Não dá para esquecer que os resultados dos alunos brasileiros nas provas do último Enem são, no mínimo, assustadores. Como as estatísticas falam bem mais alto que os discursos, vale reafirmar que 6.193.565 estudantes fizeram o exame em 2014 e, para citar apenas um de seus indicadores, na prova de redação, apenas 250 obtiveram a pontuação máxima e 8,4% conquistaram ao menos 70% dos mil pontos, isto é, demonstraram que podem se exprimir razoavelmente bem na língua portuguesa. Olhando-se pelo avesso, mais de meio milhão de alunos (8,5%) obtiveram nota zero, ou seja, não sabem se expressar por escrito na única língua que poderiam falar. Esses resultados, longe de configurarem uma situação específica de uma disciplina, são praticamente similares em todos os outros campos do conhecimento.

Diante, assim, da realidade insofismável desse horror, cabe duas alternativas: entregar o jogo e assumir um futuro plasmado pela incompetência, pelo coronelismo, pela arrogância e por organizações criminosas que se fazem passar por partidos políticos, ou procurar caminhos para virar o jogo e subir alguns degraus difíceis, mas que outros países galgaram e hoje nos olham com amargura. Pergunta-se, então: Quais seriam esses degraus?

Comparando o Brasil com países que estavam décadas atrás em situação similar, ou pior, e a superaram, os degraus seriam os seguintes:

1) Reconhecer que não temos qualidade educacional e que, portanto, só nos resta o esforço. Não se faz professores de qualidade do dia para a noite, mas conseguem-se professores dedicados que, trabalhando mais e colocando os alunos para trabalharem mais, possam ganhar algum terreno.

2) Descobrir que, se não somos capazes de criar um ensino de alta qualidade, ao menos não nos falte modéstia para olhar para o lado e aprender com quem faz bem. Vivemos tempos de internet e existe fartura de modelos; assim, não é difícil comparar o sistema educacional brasileiro, principalmente no ensino médio, com o de outros países e seguir seus passos, custe o que custar.

3) Selecionar os melhores professores em cada comunidade e torná-los paradigmas ou modelos, de maneira que sejam estimulados a mostrarem claramente como fazem e tenham disposição para chamar os outros para fazer da mesma forma. A professora, por exemplo, que melhor alfabetiza em seu ambiente precisa ser estimulada a mostrar aos demais, tantas vezes quanto necessário, sua maneira de fazer.

4) Substituir repreensões, lamentos e advertências para os que quase nada fazem por prêmios, estímulos, condecorações e elogios públicos aos melhores, desenvolvendo uma “meritocracia cabocla”, daquela em que toda comunidade sabe quais são seus craques e, como craques, fazê-los agentes de inspiração.

Como é possível perceber, os degraus que elevam no conceito mundial os países líderes em todas as áreas requerem uma virada de jogo simples e que se sintetiza na prosaica afirmação: buscamos a qualidade pelo caminho da dedicação, acompanhamos o que de bom lá fora se conquistou e tentamos ter a honra de buscar e eleger modelos de sucesso autêntico, transformando-os em paradigmas do que se espera de todos. Finalmente, cansados de criticar quem faz errado ou nada faz, aplaudimos e glorificamos quem faz bem e mostra a todos como o faz. 

Artigo publicado na edição de outubro de 2015

Imagem: Designed by Freepik

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