A mentira é um problema asqueroso. Uma ridícula invenção humana que nos faz inferior a qualquer animal. A falácia é ainda pior que a mentira descarada, pois é uma mentira enrustida, disfarçada em verdade. A educação brasileira, e isso não é novidade, sempre se cercou de uma porção de mentiras que chateia, mas, pior ainda, reúne diversas falácias que são, com frequência, proclamadas como verdades. Quer ver?

Quanto menos alunos em uma sala, melhor a qualidade da aprendizagem.

Essa afirmação é verdadeira quando se abarrota salas de aula e se gera o desconforto e a bagunça, mas, com uma quantidade reduzida de alunos – menos de dez, por exemplo –, ocasiona-se um ambiente educacionalmente improdutivo, sem interação e trocas estimulantes na superação de bons desafios propostos por excelentes professores. Nada melhor para uma aula dinâmica nos ensinos fundamental e médio que turmas entre 25 e 35 alunos.

Outra falácia: impossível melhorar a qualidade da educação brasileira com os salários irrisórios que se pagam aos professores. Essa afirmação é uma tolice. Bom professor deve ganhar muito bem, mas quem é incompetente e não se esforça para aprender dá uma péssima aula a 5 reais e daria aula igual se recebesse vinte vezes mais. Ao lado de salários justos e compatíveis com a dignidade da profissão, é essencial que os professores possam dispor de

assistência técnica, disponibilidade de recursos, jornada de trabalho adequada e, sobretudo, boa e contínua formação.

Uma das mais deslavadas falácias que se proclama é a que reclama pela autonomia plena de todo professor. O bom professor, tal como o bom dentista, cirurgião, engenheiro ou motorista, não pode “inventar” soluções para seus desafios profissionais, não tem o direito de criar sua teoria de aprendizagem própria e mudá-la sempre que tem vontade. Um planejamento benfeito e desenvolvido com bom senso representa ferramenta essencial para a construção de um prédio, uma cirurgia benfeita e, é claro, aula e aprendizagem bem-sucedidas.

Na infinita lista de falácias que, como a dengue, sempre nos persegue, está a que exalta que os alunos aprenderão melhor se a jornada escolar aumentar. É sabido por todos que a jornada escolar brasileira é, em média, muito curta e que ampliá-la em mais duas ou três horas seria mais eficiente. Mas, por outro lado, escolas com tempo integral ocupado com atividades desvinculadas do currículo e das metas de aprendizagem representa panaceia inútil, providência ridícula. Timinho de futebol grotesco como o meu apanha 90 minutos e apanharia ainda mais em 180 minutos.

O espaço para esta crônica chega ao fim, mas as falácias, infelizmente, não. A educação brasileira precisa melhorar e, provavelmente, um primeiro passo nessa rota seria assumir com humildade que não temos uma educação de qualidade, mesmo em boas escolas particulares, quando essa educação se compara com a de países como Finlândia, Coreia do Sul, Singapura e muitos outros. Isso não é mentira, não há falácia que possa encobri-la. A medicina, a arquitetura, a engenharia e outros ramos de atividades que se praticam no Brasil não são inferiores aos que se encontram em países mais desenvolvidos. Será que esse descompasso educacional não começa pela praga das falácias que nos envolve?

 

Artigo publicado na edição de junho de 2015.

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