A República no Brasil nasce no fim de 1889 e um de seus legados adversos é a questão da educação, em particular a da escola primária. Esta, em suas várias modalidades, ganhará paulatinamente centralidade no período da Primeira República (1889-1930) por vários motivos: elevada taxa de analfabetismo, crescimento demográfico brasileiro e desenvolvimento capitalista periférico, o qual se constituirá significativa e progressivamente. Tal centralidade gradualmente crescente se evidenciará em termos de interiorização e de expansão, pelo menos em alguns estados, como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro.

Uma expressão significativa da Primeira República no Brasil será a instauração dos grupos escolares, fenômeno que ocorre de modo paulatino no país desde a última década do século XIX até as três primeiras décadas do século XX. Tais grupos escolares implantaram a escola primária graduada e seriada, formada pelo agrupamento das escolas isoladas masculinas e femininas, legado do período imperial.

Entretanto, se de um lado a escola primária é alavancada pela instauração dos grupos escolares, de outro lado deve ser ressaltado, com base em informações estatísticas vindas a público em 1922, que tal realização não é pujante como se pode averiguar. A seguir, serão apresentados três exemplos: a) a concentração de grupos escolares instalados em São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro; b) o número de escolas isoladas em relação ao número de grupos escolares nos mesmos estados; c) a correlação entre o número de escolas públicas e particulares.

Em primeiro lugar, os estados de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro somam 71,1% dos grupos escolares instalados no país em 1922. Ao se correlacionar apenas os dados sobre a totalidade dos grupos escolares e das escolas isoladas de todos os estados, conclui-se que esses três estados correspondem a apenas 5,5% das escolas isoladas do país, ou seja, depois de mais de três décadas de regime republicano, a forma superior de escola primária ainda é muito pouco difundida.

Em segundo lugar, os três estados mencionados (São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro), também em 1922, apresentam escores mais elevados quanto ao número de grupos escolares; por outro lado, revelam uma quantidade significativamente alta de escolas isoladas, posto que estas atingem a casa dos 89,3% dos grupos escolares no Rio de Janeiro, 89,2% em São Paulo e 89,1% em Minas Gerais.

Em terceiro lugar, em relação ao número de escolas particulares e em comparação com o número de escolas primárias públicas, pelo menos três estados – São Paulo, Santa Catarina e Pernambuco – apresentam percentuais importantes quanto às dimensões pública e privada: 45,8% das escolas primárias são particulares em São Paulo; 35%, em Santa Catarina; 31%, em Pernambuco.

Tais informações estatísticas, com seus respectivos percentuais, permitem, além da quantificação, uma avaliação qualitativa da escola pública, no sentido de estabelecer o dimensionamento da escola primária no Brasil em 1922, ano de comemoração do centenário da independência brasileira. A relevância dessas informações permite estruturar uma visão panorâmica sobre a escola primária e situar alguns estados no contexto da política republicana depois de três décadas sob a orientação de tal regime.

Entre o passado educacional, um legado imperial e o futuro a ser enfrentado pela Segunda República (1930-1945), a mensagem mineira (de 1930) focaliza o presente brasileiro, com 65% de analfabetos, da seguinte forma: “A educação publica tem que ser por muitos annos o grande problema nacional e há de preoccupar intensamente quantos brasileiros de boa vontade detenham, entre nós, uma parcella de poder” (mensagem dirigida por Antonio Carlos Ribeiro de Andrada, presidente do estado de Minas Gerais, ao Congresso Mineiro, em sua 4ª sessão ordinária da 10ª Legislatura no anno de 1930. Bello Horizonte: Imprensa Official do Estado de Minas Geraes, 1930, p. 29). Se em 1890 o recenseamento brasileiro registrou um analfabetismo de 82,6% da população com 5 anos ou mais, depois de 30 anos, 71,2% da população era analfabeta. Embora não tenhamos recenseamento em 1930, estima-se em 65% o índice de analfabetismo. Em suma, a Primeira República, em seus 40 anos, estava apenas dando início ao combate ao analfabetismo brasileiro que ainda resiste atualmente.

Autor: José Carlos Souza Araujo é doutor em Educação, professor dos programas de pós-graduação em Educação da Universidade de Uberaba (Uniube) e da Universidade Federal de Uberlândia (UFU). 

 

Artigo publicado na edição de outubro de 2014.

+ Educação
Assine a newsletter mensal e gratuita +Educação e receba ainda mais conteúdo no seu e-mail!