Em 2014, o Instituto Ayrton Senna (IAS) divulgou os resultados de uma pesquisa realizada com 25 mil alunos da rede estadual de ensino do Rio de Janeiro, com o objetivo de medir entre os estudantes as competências socioemocionais. Com os dados coletados, percebeu-se a relação direta entre o desenvolvimento de determinadas habilidades socioemocionais e o bom desempenho escolar. “Foi detectado que alunos com maior abertura a novas experiências estão cerca de um terço do ano letivo à frente do que os demais em Português. Já para a Matemática, o desempenho foi superior entre os alunos com maior responsabilidade, resiliência e outras competências da área da conscienciosidade”, conta Daniela Arai, diretora de Conteúdo do IAS.

As competências socioemocionais – também chamadas de não cognitivas – têm ganhado espaço cada vez maior na mídia, no meio acadêmico e nas instituições de ensino e, segundo os especialistas, são fundamentais para a evolução do processo de ensino e a formação dos cidadãos. “Desenvolver competências socioemocionais não é uma escolha, é uma necessidade. A escola precisa resgatar e trazer para si esta responsabilidade de estimular o aluno e prepará-lo para vida”, ressalta Anita Abed, psicóloga, psicopedagoga e pesquisadora da Mind Lab Brasil.

Por causa da importância cada vez maior do tema, Anita produziu um documento técnico, em consultoria recente para o Ministério da Educação, que pretende criar diretrizes para que o desenvolvimento dessas habilidades esteja contemplado nas políticas públicas. “A escola precisa preparar para a vida e não para o vestibular. É preciso que haja intencionalidade, direcionamento e foco para estimular o aluno nas diversas áreas”, comenta Anita, que também é consultora da Unesco sobre o assunto.

Os estudos são muito otimistas em relação ao hoje e ao amanhã. A área profissional é uma das mais citadas, mas desenvolver as habilidades socioemocionais na infância também resulta em adultos mais saudáveis e comprometidos com seus deveres cívicos. “Quando não há essas competências desenvolvidas, acontece uma série de prejuízos na vida adulta. Um deles é a instabilidade no emprego. Mas o resultado também é uma sociedade menos participativa do ponto de vista político, menos tolerante e mais passiva a conflitos, indivíduos com menos cuidados com sua saúde, enfim, há impactos em todas as áreas”, observa Daniela Arai. Além disso, ela cita o prejuízo na própria vida escolar, visto que alunos com menos responsabilidade, colaboração e pouca abertura a experiências têm maior probabilidade de abandonar a escola antes de concluírem seus estudos e de não contribuírem para seu próprio aprendizado em sala de aula.

Segundo Daniela, a pesquisa realizada pelo IAS constatou outro resultado bastante interessante: independentemente da condição socioeconômica, as famílias têm a mesma capacidade de desenvolver as habilidades socioemocionais em seus filhos. “Quando se trata de pesquisas que relacionam desempenho escolar, o nível socioeconômico aparece quase como uma sentença, tendo um peso imenso no desenvolvimento cognitivo das crianças. Com essa constatação da pesquisa, abre-se uma janela muito importante, pois podemos usar as habilidades socioemocionais para alavancar o cognitivo”, comenta. Esse dado da pesquisa representa um parecer decisivo em relação ao desenvolvimento dessas habilidades, uma vez que aponta sua relevância para a vida de pessoas das mais variadas classes socioeconômicas, principalmente as menos favorecidas.

Casa X escola

Segundo as especialistas, todos os adultos que têm contato com as crianças estão influenciando o desenvolvimento de habilidades socioemocionais, seja para o bem ou para o mal, e é por isso que escola e família devem trabalhar juntas para estimular os alunos. Para Anita, a instituição de ensino precisa tomar para si a responsabilidade de orientar: “A escola tem o papel de comunicar, ensinar os pais, realizar oficinas, enfim, informar. Os pais são leigos, é dever da escola essa orientação”.

Na escola, o professor precisa lembrar que o desenvolvimento dessas competências não acontece em uma disciplina, é algo contínuo e transversal, que deve ser trabalhado em todos os momentos do aprendizado escolar. Anita afirma que não há manual para o desenvolvimento das habilidades socioemocionais, mas é possível incluir esse aspecto no dia a dia da sala de aula. “Em primeiro lugar, a gestão [da escola] precisa dar suporte ao corpo docente e oferecer formação adequada. O professor, por outro lado, precisa sair da posição de apenas dar aula para se tornar um mediador do conhecimento e se comprometer com a formação integral do aluno”.

Daniela incentiva o professor a procurar mais informações, referências, conhecer e compartilhar boas práticas pedagógicas para se aprofundar no tema e saber atuar em sala de aula.

Afinal, o que são competências socioemocionais?

Competências socioemocionais são habilidades, valores e atitudes que o indivíduo expressa em seu relacionamento consigo mesmo e com os outros, como colaboração, responsabilidade, autocontrole, curiosidade e extroversão. “O termo ‘não cognitivo’ usado para essas habilidades não é adequado, pois as competências socioemocionais têm componentes cognitivos e vice-versa. A ideia de que se aprende só com a cabeça é antiquada”, salienta a especialista Anita Abed.

Segundo Daniela Arai, do Instituto Ayrton Senna, as competências socioemocionais são importantes por três grandes questões: 1) há as habilidades importantes em si mesmas, que são aquelas que uma sociedade valoriza e deseja; 2) há as que têm grande impacto no aprendizado escolar e 3) há as que serão fundamentais principalmente na vida adulta, em diversas áreas. “Por exemplo, a extroversão não tem tanto valor do ponto de vista do desenvolvimento cognitivo porque nossa escola não está preparada para isso. Mas uma pessoa extrovertida é mais assertiva e tem maior probabilidade de chegar a cargos de liderança”, comenta.

Anita explica que, apesar de existirem inúmeras habilidades e competências, há no meio acadêmico um consenso em torno de cinco áreas principais, chamadas de big five. Conheça quais são elas a seguir. 

+Saiba mais

É possível encontrar diversos materiais sobre o assunto no site www.porvir.org e também conhecer mais acerca da influência das competências socioemocionais no processo educacional no livro Uma questão de caráter (Ed. Intrínseca), de Paul Tough.

 

Matéria publicada na edição de março de 2015.

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