Pode ser uma escola grande ou modesta, pública ou particular e de qualquer parte do Brasil: todas têm lixeiras abarrotadas e, no ritmo do restante da sociedade, descarta uma quantidade grande de material que poderia, por que não, ser usado como matéria-prima para a criatividade dos alunos. Essa percepção guiou a professora Idalise Sabrina Miler, da Escola de Educação Especial Terapêutica Vivenda, que pertence ao complexo da Apae de Santa Felicidade, em Curitiba (PR), na criação da Casa de Poesia. O projeto, realizado em 2012, foi premiado com o segundo lugar na modalidade Artesanato, no Festival Regional “Nossa Arte”, realizado em Bocaiúva do Sul (PR).

Os professores da Apae foram convocados a pensar em atividades para seus alunos, em evento de homenagem ao centenário da poetisa paranaense Helena Kolody. Idalise olhou para um amontoado de bobinas de papel e teve a ideia de estimular seus alunos a criarem a estrutura de uma casa diferente – com 40 centímetros de largura, 40 centímetros de profundidade e 60 centímetros de altura. Eles planejaram um espaço agradável para a prática da leitura e fizeram um protótipo com jardim, poltronas e mesas para apreciação das poesias. Os poemas da homenageada ficaram espalhados por toda a casa. Eles foram impressos em miniaturas e expostos em minitabuletas feitas com palitos de sorvete e tampa de alumínio. Bonequinhos de brinquedo representavam os leitores. Os estudantes se envolveram e houve grande entusiasmo no manuseio das tintas, na colagem das bobinas e montagem da estrutura, relata Idalise. “O grande objetivo foi trabalhar para que eles desenvolvessem suas habilidades, estimulando a parte cognitiva, bem como a parte motora, na qual eles apresentam bastante dificuldade”, conta. O conceito de reciclagem também foi trabalhado.

Unir arte e reciclagem é um desafio saudável também para o professor de Artes, levando-o a buscar alternativas para suas práticas pedagógicas, avalia a especialista Pétira Maria Ferreira dos Santos, coordenadora do Polo Arte na Escola, ligado à Universidade Federal de Roraima (UFRR). O polo incentiva, em diversas frentes, a prática artística em sala de aula e a capacitação dos professores para que eles consigam atrair em seus alunos o interesse para exercícios criativos mais livres. “A atividade artística contribui para a compreensão do novo, do inédito, do irracional e propõe mudanças nas bases teóricas do conhecimento e nas técnicas pedagógicas aplicadas”, acredita Pétira.

Eletrônicos

Boas ideias de reutilização do lixo podem envolver também os jovens que gostam de eletrônica e tecnologia. Segundo o professor de Robótica do Colégio Santa Maria, de São Paulo, Rafael de Albuquerque Sanches, é preciso apenas um espaço com bancada e ferramentas simples (como chave de fenda, chave Phillips, cola quente, martelo e ferro solda) para se criar uma Oficina de Robótica. Outros dois ingredientes são fundamentais: a imaginação dos alunos e a matéria-prima para os trabalhos que, garante o professor, são abundantes nas peças e máquinas estragadas e refugadas nos diversos setores dos colégios.

Desde 2001, os alunos interessados participam da oficina fixa de Robótica no colégio. O que encanta os alunos é a possibilidade de fazerem, eles próprios, brinquedos e equipamentos com materiais recicláveis. Sucata de ferro e de plástico se transforma em robô; o computador condenado passa, com uma nova programação, a emitir comandos a aparelhos e a acender sensores e luzes; e a carcaça daquela unidade de CD dos computadores dá vida a carrinhos eletrônicos. “Eles chegam à oficina e, à primeira vista, enxergam só sucata, mas ela passa a ter novo sentido à medida em que eles soltam a imaginação. Nossa intenção é aguçar a criatividade, a coordenação motora e o espírito de equipe”, diz.

Sanches afirma que os professores interessados em criar uma Oficina de Robótica só precisam de conhecimento mínimo em Eletrônica e noções de programação. A internet é um meio sempre usado por ele para se atualizar e estimular novas ideias de projetos. O professor frisa que uma dica é essencial: o grupo de alunos não pode ser grande. Ele aconselha uma turma com sete alunos, no caso de estudantes mais novos, e de no máximo 12, para os mais velhos. “É para melhor rendimento e para que possamos supervisionar o uso de ferramentas”, acrescenta.

 

Para montar uma oficina de robótica

- Inclua os alunos na parte de coleta de materiais também. Assim eles se envolvem mais e vão reconhecendo o que pode ser aproveitado do lixo.

- Comece dividindo os alunos em equipes. É um tipo de atividade que será mais bem executada se pensada em grupo.

- O professor pode sugerir tarefas, mas deixe a ideia para os alunos.

O que aproveitar do lixo da escola:

- Impressora matricial quebrada: pode-se usar o eixo, a roldana, engrenagem, fiação, resistores e o LED (este, por exemplo, acende e apaga e pode ser útil para fazer os faróis do carro, o olho do robô que acende, etc.).

- Máquina fotográfica: toda a parte mecânica pode ser reaproveitada.

- Brinquedos velhos: partes da carcaça, motor, sensor e controle remoto, rodas.

- Controle remoto velho: sensor do infravermelho pode ser útil.

- Pedaços de madeira, plástico e metal: transformam-se em suportes ou no corpo de brinquedos e equipamentos.

Para montar uma casa de poesia

- Estimule os estudantes acompanhando de perto o andamento dos trabalhos, sobretudo se forem alunos com necessidades especiais.

- Bobinas de papel ou outro suporte podem servir para construir as paredes da casa.

- Para as cores, portas, janelas, detalhes, móveis e adornos, incentive a imaginação dos alunos.

- Depois de escolher as poesias que ficarão expostas, a sugestão é imprimi-las em papel sulfite e expor em minitabuletas confeccionadas com palitos de sorvete e tampa de alumínio (usadas para tampar marmitas).

- A casa ganha vida com a simulação de leitores e ocupantes. Uma sugestão é usar bonequinhos do tipo Playmobil.

- Para que a casa fique tomada por poesia, pode-se enfeitar também a parte de fora com essas tabuletas e deixá-las em cima das mesas e no colo dos bonequinhos sentados.

Como ter ideias de práticas para usar em sala:

- Buscar polos de arte ou grupos de estudo – muitos são ligados às universidades.

- Levar os alunos a conhecerem espaços urbanos nos quais haja reaproveitamento de materiais, como as associações de catadores de papel e outros itens.

- Organizar, quando for o caso, visitas dos estudantes a ateliês de artistas que trabalham com o reaproveitamento de resíduos.

- Fazer, com pessoas de dentro e de fora da escola, oficinas de produção voltadas a professores e alunos.

- É muito importante relacionar a prática com o conteúdo trabalhado em sala. Nas aulas, podem-se discutir, com base em textos de jornal ou livros, a situação do planeta, o desperdício, o consumo e as possibilidades de renovar bens.

- Dependendo do perfil e do interesse das turmas, pode ser criado algum produto informativo e interessante sobre o tema, como um documentário ou um programa de rádio, ou um jornal.

Fonte: Polo Arte na Escola (Roraima)

 

Matéria publicada na edição de agosto de 2013.

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