Apesar de o Dicionário escolar da língua portuguesa apresentar diversas definições para poesia, como “a arte de escrever obras em verso”, nenhuma delas se compara à sensibilidade do consagrado poeta e jornalista brasileiro, Mário Quintana, quando, em meio a mais um de seus belíssimos “devaneios”, disse: “... a poesia é o mistério evidente. Ela é óbvia, mas não é chata como um axioma. E, embora evidente, traz sempre um imprevisível, uma surpresa, um descobrimento”.

Ao contrário do que muitos imaginam, a poesia pode, sim, estar presente na vida das pessoas desde muito cedo. É o que afirma Ana Elvira Luciano Gebara, doutora em Letras, Filologia e Língua Portuguesa, e professora do curso de Letras e do Programa de Mestrado em Linguística da Universidade Cruzeiro do Sul e da Escola de Direito da Fundação Getúlio Vargas (FGV-SP). Segundo ela, os gêneros poéticos podem ser introduzidos, fora da escola, desde quando o bebê está na barriga da mãe. E, no ambiente escolar, podem ser apresentados a partir da educação infantil. “Cada idade vai ser ‘atingida’ pelos poemas de forma diversa. As crianças gostam dos jogos sonoros e das imagens nonsense de alguns poemas, como as parlendas”. A professora diz ainda que, para o público infantil, os poetas parecem colegas que, assim como eles, gostam de explorar as possibilidades da língua: criam palavras, fazem associações que os adultos não fazem, descobrem mundos e constroem outros. “Assim, não há contraindicações para os poemas, somente adequação à idade”, explica.

Ana Elvira, que é especialista no ensino da poesia, também é autora do livro A poesia na escola (Ed. Cortez). A obra, resultado de sua dissertação de mestrado, tem como foco o trabalho do escritor José Paulo Paes (1926-1998) e sua concepção de poesia. “Ao analisar os livros de poesia para crianças de Paes, identifiquei nos poemas, nos ensaios e nas entrevistas do poeta essa possibilidade de delinear o que seria a leitura de poemas e, consequentemen­te, o ensino dessa leitura para as crianças”, revela.

Além do caráter sedutor e lúdico, o uso da poesia também pode ter grande importância no desenvolvimento da oralidade e de outras características cognitivas e não cognitivas dos alunos. É o que afirma a especialista ao dizer que os gêneros poéticos e os gêneros literários do século XX e XXI têm traços da oralidade com os quais os alunos podem se identificar e, nesse jogo de identificação e de estranhamento, acontece o desenvolvimento da oralidade. “Ao mesmo tempo, as brincadeiras linguísticas, as associações inesperadas e a atribuição de novos sentidos às palavras permitem o desenvolvimento de aspectos cognitivos, como a ampliação da percepção desde a palavra pensada graficamente até a palavra em seu campo semântico”, comenta Ana Elvira.

Projeto Viver Poesia

Com o objetivo de aproximar os estudantes da linguagem literária a partir da produção dos seus próprios poemas, a professora de Língua Portuguesa Silvana de Carvalho Vieira, da Escola Estadual Professora Mariinha Tavares, em Salvador (BA), criou, em 2012, o projeto Viver, Poesia (Amado, Jorge!), destinado aos cerca de 70 alunos do oitavo e do nono ano, do turno matutino, do ensino fundamental II. “Os estudantes deveriam retratar, de maneira autônoma, suas emoções quanto à leitura dos textos relacionados à vida e à obra do escritor baiano Jorge Amado, homenageando-o pelo seu centenário”, explica a professora.

O projeto teve início com a apresentação aos alunos de poemas de autores diversos para que se familiarizassem com as características estáveis do gênero. “No momento seguinte, apresentei à classe fragmentos das obras de Jorge Amado, caracterizando algumas de suas personagens mais célebres, a biografia do autor e os recortes de jornal sobre o seu centenário”, conta a professora. Na próxima etapa, os estudantes tiveram de pesquisar curiosidades sobre a vida e a obra do escritor para, posteriormente, dividirem suas descobertas com toda a turma. Após criarem as primeiras versões dos poemas e as apresentarem aos colegas e à professora – reescrevendo o que não estivesse adequado à proposta –, os educandos foram orientados a revisar os seus textos, dando especial atenção ao cuidado com a linguagem e, principalmente, com a ortografia, a concordância e a pontuação. Ao término das atividades, os poemas foram expostos para a apreciação do público.

Segundo a professora, a ideia era fazer com que os educandos acreditassem que eram capazes de produzir textos poéticos com uma linguagem consistente, explorando o sentido poé­tico das palavras e o efeito que podem produzir quando bem combinadas na organização dos versos. “Acredito que a disciplina Língua Portuguesa tenha um lugar especial na vida do aluno, pois o conhecimento de seus diversos recursos linguísticos lhe confere desenvoltura em situações sociocomunicativas variadas”, considera. Para ela, o estudo da língua precisa ser, a todo o momento, elemento integrador na formação do cidadão crítico e transformador, principalmente quando consegue penetrar o seu íntimo, fazendo brotar a emoção e a razão por meio das diversas linguagens.

No que depender de Silvana, o projeto será renovado, com novas temáticas e com outros autores, e, ainda, será integrado a outras disciplinas. “Pretendo organizar também todos os poemas do Viver Poesia em um livro, para que os estudantes envolvidos possam tê-los eternizados em uma coletânea poética”, finaliza.

Poesia na escola

Confira as dicas da escritora e professora Ana Elvira Luciano Gebara para desenvolver, em sala de aula, projetos com poesia:

- O professor deve identificar temas e autores pelos quais os alunos têm interesse ou, ainda, gêneros da predileção deles.

- Se for canção, pode-se trabalhar com a relação dos recursos sonoros, as figuras de linguagem, a linguagem conotativa nesses gêneros, o poema e a letra da canção.

- Se a preferência for por temas como guerra, liberdade, amor ou a busca da identidade, pode-se trabalhar com Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes, Manuel Bandeira, João Cabral de Melo Neto, Cecília Meireles, Mário Quintana e alguns poetas contemporâneos (que os próprios alunos podem trazer para a sala de aula).

- Um bom lugar para começar a pesquisar são sites especializados. Cada grupo pode escolher um tema e trabalhar o poema, começando por uma leitura parafrástica até chegar a uma leitura interpretativa.

Como sistematizar a aplicação e a avaliação da atividade:

- As formas de sistematizar essa interpretação e de avaliar como os alunos se envolveram e compreenderam o poema podem ser diversas:

1 - Desenho (fundamental I);

2 - Outro poema (fundamental II e ensino médio);

3 - Quadrinhos, clipes, declamação (preparar a declamação é uma forma de interpretar) e encenação.

- Nunca trabalhe com todos os elementos que você, professor, identificar nos poemas. Cada vez que o poema entrar em sala de aula, trabalhe um aspecto: rimas, versos, estrofes, figuras de som e de linguagem – como metáfora e metonímia, ritmo e escansão (sílabas métricas); a voz presente no poema: eu lírico, diálogos, poemas narrados; aproveitamento do espaço da página: poemas verbo-visuais.

- Torne público o trabalho com os poemas, seja em um cantinho da sala de aula, seja em um mural do corredor, seja nos espaços da escola para divulgação.

- Sempre que possível, leve um poema para a sala de aula e leia-o, para que o contato com o poema jamais deixe de acontecer.

 

Matéria publicada em outubro de 2013.

+ Educação
Assine a newsletter mensal e gratuita +Educação e receba ainda mais conteúdo no seu e-mail!