Em 28 de dezembro de 1895, os irmãos Auguste e Louis Lumière fizeram uma demonstração, para cerca de 30 pessoas num café em Paris, de seu invento: o cinematógrafo. A data hoje é considerada a da primeira exibição cinematográfica e o marco inicial do que veio a ser conhecido como “a sétima arte”. Hoje em dia, o cinema é algo cada vez mais habitual no cotidiano do brasileiro; segundo a Agência Nacional de Cinema (Ancine), em 2012, mais de 146,4 milhões de brasileiros frequentaram as salas de cinema do País.

Em virtude da crescente popularidade dessa mídia, não é incomum professores procurarem maneiras de inserirem filmes dos mais diversos gêneros (ficção, documentário, comédia, drama, etc.) no cotidiano da sala de aula. O professor da Universidade da Região de Joinville (Univille), Nielson Ribeiro Modro, é entusiasta de cinema e afirma que há diversos benefícios provenientes da utilização de obras cinematográficas dentro das escolas, mas que o maior deles é a possibilidade de estender o debate a respeito de algum tópico abordado por meio de um filme. “Se for fomentada a discussão posterior, certamente os resultados obtidos serão muito maiores do que o conseguido apenas com as aulas tradicionais. Além disso, no mundo atual, que é a cada dia mais imagético, há uma tendência natural à dispersão caso não haja outros atrativos além do próprio conteúdo em si”, afirma Modro.

Para o educador, que é mestre em Letras pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) e já escreveu seis livros sobre cinema e educação, o filme nunca deve ser utilizado como uma atividade única. “[Ele] sempre deve ser utilizado como introdução ou complementação do assunto abordado, nunca apenas o filme pelo filme sem qualquer objetivo. Podem ser realizadas, por exemplo, atividades como produção textual, atividades práticas como teatralização, debates, produção audiovisual, entre outras”, cita Modro, que é o coordenador do projeto Cineducação, uma atividade iniciada em 2002 dentro da disciplina de Literatura e Cinema do curso de Letras da Univille. “O trabalho foi principalmente voltado para a análise de aspectos de produção cinematográfica, crítica e a ligação entre cinema e literatura, como, por exemplo, as adaptações literárias. Umas das ações desenvolvidas na parte final do curso era a busca por filmes que pudessem ser utilizados em sala de aula com finalidade didática, fosse para introduzir, explicitar ou complementar algum assunto que porventura viesse a ser trabalhado com os alunos”, destaca o professor.

Atualmente há alunos bolsistas que participam do projeto, os quais trabalham com grupos específicos (grupo de jovens, idosos em asilos, grupos de estudo) apresentando alguns filmes e provocando a discussão deles, sempre com temas pertinentes, como os riscos das drogas e relacionamentos amorosos. Cada grupo é formado por 8 a 25 pessoas e são alcançadas pouco mais de uma centena de participantes a cada ano.

O processo de seleção dos filmes é bem básico: ou eles são selecionados pelo próprio Modro ou por meio de indicações feitas por participantes do projeto. Os estudos realizados pelos participantes do projeto deram origem a um site (www.modro.com.br/cinema), que hoje conta com mais de 200 filmes comentados e com sugestões de atividades que podem ser realizadas em sala de aula (Veja abaixo indicações de filmes para serem usados na educação infantil).

Produção em sala de aula

O uso do cinema dentro da sala de aula, no entanto, não se limita apenas à exibição de longas e curtas-metragens produzidos no Brasil ou em outros países. Existem também iniciativas em que os próprios alunos atuam como “cineastas” e produzem seus próprios filmes. Um exemplo é o projeto Literatura em Vídeo, coordenado pela professora Viviana Portilho Bernardes de Lacerda, do Colégio Salesiano, de Belo Horizonte (MG). Com base em obras consagradas da literatura, tais como O pequeno príncipe, Alice no país das maravilhas, O auto da barca do inferno, Emília no país da aritmética e Chapeuzinho vermelho, os estudantes dividem-se em grupos e produzem filmes de curta duração inspirados pelas histórias lidas. “Além de ampliar o repertório cultural dos educandos, o fato de tornarem-se produtores de curtas-metragens ressignifica o ato de ler para muitos alunos, tornando essa prática menos tensa e mais prazerosa, pois envolve o trabalho em equipe e cada um precisa contribuir para que a culminância do projeto seja atraente e criativa”, afirma Viviana.

