizes. “Essas pessoas têm mais facilidade em aprender porque sabem escolher o que é relevante e podem suprimir distrações e ruídos”, complementa a neurocientista.

Senso numérico e aprendizado de matemática

Os jogos também podem servir para aprimorar o aprendizado de algumas disciplinas, como a Matemática. Um estudo realizado em setembro de 2014, com 500 crianças de 6 anos de idade de 30 classes provenientes de dez escolas no Uruguai, avaliou como o treinamento em senso numérico influencia o desempenho em matemática. O senso ou a estimativa numérica consiste na capacidade que os seres humanos, assim como os animais, têm de estimar a quantidade de elementos ao seu redor. De maneira geral, alguém com boa habilidade estimativa apresenta também uma performance satisfatória em matemática. “Isso é importante porque podemos dizer que treinar o sistema de senso numérico ou a estimativa em estágios muito precoces da vida poderia melhorar o desempenho em matemática”, afirma Alejandro Maiche, responsável pelo estudo e professor em Psicologia Cognitiva na Universidade da República, em Montevideo (UY).

Os estudantes, de diferentes níveis socioeconômicos, passaram por pré-testes e intervenções por meio de jogos instalados em tablets, durante cinco semanas, englobando dez sessões de 40 minutos. Os jogos demandavam das crianças a estimativa referente à quantidade de pontos coloridos presentes nas animações. “Houve um incremento no desempenho em matemática nos estudantes de todos os níveis socioeconômicos da avaliação”, revela Maiche. Entretanto, os resultados foram mais significativos para as crianças com pior performance prévia na disciplina, o que também acompanha o nível socioeconômico. “A melhoria no aprendizado foi mais alta naquelas crianças que eram menos competentes em matemática. O sistema de número aproximado e da matemática simbólica mostra que esse tipo de intervenção é benéfica”, afirma o pesquisador. 

Aplicabilidade na educação

Apesar dos estudos acerca dos benefícios dos jogos para a educação avançarem, ainda faltam profissionais capacitados e especializados na aplicabilidade desses instrumentos no cotidiano escolar, na opinião de Marco Bassi. “Os professores não têm grande vivência nesse assunto e acabam por não modificar os planos de ensino para acomodar os jogos e usá-los como ferramenta eficaz no suporte do processo de ensino e aprendizagem”, ressalta. O professor também acredita que essa tecnologia ajuda a despertar o interesse dos alunos, nativos digitais, pelos conteúdos. “As aulas ficam mais dinâmicas, mais participativas, e já há estudos que indicam uma melhora cognitiva de mais de 20% na média”, acrescenta.

Daphne Bavelier faz uma ressalva quanto ao uso de jogos no contexto educacional. A neurocientista explica que os efeitos de um tipo de jogo de videogame não podem ser generalizados e que os impactos no cérebro são diferentes para cada um deles. “Precisamos de mais pesquisas para saber qual videogame influencia qual aspecto da cognição e como podemos usar essas tecnologias na educação da melhor maneira possível”, defende. 

Sites com jogos educativos gratuitos

hub-ed.com.br – jogos baseados no currículo do ensino básico

noas.com.br – jogos divididos por disciplinas

www.escolagames.com.br – para crianças a partir de 5 anos

smartkids.com.br/jogos-educativos – para crianças até 10 anos

escolakids.com/jogos – conteúdos separados por disciplinas

Fonte: Sites sugeridos pelo professor Marco Aurelio Bassi, docente da pós-graduação em Neurociência Aplicada à Educação da Universidade Anhembi Morumbi

+ Para saber mais

- Rede Nacional de Ciência para a Educação – Conta com vídeos das palestras de Daphne Bavelier e Alejandro Maiche no I Simpósio Internacional de Ciência para Educação: www.cienciaparaeducacao.org

- Bavelier Lab – Laboratório de Neurociência Cognitiva da Universidade de Genebra: cms.unige.ch/fapse/people/bavelier

Reportagem publicada na edição de janeiro de 2016

Imagem: Designed by Freepik

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