A partir de uma peça teatral, a didática é trabalhada – é assim na escola Teia Multicultural, de São Paulo. A pedagoga Geórgia Correa conta que inclui o texto cênico no planejamento escolar, com base nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN). “O texto será montado no segundo semestre, mas os conte­údos que podem partir dele são explorados desde o primeiro [semestre]”, explica. Neste ano, o texto escolhido foi A maravilhosa história do sapo Tarô-Bequê (do autor Márcio Souza). “As turmas pesquisaram a descoberta do fogo, a Amazônia e seus rios, o encontro das águas, os animais, a geografia, os índios e suas ocas, o tupi, a música, sua comida, fizeram maquetes, desenhos, ampliações, cenário e figurinos. Aplicaram, ainda, as quatro operações matemáticas, descobriram que lá teve o primeiro vulcão, fizeram gráficos, montaram uma minifloresta na Sala de Movimento, criaram fogão à lenha e fizeram comparativos regionais”, elenca. Assim, o conhecimento se torna palpável, as responsabilidades são delegadas e o aprendizado diverte os estudantes. “Quando saem daqui, não têm medo de se colocar”, afirma Geórgia.

Ela destaca que o trabalho com as atividades teatrais desenvolve a percepção corporal. “É criado um mapa da movimentação cênica”, observa. Na montagem, diferentes turmas fazem o cenário fixo, os adereços e o figurino. A pedagoga explica como é feita a escolha do texto: “pego indicações ou uso o teatro, que fiz até os 23 anos. Metade das propostas do PCN é abordada com base no texto e, [para abordar] a outra metade, usamos as ideias que estão por trás, mas podemos abordar outros temas”. Geórgia comenta ainda que as equipes se aproximam, movimentam-se entre as propostas, conforme seus interesses, e podem ou não participar. A indicação é que os alunos se esforcem mais no que têm dificuldade.

Outro olhar

Para Robson Rosseto, professor da licenciatura em Teatro da Faculdade de Artes do Paraná (FAP) e doutorando em Artes da Cena da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), o teatro proporciona um contato diferenciado com o cotidiano e outro olhar sobre nós mesmos. “[O teatro] oferece uma visão de mundo de modo subjetivo e pode conduzir a novas formas de pensar e de refletir. O ideal é que o estudante faça, assista e avalie”, afirma. A improvisação é fundamental: uso de temas diversos para envolver os estudantes em uma organização instintiva, na qual o enredo é encenado a medida que é construído. “Os alunos contracenam e a cena resulta da criatividade coletiva e da espontaneidade. É importante para a formação do aluno, tanto na criação como na encenação”, destaca Rosseto.

A produção das cenas deve fazer parte do processo: criação de cenário, figurino e sonoplastia. Dessa forma, os alunos desenvolvem a sensibilidade artística. “A participação nas atividades deve ser voluntária: a obrigação gera traumas”, alerta. Quem não atua pode analisar os atores, fazer protocolos, auxiliar na montagem ou nas dinâmicas de cenas. “Que contribua para o desenvolvimento das atividades e, em outro momento, se encoraje a atuar”, sugere.

O professor comenta que a maioria das peças escolares é didática ou de conscientização, o que não atrai os alunos. “[Essas peças] tendem a ser chatas ou a não envolver. O divertimento e a reflexão são menosprezados”. Rosseto ressalta que as qualidades artística e textual devem ser consideradas: “verifique a faixa etária indicada, a concepção, a trajetória do grupo e dos atores”. O professor enfatiza que a leitura amplia o referencial do educando e o envolve na interpretação.

Na escola

Para Maria Elisa Lima, professora de Teatro do Colégio Renovação, de São Paulo, na atividade teatral os alunos questionam aspectos culturais e sociais de seu entorno e além dele. “Desenvolvemos aspectos expressivos e, coletivamente, exercitam-se o diálogo, o respeito, a cooperação e a aceitação das diferenças”, relata. A prática trabalha com a percepção e a reflexão. As repercussões são positivas. “Em contato sensível com o mundo, a reflexão é mais abrangente. Indico Maria Clara Machado e Vladimir Capella, além do trabalho da companhia Le Plat du Jour”, observa.

