Assegurada pela Constituição Federal de 1988, o atendimento a crianças de zero a seis anos em creches e pré-escolas, isto é, à educação infantil, tem atraído cada vez mais a atenção de educadores a respeito da importância – e da necessidade – de se fazer uma “revisão de concepções sobre educação de crianças em espaços coletivos, e de seleção e fortalecimento de práticas pedagógicas mediadoras de aprendizagens e do desenvolvimento das crianças”, conforme preconizam as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, publicadas pelo Ministério da Educação (MEC).

De acordo com Heloisa Helena Oliveira de Azevedo, docente da Faculdade de Educação e do mestrado em Educação da PUC-Campinas (SP), além de doutora na área de Formação de Professores de Educação Infantil, elaborar uma proposta curricular pressupõe esclarecer, em primeiro lugar, quem são os sujeitos que vivenciarão esse conjunto de conhecimentos e de experiências que estão sendo propostos e quais objetivos se pretendem alcançar ao final. “No caso da educação infantil, qual a concepção de criança que norteará a elaboração desse currículo? Quem é a criança e como pretendemos educá-la a partir de sua inserção nesse conjunto de aprendizados de diferentes naturezas que é o currículo escolar?”, indaga. Para ela, os currículos de educação infantil, no momento atual, precisam levar em consideração as crianças “do mundo de hoje”, com tudo o que elas têm disponível no seu dia a dia para se desenvolverem e aprenderem. “O acesso aos recursos materiais e interativos que as crianças de hoje têm é muito diferente do acesso das crianças de 15 ou 20 anos atrás”, diz Heloisa, referindo-se ao fato de ainda existirem currículos elaborados com base em uma concepção romantizada de criança, que as concebe como seres frágeis, ingênuos e apenas necessitados de cuidados de higiene, lazer e alimentação, o que reforça a ideia de que as crianças vão para uma escola de educação infantil apenas para serem cuidadas e para brincar. “Essa é uma visão já superada em relação à criança e sua educação desde o final do século XX”, afirma.

A linguista Sandra Bozza, socióloga, escritora e professora de pós-graduação em Metodologia de Língua Portuguesa, Linguística, Literatura Infantil e Letramento e Práticas Alfabetizadoras, ressalta a necessidade de priorizar a organização do currículo centrada em três amplos eixos: a descoberta de si, a descoberta do ambiente natural e social e a interação e a linguagem. Esses eixos, porém, “precisam ser decompostos de maneira que a ação das crianças sobre si, sobre o outro e sobre o mundo seja uma ação mediada pela vivência, pela reflexão e pelo uso daquilo que é refletido. Em outras palavras: vida e aprendizado não são desvinculados”, pondera.

Cuidar e educar

No livro Educação infantil e formação de professores: para além da separação cuidar-educar (Ed. Unesp), Heloisa analisa as razões que influenciaram a construção do binômio cuidar-educar. Na opinião da autora, cuidado-educação, enquanto binômio, pressupõe ações impossíveis de ocorrerem isoladamente, ou seja, uma ação está sempre articulada à outra. Entretanto, vale ressaltar que a origem das instituições de atendimento infantil ocorreu por motivos filantrópicos e assistenciais, enfatizando práticas de cuidados de higiene e de alimentação, o que não elimina o caráter educativo que sempre está presente em qualquer forma de interação das crianças com os adultos. “Embora não houvesse declaradamente a intenção de oferecer atendimento educativo, ele estava implícito em todas as ações realizadas com as crianças, constituindo seu processo educativo”, avalia. E completa: “Essa característica se perpetuou no atendimento às crianças pequenas e, hoje, mesmo com tantos avanços científicos que nos permitem melhor entender as crianças e seu desenvolvimento, ainda se realizam práticas pedagógicas que consideram estarem apenas ‘cuidando’ ou apenas ‘educando’ as crianças”, aponta.

A autora observa ainda que, para que essas ações não sejam vistas como “meros cuidados”, os professores precisam reelaborar suas concepções em direção a uma visão histórica e crítica de criança e de educação infantil, que concebe as crianças como seres históricos e sociais, que têm nos adultos os principais responsáveis por sua inserção na sociedade.

Práticas pedagógicas

Em 2010, o MEC publicou as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil, fixadas pela Resolução n. 5, de 17 de dezembro de 2009. O texto apresenta “princípios, fundamentos e procedimentos definidos pela Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação para orientar as políticas públicas e a elaboração, o planejamento, a execução e a avaliação de propostas pedagógicas e curriculares de Educação Infantil”.

Para Sandra, o desenvolvimento de tais práticas deve basear-se em experiências que levem em consideração, em primeiro lugar, a ação e a participação ativa das crianças em brincadeiras, jogos e movimentos, e, em segundo lugar, o trabalho com todas as linguagens (oral, plástica, musical, corporal, matemática e escrita). “Para que essas situações de aprendizagem contribuam, efetivamente, para o desenvolvimento humano, deverão possibilitar o exercício do imaginar, indagar, antecipar, supor, questionar, planejar, prever e realizar algo. Assumir o protagonismo desses atos leva à verdadeira aprendizagem por parte da criança. Em suma, é isso que tanto se tem afirmado com o jargão ‘colocar a criança como centro de sua própria aprendizagem’”, explica.

As Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil preveem que as instituições de atendimento infantil ofereçam recursos e materiais para que as crianças aprendam e se desenvolvam plenamente, ou seja, que essas instituições cumpram sua função sociopolítica e pedagógica. “Para que isso seja atendido, são indispensáveis: ambiente físico apropriado aos diferentes agrupamentos etários de crianças e professores bem formados. Além disso, é fundamental a articulação das ações dessas instituições com as famílias das crianças”, complementa Heloisa.

 

Para elaborar o currículo da educação infantil

- Definir a concepção de criança que norteará a elaboração desse currículo, quem é a criança e como se pretende educá-la a partir de sua inserção nesse conjunto de aprendizados de diferentes naturezas que é o currículo escolar.

- Organizar o currículo centrado em três amplos eixos: a descoberta de si, a descoberta do ambiente natural e social e a interação e a linguagem.

- Promover experiências que levem em consideração a ação e a participação ativa das crianças em brincadeiras, jogos e movimentos, além do trabalho com todas as linguagens: oral, plástica, musical, corporal, matemática e escrita.

Fontes: Heloisa Helena Oliveira de Azevedo e Sandra Bozza

 

Confira as dicas das especialistas para os professores da educação infantil

- Invista em sua formação profissional e em conhecimentos teórico-práticos.

- Assuma o papel de “investigador”: profissional com postura reflexiva sobre sua prática, sua postura e a reação de seus alunos.

- Confie na criança e permita que ela mostre, pacientemente, o que sabe e o que pode fazer sozinha.

- Diversifique materiais, propostas de trabalhos, ambientes e objetos de reflexão.

- Desafie os alunos com questões ainda não vivenciadas.

- Favoreça a ampliação e a complexificação da linguagem, utilizando um linguajar adulto e com vocabulário variado.

- Possibilite a presença de representantes da comunidade (profissionais, familiares, especialistas) para dialogar e expor questões de interesse das crianças.

 

Matéria publicada na edição de março de 2014.

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