Godofredo tem oito anos e é uma criança triste. A mais triste entre as crianças que conheço e sua tristeza advém do fato de ser uma criança pobre, muito pobre. Sua casa, em condomínio de alto luxo, é verdadeiro palácio, farta em espaços abertos e jardins coloridos, piscinas e cascatas decorativas, escadarias de mármore que interligam espaços arquitetônicos que parecem infinitos. Mas nada disso importa no infortúnio que marca a vida de Godofredo, pois sua maior riqueza viria dos amigos com os quais sonha e não tem. Um amigo ou uma amiga mais ou menos de sua idade com o qual pudesse compartilhar a bola de futebol que jamais saiu do embrulho de quando a recebeu de presente; amigo ou amiga, não importa, com quem pudesse dividir o correr e o pular, o mergulhar e o saltar, sonhar fantasias que crianças comuns imaginam e pendurar-se em árvores para devorar mangas e ameixas que gostaria de comer sem nem mesmo lavar. Um amigo ou amiga mais velhos, aos quais pudesse chamar de mamãe e papai, ou ainda titia ou vovô, dos quais pudesse ouvir histórias impossíveis, que só antigamente costumavam ser contadas. Amigos que mais ouvissem do que falassem e com os quais poderia dividir sonhos e surpresas, segredos e encantamentos.

Godofredo, no palácio em que vive, dispõe dos mais poderosos recursos eletrônicos e assim possui um milhão de amigos virtuais que não sabe se são reais e nos quais, talvez, jamais poderá um dia tocar de verdade. Tal como os muitos amigos virtuais que pode acessar, sofre do mal da hiperconectividade que o isola ao pensar que integra, separa ao imaginar que aproxima. É uma triste criança destruída pela alienação de quem aprendeu muito, mas quase nada sabe do mundo real. Quando, fatigada de tanto conectar, coloca-se diante do espelho e se olha, descobre-se boneca de louça ou plástico, criatura artificial que passa pela vida sem jamais experimentar a ousadia do viver.

Imagina-se então correndo pelos campos, pulando riachos, construindo castelos na areia, caçando borboletas e atirando sua bola às ondas para, como goleiro espetacular, agarrá-las ao mesmo tempo em que irradia o próprio jogo que imagina jogar. Nessas horas, gostaria de se sentir observado por um pai amigo que recorda no filho as travessuras que tempos atrás inventou, ou então um irmão ou companheiro de idade igual a sua e que, paciente, também espera os momentos dos segredos do sexo a serem descobertos...  

 

Artigo publicado na edição de abril de 2015.

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