O que prejudica o incentivo à leitura na escola é o fato de o prazer de ler não estar presente nessa esfera. No ensaio “Alguns equívocos sobre leitura”, publicado no livro Silenciosa algazarra: reflexões sobre livros e práticas de leitura (Companhia das Letras), Ana Maria Machado ressalta que o prazer de ler anda em outra esfera, diversa da satisfação de responder corretamente às perguntas do professor ou da ficha de leitura. “O texto literário, como lembra Freud, faz da arte poética um jogo de sedução e tenta atrair o leitor que, então, tem o prazer de se sentir desejado e querer corresponder a esse desejo, também desejando o texto”, ressalta. E resume: “isso se desenvolve com a prática, não se ensina com fórmulas ou receitas”.

Ela refere-se à “grande curtição de ler”. “A gente lê, deixa-se levar, e aprecia. Lê o que quer, como quer, quando quer. Sem cobrança. Muito diferente do que se institucionalizou como sistema de leitura nas escolas, onde se lê apenas para uma cobrança, para explicações, para interpretações, para descobrir mensagens”, discorre. E completa: “para fazer uma prova valendo nota”.

Ana Maria ressalta que o encontro entre um leitor e um texto merece ser respeitado. “Se as políticas de leitura se preocuparem em garantir um acervo de qualidade, por pequeno que seja, e um tempo e um espaço na escola para que esse encontro possa acontecer, já estarão cumprindo sua missão”, enfatiza a autora.

Formação de professores

Além de alertar sobre a falta de ações que realmente propiciem o estímulo à leitura na escola, a presidente da Academia Brasileira de Letras defende a inclusão da leitura de narrativas (de história e de literatura) na formação de todos os professores. Ana Maria defende, com veemência, a necessidade de formação de professores leitores. “A burocracia educacional não tem a mais leve intimidade com literatura, morre de medo de se ver frente a um texto de poesia, ficção ou ensaio, e fica se sentindo insegura e perdida diante de uma linguagem que não se reduz a palavras de ordem, fórmulas ou receitas”, afir­ma. E prossegue: “se não se tratar disso, a alternativa é pior ainda: ou seja, conhecem o valor da literatura, mas querem manter o magistério distante dela e do deslumbramento que é sua fruição, porque temem perder poder e controle se os professores começarem a ler e a pensar por conta própria, se conhecerem história, se aprenderem a discordar e a argumentar de forma convincente”. No mesmo ensaio, a autora dispara: “por tabela, perpetua-se uma educação deficiente e garante-se a supremacia da ignorância, aquela tal ameaça à democracia que denunciavam os pensadores...”.

Equívocos

Entre os equívocos em relação às ações de estímulo à leitura praticados por professores e escolas, a autora cita o que ela acredita que se convencionou chamar de “desmistificação” do autor, algo associado ao culto contemporâneo das celebridades. Ana Maria critica o pensamento que prega que a criança precisa da presença física do escritor, em uma visita à escola, para poder gostar de seus livros ou para ser estimulada à leitura. A autora também é enfática ao condenar práticas do tipo “escreva a um escritor”. A ação dos divulgadores das editoras, prometendo presença de autores e várias outras vantagens em troca da adoção de um livro também é rechaçada. Ela resume: “trata-se de uma prova de que [todas essas práticas] não prova[m] nada em termos de qualidade literária ou de encontro com o verdadeiro prazer que um leitor tem em ler”.

Sugestões ao professor

No mesmo texto, Ana Maria Machado destaca ações que considera positivas em relação ao trabalho do professor, com foco no estímulo à leitura: levar as crianças a palestras ou a feiras de livros, favorecer a frequência dos alunos a bibliotecas e livrarias, conversar e desenvolver atividades sobre leituras feitas. Além disso, a autora considera positivo procurar acesso a informações ou entrevistas de escritores na mídia, em vídeos ou na internet, bem como solicitar às editoras que os integrem no trabalho de divulgação dos livros.

 

Matéria publicada na edição de novembro de 2013.

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