Inserir os alunos no mundo das artes, nos dias atuais, pode ser um grande desafio. Com tantas mudanças, tantas linguagens que surgem, o professor precisa se atualizar sempre. No entanto, é só observar os elementos ao redor para que professores e alunos descubram novas e – o que é melhor – acessíveis possibilidades, como a arte urbana. Basta que todos estejam com os olhos bem abertos. Nas ruas das grandes cidades, podem ser observados, em diver­sas paredes, desenhos feitos com grafites e pinturas. É a arte urbana, que pode ser uma aliada e tanto na hora de se trabalhar com arte na escola. Sem tirar o mérito e a importância da arte clássica e tradicional, usar esses elementos presentes nas ruas pode ser uma ótima forma de despertar o interesse dos alunos.

Em São Paulo, o Eduqativo – Instituto Choque Cultural, instituição educativa e cultural sem fins lucrativos, promove cursos para professores sobre essas linguagens artísticas. A proposta do projeto Arte Urbana nas Escolas é favorecer a comunicação entre professores e alunos por meio da arte urbana, usada como mediadora entre o interesse dos alunos e os interesses curriculares. De acordo com a arte-educadora e coordenadora do instituto, Raquel Ribeiro, ao participar do projeto, os professores também ampliam seu conhecimento aprendendo sobre diferentes técnicas utilizadas na arte urbana, o que os aproxima da linguagem jovem atual. Para ela, as mudanças na linguagem das artes precisam constar nos novos currículos. “A arte é o elemento de nossa cultura que está relacionada com a criação, com a ruptura de paradigmas, ou seja, com o que é inovador. Ela é dinâmica, e se os professores de Artes, principalmente, não puderem acompanhar essas mudanças, correm o risco de ficarem falando do que já foi, do que é passado e se for só isso ficará restrito ao campo da história”, completa Raquel.

Um dos trabalhos que chamou a atenção durante as oficinas do Eduqativo foi o do professor Dennis Brandão, que leciona Artes na Escola Estadual Romeu de Moraes, de São Paulo. Ele trabalhou, com alunos do ensino fundamental II, vários elementos da arte urbana: pintura, adesivos, spray, estêncil, colagem, além do grafite, que foi o ponto de partida dos trabalhos. O projeto teve, entre outros objetivos, instrumentalizar os alunos para o trabalho prático, na etapa em que os grupos de estudantes passearam pela cidade e observaram a arte urbana pelas ruas. Depois disso, o professor incentivou a produção dos próprios alunos, refazendo algumas das linguagens observadas nas ruas dentro da escola, como o grafite, além de apresentar documentários em vídeo sobre modalidades de arte urbana e também da visita do grafiteiro Lelo à escola. “Saí de ônibus com os alunos, visitando os becos da Vila Madalena, onde eles conheceram a Galeria Choque Cultural, os grafites nas ruas e o Projeto Aprendiz”, conta. Depois da produção dos alunos, houve uma conversa aberta a todos os alunos, com apresentação de cada trabalho e, ao final, puderam imprimir máscaras no muro interno da instituição.

Para Rosa Iavelberg, professora da Faculdade de Educação da Universidade de São Paulo (FEUSP), doutora em Artes, é importante inserir a arte urbana nas escolas para que se possa ensinar aquilo que ocorre na área na contemporaneidade. “Crianças e jovens têm o direito de acompanhar e se atualizar em relação à arte do tempo em que vivem e os professores precisam acompanhar o que acontece no mundo das artes, suas histórias, sua diversidade e os sistemas existentes em torno da produção, difusão e do acesso à arte”, afirma. Caso isso não ocorra, as aulas de Artes podem ser entediantes para crianças e jovens que vivem e participam das ações artísticas nas comunidades de diferentes regiões do País e que estão conectadas ao que acontece nas ruas, redes sociais e diferentes mídias. Para a professora, os conteúdos escolares correm o risco de se distanciar da vida dos estudantes, perdendo significado e o envolvimento dos alunos para o aprendizado.

Voz aos estudantes

Motivação também é um dos objetivos ao se usar a arte urbana na escola, o que pode ser feito com o aproveitamento de outros recursos da modernidade. “Uma das formas é acessar os recursos da tecnologia que hoje estão disponíveis”, afirma a diretora do Departamento de Artes da Universidade de Brasília (UnB), Izabela Brochado. Ela concorda que há dificuldade em se trabalhar o tema em sala de aula. “Não é fácil, porque temos a tendência de achar que a verdadeira arte é aquela feita no passado, pois muitas vezes não temos instrumentos para entender a arte criada agora. Mas é fundamental que isso ocorra e, para tal, uma das formas é dar voz aos estudantes, principalmente aos adolescentes, pois eles estão sempre mais atualizados em relação ao seu tempo”. E para isso, de acordo com Izabela, é muito importante incentivar os professores a participarem efetivamente do contexto cultural da cidade, da nação e até de outros países.

 

Arte Urbana

Grafite

O termo é italiano e significa “inscrição feita em paredes”. Há vestígio dessa manifestação popular desde o Império Romano. Mas o grafite que se conhece atualmente surgiu na década de 1970, nos Estados Unidos. Por ser uma forma de arte livre, ganhou espaço entre os jovens como uma maneira de expressão dos sentimentos.

Lambe-lambe

Surgiu durante o Renascimento, como mais uma forma de comunicação daqueles que transitavam pelas ruas da França. Espalhados pelas paredes, os cartazes começaram com simples mensagens manuscritas e alcançaram destaque quando imagens coloridas e chamativas passaram a fazer parte deles. É usada cola caseira para a fixação nas paredes, como cola de farinha, por exemplo.

Stickers

Em inglês, significa a arte do adesivo. O artista urbano produz vários e coloca-os em diversos cantos da cidade, em paredes, postes, hidrantes, muros, viadutos, etc.; somente em lugares com superfície lisa. O início foi durante a década de 1990, nos Estados Unidos, com um ex-designer que resolveu pregar adesivos pela cidade. O conteúdo pode ser desde desenhos até mensagens de manifesto. Os adesivos são recortados em vinil autoadesivo e protegidos por uma máscara transparente, que o artista retira após fixá-los. Para a fixação, pode ser usada cola caseira, assim como no lambe-lambe.

Estêncil

Usado para imprimir imagens em inúmeras superfícies, como o cimento. Não se sabe ao certo a origem. Mas o estêncil arte ganhou força nas ruas de Nova Iorque, junto a outras técnicas da arte urbana. Isso no começo dos anos 1980. O estêncil é um desenho ou ilustração que representa um número, uma letra ou um símbolo topográfico ou qualquer outra forma ou imagem figurativa ou abstrata, que possa ser delineada por corte ou perfuração em papel, papelão, metal ou outros materiais. Ele é usado para imprimir as imagens sobre superfícies, como paredes, por exemplo.

 

+ na Web

Confira dois vídeos produzidos durante as aulas de Artes do professor Dennis Brandão, sobre grafite, na seção Favoritos do nosso canal no YouTube: http://tinyurl.com/favoritos-youtube

 

Matéria publicada na edição de setembro de 2013.

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