Iniciado em 2010, o projeto envolve alunos do 8º e 9º anos do ensino fundamental e do 1º ano do ensino médio. Ao todo, 400 alunos já participaram das atividades, que se iniciam com a seleção e a leitura dos livros. Em seguida, os educandos se reúnem para discutir o roteiro de adaptação, bem como os figurinos, cenários e músicas que serão utilizados no filme. Após definidos todos os detalhes, os estudantes partem para as filmagens e a edição dos filmes, que posteriormente são divulgados pelo YouTube. A conclusão do projeto se dá com a exibição dos vídeos produzidos para os alunos da escola, um momento muito apreciado por todos.

Para Viviana, o grande potencial das atividades está em extrapolar os espaços de aprendizagem. “O projeto representa novas configurações de aula. A mais representativa é o espaço sala de aula, que gradativamente cede lugar a outros ambientes também promissores de aprendizagem, como a biblioteca, os corredores, as quadras, os palcos, os laboratórios e as diversas áreas da escola”, relata a professora, que ressalta que o grande destaque do projeto é a nova postura dos adolescentes após a produção do filme. “Os alunos tornam-se protagonistas nas aulas, pesquisando, selecionando, questionando, discutindo, representando, enfim, atuando como sujeito ativo no processo de construção do conhecimento”, conclui a educadora.

+NA WEB

Confira algumas animações produzidas pelos alunos do projeto Literatura em Vídeo no espaço Favoritos do canal do YouTube da Profissão Mestre (www.youtube.com/profissaomestre).

 

Sugestões de filmes para a educação infantil

A peste da Janice

O filme é um curta-metragem brasileiro que já angariou uma série de prêmios e é baseado no conto “A peste da Janice”, de Luís Augusto Fischer. Por meio de uma situação corriqueira no cotidiano escolar, o curta aborda vários tópicos, como preconceito, bullying e respeito ao próximo. Ele pode ser assistido on-line no site http://portacurtas.org.br/filme/?name=a_peste_da_janice

A Princesa e o Sapo

Trata-se de uma animação tradicional que apresenta a jovem Tiana,  a qual pretende abrir um restaurante e atrair filas enormes de pessoas de todos os lugares para experimentar sua comida. Ela acaba invertendo a história original da princesa e do sapo, pois se transforma numa sapinha ao beijar um sapo enfeitiçado.

Coraline e o Mundo Secreto

Coraline Jones é uma criança cujos pais lhe dão pouca atenção por estarem sempre envolvidos com o trabalho. Ela se sente isolada e isso possibilita que passe a explorar a nova residência para a qual se mudaram, quando encontra uma porta secreta que a leva a descobrir um mundo paralelo parecido com o seu, mas aparentemente muito mais agradável. É um filme ideal para trabalhar os valores familiares.

Trilogia História Sem Fim

Os filmes contam a história de Bastian, um garoto que pega emprestado um misterioso livro que o transporta para um mundo de fantasia onde encontra muitas aventuras e personagens. Metalinguisticamente, prova-se que ler faz viajar para outros mundos sem sair do lugar.

ET – O extraterrestre

O pequeno ET acaba fazendo amizade com um garoto que tenta de todas as formas protegê-lo, evitando que seja capturado e transformado em cobaia. O maior trunfo do filme que marcou e emocionou a infância de gerações é a amizade que gradativamente surge entre os dois e a cumplicidade que ambos nutrem em relação a buscarem se proteger e ajudar.

Fonte: Nielson Ribeiro Modro, professor universitário e mantenedor do site www.modro.com.br/cinema

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