Em novembro de 2014, no curso de uma mesma semana, o mundo perdeu um dos grandes poetas e um dos maiores matemáticos de nossos tempos: no Brasil, Manuel de Barros; na França, Alexander Grothendieck. Além de suas obras, cada um deles nos deixou lições sobre a necessidade de mudar a maneira como a educação é feita.

Em uma entrevista à Globo News, Manuel de Barros contou que ao redor de sua casa corria uma cobra feita de vidro derretido. No entanto, ao chegar à escola, aprendeu que aquela cobra se tratava de um rio. Ao utilizar o nome no lugar da metáfora, a escola ensinou-lhe geografia, mas quase assassinou a criatividade de um futuro poeta. Grothendieck, ainda adolescente, no primeiro dia em uma nova escola, recebeu a tarefa de deduzir o Teorema de Pitágoras, que ele não conhecia. No dia seguinte, trouxe o teorema demonstrado de três maneiras diferentes. O professor o reprovou porque todas as demonstrações que ele apresentou seguiam métodos que não estavam no livro que usava como guia. Ao seguir um padrão já conhecido, a aula de Matemática poderia ter destruído a criatividade de um matemático.

Ao mesmo tempo, seria impossível que eles tivessem desenvolvido a respectiva genialidade sem a escola. A matemática esbarraria na ausência do diálogo só permitido no ambiente escolar. O mesmo vale para o poeta. Embora seja possível a genialidade poética intuitiva, como observamos nos poetas populares, a poesia tem seu desenvolvimento restringido pela falta de leitura, pelo desconhecimento de outros poetas e de maneiras novas de fazer poesia.

O papel da escola é, portanto, desenvolver, e não tolher a criatividade que o aluno carrega antes ou paralelamente à escolarização, como os casos de Alexander Grothendieck e Manuel de Barros. Três ações podem ajudar na luta entre a escola que amplia a criatividade e a escola que tolhe a criatividade: liberdade, leitura e ludicidade.

Sobretudo no mundo de hoje, no qual o aluno conectado à internet e às redes sociais pode chegar a certas informações antes mesmo do professor, a recusa a aceitar novos conhecimentos que o aluno possa trazer limita a criatividade e a vida criativa. A aceitação do novo, do inédito e do incomum é fundamental para não tolher a liberdade criativa e a criatividade da liberdade, por isso o professor deve considerar e respeitar o conhecimento e a opinião dos alunos como um caminho para fazer avançar a genialidade.

No ambiente de liberdade, a leitura é o principal vetor da criatividade, especialmente quando relacionada à filosofia, à literatura, à história. Ao lado da leitura, a prática das artes é um caminho que auxilia na mesma direção. O deslumbramento diante da beleza e da verdade é um oxigênio para a criatividade.

A liberdade e a leitura só promovem a capacidade criadora se a escola for um ambiente prazeroso. Ela precisa ser agradável, bonita e alegre. Deve permitir o bem-estar do aluno. Difícil promover a criatividade em uma escola que afasta o aluno criativo, seja ao longo de cada dia, ao longo do ano ou de todo seu curso.

Imagem: Designed by Freepik

Artigo publicado na edição de setembro de 2015

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