Quando fanaticamente se torce por uma equipe de futebol ou seleção nacional e esse time ou seleção é derrotado, somos literalmente esmagados também. A visão fanática do torcedor apaixonado nunca foi e nunca será capaz de perceber a sutil linha que separa aqueles que muito amam e a si mesmo. Quando o Brasil, na última Copa do Mundo, foi ridicularizado por derrotas insanas, para o torcedor comum a perda representou um sentimento de mágoa ou tristeza, como se fosse murmurado “Que pena, queria tanto que o Brasil subisse ao pódio e, envergonhado, descubro-o abatido e humilhado”. Mas não é isso que se passa, nem por breve momento, na cabeça do fanático, pois inexiste o poder da transferência e ele, e não seu país, perdeu, ele, e não a seleção pela qual torce, foi humilhado pela vergonha. É evidente que muitos fanáticos detestam ser fanáticos e, com uma ponta de inveja, até admiram os mais sábios que são capazes dessa essencial separação entre o eu e a paixão.

Eu, infelizmente, não sou assim, e não gosto nem um pouco desse meu jeito de ser. Gostaria muito de assumir a pragmática indiferença dos que sabem separar suas emoções de sua personalidade e, assim, sofrem, mas sofrem menos. Entristecem-se por momentos, sem serem capazes de se envergonhar. E por que falo de fanatismo, por que nesta hora evoco envergonhado esse estranho jeito errado de ser?

A resposta é simples. Acabo de ver publicados os resultados das provas do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem), que mostram que “meus” alunos e, por extensão, “minhas” escolas brasileiras, não os educaram com a dignidade essencial. Se houvesse algo como uma escala Richter para monitorar um sistema de educação como há para cataclismos e terremotos, descobriríamos que estamos aquém do perigoso “estado de alerta máximo”. Em todo o Brasil, 6.193.565 estudantes prestaram o exame em 2014. Na prova de redação, apenas 250 obtiveram a pontuação máxima, e apenas ínfimos 8,4% conseguiram ao menos 70% dos mil pontos, resultado que atesta que são capazes de se exprimir razoavelmente bem em nossa língua. Por outro lado, 8,5%, ou seja, mais que meio milhão de estudantes, obtiveram nota zero, mostrando que são incapazes de se expressar por escrito na própria língua. Puxa vida, ser batido pela Inglaterra em um jogo da Copa é resultado até certo ponto normal, ainda que frustrante; apanhar de 7X1 representa ser reduzido a migalhas, esmagado impiedosamente por quem jamais alcançaremos.

Os resultados do Enem se distanciam do retângulo de um gramado, mas nos remete a outro, no qual há carteiras ocupadas por alunos quase mudos. Mais da metade dos estudantes de meu país, 55,7%, fizeram, no máximo, metade da pontuação e, se não cultuam a língua, podem pelo menos proferir palavrões, sabendo o que estão dizendo. O resultado do Enem 2014 atira para nossas escolas superiores e o mercado de trabalho brasileiro nada menos que 3.452.543 de iletrados. Pessoas que mal escrevem e, portanto, incapazes de pensar com grandeza, sonhar com esperança, semear com alguma chance de esperar frutos.

Eis porque falo de fanatismo, porque nestas linhas evoco, humilhado, essa estranha maneira de ser. Sempre me orgulhei de ser professor como sempre senti orgulho de torcer pelo meu time, vibrar pela minha seleção. Olho os resultados e não acredito, detesto esta ridícula mania de me apaixonar e abrigar esperanças.

 

Artigo publicado na edição de março de 2015.

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