A transição de uma etapa de ensino para a outra sempre envolve muitos fatores: novos colegas, mais matérias, conteúdos mais avançados, outros professores. Assim, a mudança do ensino infantil para os anos iniciais do ensino fundamental tende a ser bastante traumática, pois, se uma etapa é focada mais na brincadeira, a outra já começa a preparar o aluno para as etapas seguintes de educação. Essa ruptura, na opinião de especialistas, não pode existir, e o trabalho entre os ensinos infantil e fundamental I deve ser mais coeso e unificado. “É um processo caótico, totalmente fragmentado. Não existe interlocução entre os professores do infantil e os do fundamental”, critica Gabriel Junqueira Filho, pedagogo e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Junqueira afirma que o maior erro está na mudança de concepção da criança de uma etapa para outra: “A educação infantil tem uma especificidade e o fundamental tem outra especificidade. Na educação infantil, as pessoas dizem que as crianças precisam brincar porque são crianças e brincar é um jeito que a criança tem de aprender. No fundamental é tudo diferente, porque as crianças param de brincar. Criança é quem tem até 12 anos de idade, mas a escola olha para ela de maneira totalmente diferente no fundamental. É uma concepção de infância totalmente desconsiderada. A partir dos 6, 7 anos, acabou a inocência, a criança já tem responsabilidade”. O pedagogo também acredita que parte do problema vem do próprio Ministério da Educação (MEC), no qual os departamentos do ensino infantil e do fundamental são separados – postura que se alastra até às menores escolas. “Cada um fala do seu lugar, mas esses grupos não se encontram. Já passou da hora desses grupos se juntarem e fazerem um alinhamento até o quinto ano do ensino fundamental”, diz.

Gabriela Medeiros Nogueira, coordenadora do programa de pós-graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) e pesquisadora do Núcleo de Estudo e Pesquisa em Educação da Infância (Nepe), destaca também as mudanças nos espaços físico e temporal das crianças na escola. “Em geral, a organização do espaço nas salas de educação infantil tem toda uma especificidade, começando pelo tamanho do mobiliário que, de modo geral, é menor do que os convencionais, os cabides para as mochilas que estão na altura das crianças, os espaços organizados em formas de ‘cantos’, por exemplo: o cantinho da leitura, dos brinquedos, do teatro, da cozinha, das almofadas, enfim, os cantinhos variam de acordo com o espaço da sala e a criatividade do professor”, comenta. E acrescenta: “A rotina da educação infantil também é mais flexível em relação aos anos iniciais, e os tempos são diferenciados, pois não há (ou não deveria haver) uma obrigatoriedade em vencer tal conteúdo ou atividade. Em geral, também há mais tempo para atividades no pátio, atividades com brinquedos e atividades em que a criança pode criar e entrar no mundo da imaginação e da fantasia. Do mesmo modo, as diferentes linguagens como a pintura, a modelagem, a expressão corporal, a música e a dança costumam fazer parte da rotina da educação infantil”, relata Gabriela.

Apesar de apontarem os vários problemas, os especialistas concordam que não é possível alcançar uma transição ideal, mas que melhorias podem – e devem – ser feitas. “As secretarias que cuidam disso deveriam pensar tudo em conjunto. Se você pegar as diretrizes do infantil e do fundamental, elas reafirmam a animosidade e a oposição entre um e outro. Portanto, tinha que começar pelo ministério [MEC], para chamar ambos os lados para conversarem e fazerem esse realinhamento. Se o MEC não faz isso, os professores e os gestores de cada lado devem fazer. As equipes que estão trabalhando na escola sabem dessa cisão e também podem fazer esse realinhamento”, afirma Junqueira. Já Gabriela pensa em ações mais práticas, focadas em aumentar a relação e a convivência entre as crianças das duas etapas de ensino. “É importante conhecer o que é próprio de cada etapa e, principalmente, o que é realizado no cotidiano, a fim de se pensar em estratégias que coloquem a criança em primeiro plano. Pensar em ações que envolvam ambas as etapas, para que as crianças possam desde a educação infantil conhecer os espaços e os professores dos anos iniciais do ensino fundamental, e para que as crianças que estão no 1º ou 2º anos possam revisitar os espaços que já passaram e, de certa forma, conviver com os professores anteriores”, explica a pesquisadora.

 

Pedagogia da infância

Os dois especialistas também destacam que, com as novas Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de graduação em Pedagogia, os professores recém-graduados já saem da faculdade com um preparo para tornar esse trabalho mais harmônico. “Considero que é necessário, portanto, pensar em uma perspectiva da pedagogia da infância que tem como propósito o atendimento das crianças de 0 a 12 anos. Essa perspectiva prioriza o respeito ao direito de ser criança para além das fronteiras institucionais, que separam a educação infantil do ensino fundamental e vice-versa, sem perder de vista as especificidades que constituem cada etapa da educação básica”, diz Gabriela. Junqueira, por outro lado, acredita no potencial da formação continuada para capacitar os educadores e promover um trabalho mais coeso entre as etapas de ensino. “Eventos de formação continuada são ideais para chamar a atenção para esse ponto. A transição é um ponto pouco trabalhado. As pessoas não querem conflitos, e quem paga o pato são as crianças”, atesta o professor gaúcho, que conclui: “A transição do ensino infantil para o ensino fundamental é muito encantada. Ela ainda precisa ser desmontada e articulada para que as pessoas abram o olho para isso”.

 

Matéria publicada na edição de julho de 2014. Confira a matéria completa na edição impressa.

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