Desde bem cedo, elas já pegam celulares, tablets e deslizam os dedinhos; é quase automático. Já sabem muito bem o que fazer com esse aparato tecnológico. Aos 3 anos, praticamente dominam a tecnologia, de forma que muitos adultos sentem inveja. Para a especialista em Educação Infantil e Psicopedagogia, Denise de Lima Tinoco, toda experimentação e manipulação devem ser acompanhadas, monitoradas e com tempo determinado. Isso quando acontecem em casa. Já na escola, o uso das diferentes tecnologias deverá ser pensado de modo que favoreça diferentes mediações com as crianças.  “Com os bebês e as crianças bem pequenas, a exploração dos objetos tecnológicos são atividades importantes. Depois do aparecimento do ‘jogo simbólico’, as interações podem ficar mais intensas e divertidas”, avalia Denise. E completa: “Mas é importante frisar que criança precisa brincar, se movimentar e interagir com outras crianças. Não podemos nos esquecer de oferecer atividades que favoreçam o desenvolvimento de aspectos psicomotores, afetivos e sociais dos pequenos”, lembra a educadora.

Ela ressalta que, atualmente, tanto no contexto escolar como na vida privada das crianças são feitas inúmeras tarefas com a ajuda das tecnologias, e as instituições de ensino, desde a educação infantil, podem adotar diferentes possibilidades de interação por meio de tecnologias. Denise destaca o uso de televisores, DVDs, computadores e, mais recentemente, tablets e smartphones com recursos didáticos destinados à leitura de textos, pequenas pesquisas, interações com jogos, manipulações de instrumentos musicais virtuais, construção de mapas lúdicos e atividades pedagógicas.

Há escolas que implantam sistemas educacionais que aliam o conteúdo digital ao convencional, por meio da utilização de tablets, desde a educação infantil. Esse é o caso dos colégios JK e JK Júnior, de Brasília, em que, por meio de uma parceria com um sistema de ensino, desde o Grupo 3 (composto por alunos na faixa etária de 3 anos), a tecnologia está presente. Para o coordenador de Educação Tecnológica da escola, Marcelo Molina, as novas tecnologias podem ser inseridas na sala de aula desde as séries iniciais. Segundo ele, o mais importante não é quando elas devem começar, mas de que forma. “Antigamente, a educação infantil era um espaço de descobertas e brincadeiras. As crianças usavam o tempo para aprender com base na contação de histórias, na construção de castelos e brinquedos e na aprendizagem do compartilhar. Essa abordagem continua sendo necessária para o desenvolvimento das crianças. Mas, com as mudanças do mundo, a escola também teve que mudar”, observa. Molina afirma que cabe à coordenação e à direção da escola, com o auxílio do professor, a descoberta de novos assuntos e ideias e a condução desse descobrimento, por meio do qual o aluno possa usar a tecnologia para ampliar a forma do aprender.

 

Projeto pedagógico tecnológico

Um projeto pedagógico que considere as ferramentas tecnológicas não pode focar no uso da tecnologia em momentos distintos, singulares, somente em sala de aula, mas sim em como essas ferramentas podem fazer parte do todo para o aprendizado. Esse é um ponto principal para Marcelo Molina, que adverte que hoje o professor não precisa pensar e detalhar como vai escrever com o giz para anotar um conteúdo no quadro. No entanto, o giz é uma tecnologia, básica, mas ainda assim uma tecnologia. Para ele, o mesmo acontece com o uso dos tablets. “A sua funcionalidade pode ser minimizada ou ampliada de acordo com o objetivo traçado pelo professor ou coordenador”, afirma o educador.

