Aprender um instrumento na infância traz benefícios para o desenvolvimento cognitivo e para o cérebro que permanecem até a velhice 

Ter um bom ouvido, capaz de distinguir diferentes sons, conseguir repetir um ritmo e sincronizá-lo com outros são habilidades importantes na música e produzem efeitos na aprendizagem. Por causa dos benefícios que o treinamento musical traz para o cérebro, neurocientistas e pesquisadores ligados à educação estão conduzindo estudos para mensurar o impacto no desenvolvimento cognitivo e levar esse conhecimento para a sala de aula.

As pesquisas partem da análise de aptidões mais primordiais, como a capacidade de sincronia e estimativa de tempo, aspectos importantes não apenas para o aprendizado musical. Essa habilidade, que pode passar até despercebida, é essencial para diversas formas de interação. Em uma conversa, o interlocutor precisa usar essa percepção para saber quando falar ou calar; durante uma caminhada em grupo, ela ajuda a não ser rápido ou devagar demais, ou seja, significa saber fazer as coisas de maneira coordenada, assim como em uma orquestra. “Se a habilidade de processar e estimar o tempo é ruim, todas as ações que envolvem interação com outras pessoas serão prejudicadas”, explica Victor Minces, pesquisador do Departamento de Ciência Cognitiva da Universidade da Califórnia, em San Diego, nos Estados Unidos.

Minces realizou um estudo com 102 alunos do ensino fundamental, com idade entre 8 e 11 anos, com o objetivo de verificar a relação entre sincronicidade rítmica e capacidade de atenção. A pesquisa foi inspirada pelas observações do etnomusicologista Alex Khalil, também da Universidade da Califórnia, que percebeu enquanto ensinava gamelão (instrumento típico da Indonésia) que as crianças com maior dificuldade em ritmo eram também aquelas com menor nível de atenção geral.

Para testar essa hipótese, foram usados instrumentos parecidos com o gamelão, dotados de sensores para medir o quanto os estudantes estavam sincronizados com o professor. Paralelamente, os pesquisadores avaliaram o nível de atenção dos alunos por meio de questionários e testes no computador. “Nosso estudo mostrou que sincronia e atenção estão correlacionadas”, revela Minces. Isso significa que quanto maior a capacidade de atenção, melhor é a sincronia. Apesar de o estudo sugerir que praticar música com ênfase em ritmo pode ajudar no desenvolvimento cognitivo, os pesquisadores ainda não podem atestar com certeza se, ao melhorar a sincronia rítmica, é possível aumentar também a capacidade de atenção. “Essa é uma questão fundamental e estamos atualmente organizando um experimento para respondê-la”, diz o pesquisador.

Capacidade auditiva e leitura

Outros estudos também relacionaram a capacidade de sincronizar um ritmo à melhor performance em atividades linguísticas, como a leitura. Aparentemente, as habilidades necessárias para se tornar um bom leitor são maiores nos músicos. A estrutura do cérebro de indivíduos com conhecimento musical não é diferente dos outros; contudo, algumas respostas a certos aspectos, como ritmo e som, apresentam-se reforçadas. Segundo Dana Strait, pesquisadora do Laboratório de Neurociência Auditiva da Universidade Northwestern, em Illinois, nos Estados Unidos, os músicos têm habilidades cognitivas auditivas maiores durante toda a vida. E, quanto mais tempo de atividade musical, mais elevados são os efeitos benéficos. “Com a idade, nossa capacidade cognitiva auditiva declina, mas músicos apresentam melhor capacidade mesmo na velhice”, explica a neurocientista.

Músicos têm mais aptidão em distinguir diferentes padrões de som e para ouvir a fala em meio a ruídos. O cérebro de pessoas com treinamento musical é menos afetado por barulho. Já as crianças com problemas de leitura geralmente apresentam grande dificuldade em identificar a fala em meio a ruídos. O aprendizado musical desde a infância seria uma maneira eficiente de fortalecer os mecanismos envolvidos na capacidade de leitura. 

Efeitos duradouros

Os pesquisadores têm se dedicado a analisar e comparar o cérebro de músicos e não músicos para descobrir o impacto dessa habilidade ao longo da vida. Os estudos realizados pelo Laboratório de Neurociência Auditiva da Universidade Northwestern revelaram que tocar um instrumento protege os indivíduos do declínio neural relacionado à idade. Mesmo depois de pararem de tocar, os adultos que estudaram música quando crianças ainda desfrutam dessas vantagens cognitivas. “O cérebro continua a aproveitar esses benefícios na velhice, mesmo depois de 40 anos que as aulas de música terminaram”, afirma Dana Strait.

Outros estudos, conduzidos pela francesa Mireille Besson e pela norte-americana Nina Kraus, revelam a influência do aprendizado musical na melhoria do processamento fonológico, fator diretamente ligado à performance de leitura e escrita e, consequentemente, ao desempenho escolar. Já as pesquisas do canadense Glenn Schellengberg relacionam o conhecimento musical a um aumento no Q.I. (quociente de inteligência).

Apesar de serem recentes, esses estudos, conduzidos na última década, apontam resultados promissores para estreitar os caminhos entre a música e a aprendizagem escolar. Os neurocientistas já sabem que quanto mais cedo e prolongado for o ensino musical, melhores serão os efeitos. Falta descobrir o que privilegiar nesse tipo de aprendizado. “Uma pergunta muito importante que buscamos responder em nossos estudos é exatamente qual aspecto da música pode influenciar qual aspecto da cognição. Elucidar essa questão pode conduzir ao desenvolvimento de programas de música mais efetivos nas escolas”, ressalta Victor Minces.

+ Para saber mais

  • Rede Nacional de Ciência para a Educação - www.cienciaparaeducacao.org – com vídeos das palestras de Victor Minces e Dana Strait no I Simpósio Internacional de Ciência para Educação

 

Reportagem publicada na edição de dezembro de 2015

 

Imagem: Designed by Freepik

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