Sermos o protagonista de nossa própria história. Essa é uma das grandes possibilidades que a vida nos propicia e um convite com o qual nos deparamos nas mais diversas áreas do conhecimento. Desde o nascimento, somos cercados por pessoas, que dividem conosco saberes, vitórias, medos e desejos. Por muitos anos, na sala de aula, o protagonista era apenas o professor, que despejava conhecimentos do mesmo modo que as aves mastigam o alimento para facilitar a vida dos filhotes. O discurso começa a inverter-se com o chamado protagonismo compartilhado, adotado na educação infantil, em que professor e aluno dividem a importância em sala de aula e formam o triângulo professor-aluno-conhecimento.

A ideia do triângulo pedagógico tem intenso debate na Itália desde a década de 1970 e, no Brasil, abrange os últimos 20 anos. No capítulo “O papel do pedagogista” em As cem linguagens da criança (Ed. Artmed), a pedagoga Tiziana Filippini, que trabalha com a questão, destaca que a imagem da criança a partir de reexames da filosofia educacional e da teoria psicológica evoluiu muito. Ela explica que cada criança é única e protagonista de seu próprio conhecimento, tem muita capacidade para a curiosidade e anseia por criar relacionamentos com os outros e comunicar-se.

Para a professora da Faculdade de Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Maria Carmen Silveira Barbosa, pós-doutora pela Universidade de Vic, na Catalunha (Espanha), o protagonismo compartilhado é a afirmação plena de que na educação todos têm importância. “A família, as crianças, os professores e outros profissionais da escola, todos compartilham do projeto educacional com papéis e funções diferentes. Essa ideia é defendida pela abordagem italiana de educação infantil”, explica.

Maria Carmen, ou professora Lica Barbosa, trabalha no Programa de Pós-Graduação em Educação na UFRGS, na linha de pesquisa Estudos sobre as Infâncias, atua como investigadora do Grupo de Estudos em Educação Infantil (Gein) e participa do Movimento Interfóruns de Educação Infantil. Para ela, o conceito de protagonismo compartilhado aborda a criança como um ser humano que não é incapaz, incompleto, mas alguém que está iniciando-se no mundo de modo ativo. “Essa concepção está presente na história da pedagogia ao longo do século XX com a escola ativa e seus seguidores. Nos últimos vinte anos, o campo da sociologia da infância vem enfatizando e aprofundando esse conceito, com base em estudos empíricos realizados em escolas ou outros espaços educacionais”, esclarece Lica.

Nesse debate, o professor aparece como a imagem de alguém que não está centrado apenas na transmissão direta de conteúdos disciplinares, em função de outros recursos técnicos mais eficientes que são oferecidos pela sociedade do conhecimento. “Mas é alguém que acompanha as crianças na aventura humana de perguntar, pesquisar, experimentar e conhecer o mundo”, diz a professora.

Sobre os benefícios que o protagonismo compartilhado traz para a educação infantil, Camila Bettim Borges, pedagoga e mestre em Educação Infantil pela UFRGS, destaca a quebra na dicotomia dos saberes produzidos entre professores e crianças. “Nessa perspectiva, tanto educador quanto crianças estão em pleno processo de aprendizagem, portanto, as trocas são significativas, intensas e provocam a busca por outros conhecimentos”, diz. “Além disso, essa prática promove uma compreensão das crianças como sujeitos que produzem teorias e conhecimentos sobre si, os outros e o mundo”, assinala a professora, que também é analista da Educação Complementar do Serviço Social do Comércio do Rio Grande do Sul (Sesc-RS).

A professora Lica Barbosa ressalta que a educação da criança se dá a partir de uma dimensão complexa de mundo e de educação. Aprender na educação infantil, para ela, é um processo que tem apoio nas brincadeiras e na exploração do saber da infância. “O professor tem o papel de instigar os alunos e aprofundar, sistematizar e oferecer novas e desafiadoras perguntas”, afirma. E completa: “Não apenas repetir todos os anos a mesma proposta”.

Até a universidade

A relação professor-aluno-conhecimento como triângulo pedagógico da educação pode ser aplicada tanto na educação infantil quanto nos ensinos médio e superior, defendem alguns especialistas. Ao abordar as práticas pedagógicas que podem ser adotadas para o exercício do protagonismo compartilhado, eles defendem a ideia da participação da criança e da família no processo educacional.

Participação das famílias

De acordo com a professora Lica Barbosa, do ponto de vista da gestão, é necessário constituir estratégias de diálogo com as famílias para que a educação das crianças tenha princípios em comum.

Participação dos alunos

Ela defende que os professores devem gerir no dia a dia seu grupo de alunos, considerando-os capazes de participar dos caminhos e das decisões sobre as metodologias e os conhecimentos. “As crianças podem participar dos processos de planejamento e avaliação e quanto mais elas aprendem sobre eles, mais capazes ficam de aprender a planejar-se para os estudos”, afirma Lica.

Ações pedagógicas

Para a professora Camila Bettim Borges, todas as ações pedagógicas promovidas no espaço escolar podem ser um exercício para o protagonismo compartilhado. “Deve-se entender que o protagonismo compartilhado é uma forma de compreender a educação, seus atores e suas práticas. É uma forma de compreender e vivenciar as crianças, o professor e seus papéis nos espaços escolares”, diz.

A harmonia do triângulo

Para que a tríade educando - saber-educador, criada pelo especialista francês em Educação Philippe Meirieu, autor de Aprender... Sim, mas como? (Ed. Artmed), concretize-se, todos os lados do triângulo devem funcionar em harmonia. Nesse caso, o professor é quem precisa estar mais bem preparado para dividir com os alunos o conhecimento. Sem essa adaptação, o protagonismo compartilhado está fadado a desandar.

Sobre o preparo dos docentes para encarar esse novo desafio, a professora Lica Barbosa salienta que há um peso imenso da tradição no campo educacional. Há muitas experiências em escolas públicas e privadas, mas elas ainda são isoladas. “Nossos cursos de formação e nossas escolas, apesar de não estarem obtendo sucesso com as crianças, têm muito medo de mudar”, afirma.

A pedagoga Camila Bettim Borges, por sua vez, acredita que a tendência é que essas novas concepções de ensino sejam construídas nos espaços das escolas infantis. Ela reconhece que há, por parte dos educadores, um esforço grande em compreender o seu próprio lugar e o das crianças a partir de outras formas de pensar. “É uma discussão sobre a escola infantil na contemporaneidade que precisa ser ampliada”, assinala Camila.

As especialistas destacam que é urgente introduzir o conceito de protagonismo compartilhado na formação dos educadores, que atuam nos diversos níveis do aprendizado. “Ainda formamos para uma sociedade muito hierarquizada e pouco participativa. Ora, esse mundo autoritário está agonizando”, sentencia Lica Barbosa.

 

Matéria publicada na edição de abril de 2014.

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