Outra preocupação deve ser com a formação do professor que trabalhará com essas crianças, visto que, ao mesmo tempo que ele usa a ferramenta no seu dia a dia, ainda não sabe, bem ao certo, utilizá-la como instrumento pedagógico.  O coordenador enfatiza que o professor precisa capacitar-se para usar essa metodologia digital. “Esse treinamento não pode ter como objetivo apenas o uso da ferramenta tecnológica, mas também de uma nova abordagem da pedagogia para uso da tecnologia”, afirma. Segundo ele, a escolha da ferramenta que será utilizada também deve ser criteriosa. Com os tablets, os alunos têm uma gama de aplicativos e precisam associar o aprender ao brincar, mas, ao mesmo tempo, avançar nas construções mentais sem perceberem que estão aprendendo, e isso faz a maior diferença nessa faixa etária.

Todos os fazeres na educação infantil exigem cuidado. Assim como no mundo real, o mundo virtual e seu uso com crianças pequenas exigem olhares atentos, sensíveis, constantes, além de profissionais para que se possam aproveitar as múltiplas interações que são possíveis com as novas tecnologias. “De forma mais direta, precisamos ter cuidado com o tempo de exposição e interação dos pequenos com jogos, filmes, musicais, luzes, sons. Cuidado com a escolha dos jogos e brincadeiras, respeitando sempre a faixa etária e o desenvolvimento cognitivo, motor e afetivo das crianças”, afirma Denise.  No dia a dia, a educadora acredita que é preciso vencer os obstáculos de interação entre a criança, o meio e o objeto para o sucesso do uso das tecnologias na educação infantil e, por fim, encontrar o equilíbrio da rotina escolar, de forma diferente, com os pequenos.

Sugestões de atividades com as novas tecnologias

- Contar histórias, tendo como base um tablet.

- Utilizar playlist de músicas infantis para embalar as brincadeiras nas salas de aula ou na hora do repouso.

- Realizar pequenas pesquisas sobre assuntos que estão sendo trabalhados pelas turmas.

- Possibilitar que as crianças registrem, por meio de tablets, celulares ou máquinas digitais, as diferentes flores, formigas, pedras, folhas, plantas e borboletas que existem nos jardins da escola ou parques da cidade e, em seguida, propiciar o compartilhamento das imagens.

- Elaborar pequenos vídeos com cantoria, fragmentos do cotidiano, pequenas encenações e compartilhar com os bebês e as crianças.

- Utilizar um game já conhecido pelas crianças e promover um campeonato entre a turma.

- Organizar entrevistas com diferentes atores da escola, deixar que as crianças façam as perguntas e, em seguida, elaborar um arquivo e partilhá-lo com a comunidade escolar.

- Organizar um hipertexto com os pequenos, com mediação do professor, sobre um assunto estudado em sala de aula.

- Criar página da escola em redes sociais e inserir grupos das turmas para estimular os alunos a verem e interagirem com base nas fotografias do cotidiano escolar.

- Organizar pequenos relatos orais com as crianças, sons da natureza, barulhos do cotidiano, gravar em diferentes mídias e explorar na roda de conversa.

- Organizar bandinhas com a exploração de sons de instrumentos musicais virtuais.

Fonte: Professora Denise de Lima Tinoco

Atividade de Artes

O professor deve pedir ao aluno para explicar o que ele entendeu do trabalho artístico de determinado pintor. A criança poderá fazer uma representação do trabalho do artista desenhando no tablet. Para isso, poderá usar um aplicativo de desenho, que substitui o papel pela tecnologia digital. Depois, o professor pode enviar o trabalho do aluno por e-mail para a apreciação dos pais e, posteriormente, gravar em vídeo uma explicação da obra de arte feita pelo próprio aluno. Para concluir, o professor pode estipular uma avaliação coletiva dos colegas por meio de um mecanismo on-line, como blog, site ou wiki (ferramenta baseada no princípio de colaboração), para que os colegas, com a ajuda dos pais, possam ver e modificar os trabalhos.

Fonte: Marcelo Molina, coordenador de Educação Tecnológica do Colégio JK

 

Matéria publicada na edição de agosto de 2014.

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