“O trabalho com as habilidades não cognitivas é importante porque vai preparar o aluno de hoje para ser o profissional e o cidadão com as competências necessárias no século 21”. A frase da diretora pedagógica do Colégio Anhembi Morumbi, em São Paulo (SP), Rita Carolino, resume com eficiência o papel da escola atualmente. Os dias em que a instituição educacional era um local em que os alunos iam exclusivamente para adquirir conhecimento baseado nos conteúdos disciplinares tradicionais são passado. É preciso agora desenvolver diversas competências que irão contribuir para o bom desenvolvimento dos estudantes desde os primeiros dias na escola.

Segundo Rita, essa mudança de paradigma é extremamente necessária quando se leva em consideração a sociedade em que alunos e professores vivem hoje. “O avanço tecnológico, a globalização, as novas formas de comunicação e as novas áreas de atuação profissional, entre outros fatores, justificam a necessidade de prepararmos as pessoas não apenas com conhecimentos e informações, mas também com autonomia, organização, iniciativa e criatividade, para que se adequem a tantas mudanças nos diversos cenários que transitam, sejam estes profissionais ou pessoais”, explica a diretora. No colégio em que atua, o trabalho de desenvolvimento das competências socioemocionais é realizado gradativamente, durante os ensinos fundamental e médio, respeitando a evolução cognitiva dos alunos. Um dos destaques citados por Rita é o projeto GMR Empreendedorismo, realizado com estudantes do ensino médio. “Os trabalhos desenvolvidos pelos alunos abordam desde a produção de doces para vender até a estruturação total de uma empresa, com a venda de ações e a divisão de lucros”. A atividade incentiva competências como trabalho em equipe, organização e responsabilidade com o trabalho. “Além disso, eles trabalham com jogos e atividades que contribuem no desenvolvimento dessas e de outras habilidades”, complementa.

A diretora pedagógica também ressalta a mudança de postura dos alunos no decorrer das atividades. “Eles se sentem protagonistas do processo ensino-aprendizagem e mais motivados ao perceberem a evolução não só do conhecimento, mas também de suas atitudes”, afirma Rita. De acordo com a diretora, “[eles] conseguem transcender o conhecimento adquirido na escola para seu dia a dia e, com isso, são capazes de enfrentar as dificuldades com mais maturidade”.

Na rede pública

O trabalho de desenvolvimento de habilidades não cognitivas também vem sendo realizado nas escolas públicas. O exemplo vem da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, que conta com o projeto Ensino Médio Inovador (ProEMI) desde 2009. “Os objetivos do ProEMI são apoiar e fortalecer o desenvolvimento de propostas curriculares inovadoras nas escolas de ensino médio, com ampliação do tempo dos estudantes na escola, buscando garantir a formação integral. Isso é feito com base na inserção de atividades que tornem o currículo mais dinâmico e atendam também às expectativas dos alunos e às demandas da sociedade contemporânea”, conta Maria Aparecida Jacomelli, diretora de Ensino da Secretaria Estadual de Educação do Rio de Janeiro. A iniciativa conta com o apoio do Instituto Ayrton Senna, que contribui na elaboração das atividades e na definição do novo currículo.

Maria Aparecida destaca que, ao contrário da concepção tradicional do ensino integral (no qual o aluno apenas permanece mais tempo na escola, mas com as mesmas aulas), o ProEMI busca diversificar as atividades, tendo em vista a evolução das habilidades não cognitivas dos jovens. “A proposta é oferecer oportunidades educativas que vão além dos conteúdos compartimentados do currículo tradicional, organização de tempos e espaços diferenciados, expansão do potencial criativo, desenvolvimento do pensamento crítico, entre outras habilidades e competências”, esclarece a educadora. Ela também explica que o foco do projeto é trabalhar o potencial dos alunos, transformando-o em competências que auxiliem os alunos posteriormente nos âmbitos pessoal, relacional, cognitivo e produtivo. “Isso irá assegurar ao jovem o desenvolvimento de competências e habilidades necessárias para construir uma rotina em que ele seja levado a pensar criticamente sobre suas escolhas e seu percurso. Além disso, irá colaborar positivamente com os grupos e a sociedade para [que estes] aprendam continuamente e participem da economia da inovação e do conhecimento”, enfatiza Maria Aparecida.

Um exemplo de atividade foi o encontro realizado no Colégio Estadual Monsenhor Miguel de Santa Maria Mochón, na ocasião da inserção da instituição no programa. Os alunos organizaram tendas no pátio da unidade para que os estudantes pudessem explicar os benefícios de uma alimentação saudável. Também foi realizada uma pesquisa com alunos, professores e funcionários para saber como todos estão se alimentando. A escola hoje conta com cinco áreas de atuação condizentes com o ProEMI: artes cênicas e linguagem; informática voltada para a linguagem e a cidadania; biotecnologia; matemática a serviço da comunidade; e educação física para uma melhor qualidade de vida.

Tanto a diretora de Ensino Maria Aparecida como a diretora paulista Rita Carolino destacam os resultados obtidos pelos estudantes. “A melhoria no desempenho é consequência de um trabalho planejado, estruturado e minuciosamente executado. Com a prioridade na educação integral, o conhecimento ganha novo significado para os alunos e mesmo para os docentes, gerando uma educação pública de excelência”, afirma a gestora fluminense.

Formação de professores

Um ponto destacado pelas duas especialistas é a formação de professores para o trabalho com habilidades não cognitivas, uma vez que a formação inicial pouco ou nada aborda sobre o tema. Na rede estadual do Rio de Janeiro, são quatro ações realizadas para a capacitação de educadores e gestores: formação bimestral dos professores; formação específica para os coordenadores de ensino e articuladores; formação para os coordenadores pedagógicos em parceria com o Instituto Ayrton Senna; e reuniões de acompanhamento e alinhamento com gestores escolares nas regionais pedagógicas. Já no Colégio Anhembi Morumbi, em São Paulo (SP), as atividades de formação continuada se focam no empreendedorismo e na capacitação de professores para o uso das novas tecnologias, tendo em vista maior autonomia em sala de aula. “É uma mudança de paradigma e requer um grande envolvimento da equipe. Se os professores não estiverem alinhados com a proposta da escola, não vamos conseguir atingir nosso objetivo”, afirma Rita Carolino, diretora pedagógica da escola.

 

Matéria publicada na edição de maio de 2015

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