É cada vez mais comum nos depararmos, nas redes sociais, com postagens ou links defendendo a música nas escolas. E é o que já deveria estar acontecendo em todos os municípios brasileiros desde 2012, quando se tornou obrigatório o ensino da música nas redes de ensino pública e privada. A exigência foi determinada em 18 de agosto de 2008, com a sanção da Lei nº 11.769, que integra a Lei de Diretrizes e Bases da Educação.

Pela nova legislação, o conteúdo de música é obrigatório, mas não exclui as demais áreas artísticas, que também devem ser contempladas dentro do planejamento pedagógico das escolas. O aprendizado da música é visto pelos especialistas como uma contribuição para o desenvolvimento sociocultural dos alunos, estimulando a criatividade, a sensibilidade, o raciocínio, além de incentivar o contato com diferentes linguagens.

Sobre os aspectos que devem ser priorizados nas aulas de música, a professora Luciana Del-Ben, do Programa de Pós-graduação em Música da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), observa que isso depende da relação que os alunos tenham com a música. Luciana, que é doutora em Música e presidente da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Música (Anppom), defende que, na aula, os alunos devem se relacionar com música de diferentes maneiras, “como tocar, cantar, criar, improvisar, ouvir, falar sobre música, discutir os significados e funções dela na vida das pessoas e das sociedades e grupos, tanto contemporâneos quanto históricos”.

Para ela, um bom projeto de educação musical é aquele que tem sentido para os estudantes e para a escola. “Um projeto que estimule e conduza a aprendizagem dos alunos, que acolha suas necessidades, curiosidades e interesses, e, ao mesmo tempo, contribua para o cumprimento das finalidades da educação básica, conforme expressas no projeto político-pedagógico da escola”, diz a especialista.

Luciana destaca que, para ensinar essa disciplina, o professor deve conhecer música, e isso, na visão dela, implica envolvimento direto e aprofundado com o tema. Ela salienta ainda que os professores precisam compreender como os alunos se relacionam com a música, em suas dimensões culturais, sociais, psicológicas, cognitivas e políticas, e também os sentidos da escolarização e da instituição escolar na vida das pessoas e da sociedade. “É nesse sentido que se estruturam os cursos de licenciatura em Música. A presença do professor licenciado em Música na escola é fundamental”, acrescenta.

Em relação à importância do ensino da música para os estudantes, a professora destaca a abertura da possibilidade de construir novas aprendizagens, por meio do aprofundamento e da ampliação de suas relações com o tema. Como fator importante entre essas múltiplas possibilidades, há a compreensão de como diferentes pessoas, grupos e sociedades se relacionam com a música em tempos e espaços diversos, e os vários significados e funções que ela tem. “Com isso, o estudante poderá conhecer mais sobre si mesmo e sobre o outro”, diz.

Projetos inspiradores

Ponta Grossa, no Paraná, e Franca, em São Paulo, são cidades que tiveram êxito na implantação de projetos de Educação Musical nas escolas. Flauta doce, jogos lúdicos, canto-coral, expressão corporal e criação de instrumentos de sucata foram algumas das técnicas utilizadas para facilitar o acesso dos estudantes à música. Parâmetros, como desenvolver um olhar crítico sobre a música veiculada diariamente pela mídia e despertar no aluno a consciência para a sensibilidade musical, foram considerados pelos coordenadores dos projetos dos dois municípios.

Na cidade paranaense, desde o ano passado, o Conservatório Musical Maestro Paulino Martins Alves, em parceira com a Secretaria Municipal de Educação, atua na formação de 135 professores. Desse grupo, ao menos 95 continuarão o curso neste ano. Outros já estão fazendo especialização em Música, que começou a ser ofertada neste ano em uma faculdade ponta-grossense.

A coordenadora do curso e mestre em Musicalização Infantil do Conservatório, maestrina Jucélia Ribeiro, conta que, no início, houve muita resistência por parte dos professores, porque não sabiam tocar nem cantar. “Hoje é comum, nas salas de aula, encontrarmos ilustrações de grandes compositores, como Bach, Villa-Lobos e Beethoven, nas paredes”, comemora. “E os professores tomaram gosto por ir a concertos no teatro”, completa.

A falta de instrumentos – um dos problemas encontrados no início – foi resolvida com a criatividade dos alunos, que passaram a confeccioná-los com sucata. A flauta doce é o instrumento base na disciplina. “Como muitos alunos ensaiam em casa, eles já estão à frente dos professores no aprendizado”, diz o diretor do Conservatório, Jairo Ferreira, entusiasta do projeto, que o considera inédito no Paraná.

Processo semelhante ao de Ponta Grossa acontece em Franca, onde todos os professores envolvidos com a disciplina apresentam formação técnica musical. A cidade foi dividida em cinco áreas, onde atuam equipes compostas por duas coordenadoras e 27 professores especialistas. Essas equipes são responsáveis por atender 42 escolas de educação infantil e 26 de educação básica, onde estudam quase 17 mil alunos.

Segundo a coordenadora de Educação Musical da Rede Municipal de Franca, professora Lisiane Bassi, ainda existe grande preocupação com a formação dos professores, pois muitos entendem a música como uma brincadeira, sem objetivo. “A música na educação está relacionada a uma motivação diferente do ensinar, em que é possível favorecer a autoestima, a socialização e o desenvolvimento do gosto e do senso musical das crianças”, diz Lisiane, que é pianista, arranjadora e compositora.

As aulas de música têm duração de 50 minutos e são ministradas semanalmente. Além de canto, expressão corporal, flauta doce e percussão, outras linguagens que contribuem para a formação e o desenvolvimento dos alunos são trabalhadas.

Alternativas para os educadores

Por conta da dificuldade de formar educadores musicais em todos os municípios brasileiros, algumas alternativas receitadas pelos especialistas podem ajudar. Na internet, em sites como o Youtube, por exemplo, podem ser encontradas diversas fontes de pesquisa musical. A construção de instrumentos de sucata também é uma boa opção.

Veja mais detalhes dos projetos de Música desenvolvidos nos dois municípios citados na reportagem.

Franca

Em Franca, foi elaborado um projeto para cada etapa de ensino, desde a educação infantil até o 5º ano do ensino fundamental. Na educação infantil, os temas são ligados à natureza; o projeto “Meu Brasil Brasileiro” atende 3º e 4º anos; e para as turmas de 5º ano é desenvolvido o projeto “Musicando”, que consiste em estudar a vida e obra de um compositor da música popular brasileira (que não esteja na mídia). O 1º Musicando aconteceu em 2007 e o compositor estudado foi Toquinho. O 4º Musicando, realizado em julho de 2012, teve o artista Dorival Caymmi como foco. Neste ano, os alunos já deram início aos estudos da vida e da obra do cantor e compositor Milton Nascimento.

Ponta Grossa

Em Ponta Grossa, com a ideia de levar apresentações didáticas a todas as escolas municipais, foi criado um quarteto formado por professores e alunos do Conservatório Musical Maestro Paulino Martins Alves. Todas as quartas-feiras, o quarteto faz shows didáticos nas escolas, com repertórios variados e apresentação dos instrumentos. “Muitos professores e alunos desconheciam como era feito o arco de um violino, por exemplo. Quando souberam que era de crina de cavalo foi como se estivessem descobrindo um mundo novo”, conta Jucélia Ribeiro.

 

Matéria publicada na edição de abril de 2013.

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