Maria Elisa recomenda também um local próprio para as oficinas. “Um espaço onde o grupo se expresse livremente nos horários combinados, sem intervenções que alterem a dinâmica do trabalho”, orienta. O ideal é agrupar os estudantes por idade. “Com os jogos teatrais e a improvisação, pode vir um espetáculo de uma notícia, de um poema, de uma crônica, de um conto, de uma imagem ou peça”, sugere. A proposta é que os alunos entrem em contato com várias formas de encenar. A professora considera que as oficinas de teatro possibilitam ao estudante agir com percepção artístico-estética e também desenvolver uma postura crítica. “Eles se tornam transformadores”, diz.

A professora Jéssica Rafael, da Escola Estadual Professor Nelson Gomes Caetano, de São Paulo, percebe que o teatro trabalha o foco, o senso crítico e a orientação espacial. “Melhora o rendimento escolar, trabalha a cognição e age de forma interdisciplinar no aprendizado diferenciado de conteúdos”, considera. O processo é tão importante quanto o resultado. “Nem sempre se monta uma peça. Jogos teatrais, como os propostos por Viola Spolin no livro Jogos teatrais na sala de aula, são o início ou, para as crianças, as tradicionais histórias de faz de conta”. Outra indicação da professora é criar a dramaturgia com os estudantes: perguntar a eles o que imaginam que aconteceu após narrar uma parte da história, quais as falas a seguir, que cara eles fariam e, por fim, propor que leiam. “Faço rodas de conversa. Podem-se criar desenhos e trabalhar com eles. Estamos levantando as histórias favoritas e fazendo máscaras: chegaremos a uma exposição de fotos ou a uma peça, dependendo do resultado”, conta. Nessa dinâmica, os estudantes aprendem a escutar e a esperar sua vez.

Guto Nunes, professor da rede estadual de São Paulo e ator, avalia que as pessoas têm os mesmos medos e necessidades básicas desde a Idade Média. “No palco, podemos verbalizá-los”, afirma. Ele assegura que o teatro propicia a descoberta de novas perspectivas pessoais e coletivas, enriquecimento do vocabulário e desenvolvimento social. “Os jovens estão em conflitos internos; no palco, dialogam afetivamente, ganham confiança, falam o que os afligem”, observa. Ele aproveita as aulas para discutir conceitos de arte e prioriza o ensino criativo, desenvolvendo com os alunos as histórias que serão encenadas. “Porém”, acrescenta, “Flávio de Souza ou Sylvia Orthof são ótimos”. Nunes avalia ainda que o aprendizado com o teatro na escola promove o enriquecimento cultural, sem o intuito de formar atores. “Previno o uso de drogas e a gravidez na adolescência”, comenta, e acrescenta que deixa o espaço aberto para a discussão do que surge no processo.

 

Para uma nova concepção de teatro na escola:

- O ideal é que o estudante faça, assista e avalie;

- Improvisação, criatividade coletiva e espontaneidade são fundamentais;

- A produção deve fazer parte do processo: criação de cenário, figurino e sonoplastia;

- O professor deve considerar as qualidades artística e textu­al da peça;

- A leitura do texto amplia o referencial do aluno e o envolve na interpretação;

- A participação deve ser voluntária; a obrigação gera traumas.

Fonte: Robson Rosseto, professor da licenciatura em

Teatro da Faculdade de Artes do Paraná (FAP)

 

Para ler:

Jogos teatrais para atores e não atores, de Augusto Boal (Civilização Brasileira), e Jogos teatrais na escola, de Olga Reverbel (Scipione), apresentam uma série de propostas criativas para aulas.

 

Artigo publicado na edição de novembro de 2013.

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