Ah! Você quer? Pois fique querendo, pois querer e ficar esperando não faz mal a ninguém. Isso é um jeito de falar infantil, até malcriado, mas encerra uma grande verdade. “Querer não é poder” e conseguir o que se deseja depende de treinamento.

Os bebês nascem como verdadeiras máquinas desejantes, que precisam de proteção imediatamente. O ar, o leite e o aconchego são vitais desde o primeiro momento. Pela vida afora, continuamos a querer, isso ou aquilo – uns mais, outros menos urgentes. Esperar é um aprendizado crucial, pois é enquanto esperamos que desenvolvemos aspectos essenciais da vida mental. Precisamos aprender a distinguir entre nossas várias necessidades aquilo que tem que ser atendido já, o que pode esperar um pouco ou mais. Enquanto nenês, choramos e esperneamos por tudo o que precisamos ou queremos, tudo parece vital. Com o tempo, distinguimos urgências urgentíssimas e outras que podemos protelar. Devagar paramos de espernear, o que vai sendo substituído por ensaios de pensar.

Ninguém nasce pensando – eis algo que demanda treino. É importante entender e distinguir entre as sensações que acompanham a aquisição dessa aptidão. Não se trata de um processo simples: são muitas etapas que, devidamente ordenadas, resultam em percepções, avaliações, julgamentos e, finalmente, pensamentos. A imagem do item desejado ganha representação em nossa mente. Se eu quero uma bola e não a tenho à mão, vou ficar encucado até desistir ou conseguir. Enquanto a desejo, tenho-a na mente, vou matutando jeitos de consegui-la. É nesse espaço de espera que reside a importância do “ficar querendo”.

Quando quero a bola e me dão a bola, não aprendo nada. Se preciso estender o braço para alcançá-la, tenho que comparar a distância com o comprimento do meu braço. Se não a tenho à mão nem ao meu alcance, preciso lançar mão de outras aptidões e pensar: “Onde costuma-se guardar a bola? Quem a guarda? Ela fica em meio aos outros brinquedos ou não? Que outra pessoa joga bola? etc.”. Eis-me então tendo que saber do mundo que me rodeia, além das pessoas com quem convivo. Conhecendo o jeito que as coisas funcionam em minha casa, posso avaliar a oportunidade e a possibilidade de obtê-la. Se for domingo à tarde e os adultos estiverem dormindo, se eu acordá-los para pedir a bola, levarei uma bronca. Sem nenhuma outra complicação, só essa cena já é um belo exercício de pensar e de contato com a realidade. Pensar se aprende pensando. Quem não quer, não precisa pensar. Para desejarmos e realizarmos o desejo, podemos até nem saber, mas precisamos lançar mão de enorme quantidade de conhecimento sobre o mundo. Não adianta querer jabuticaba na Arábia ou mesmo aqui, fora de época.

Desde a infância, desenvolvemos muitas aptidões que nos levam a memorizar, classificar e distinguir, tudo para melhor vencermos as dificuldades. Depois de aprendermos a esperar, o que não significa pararmos de querer, nós, como máquinas desejantes, precisamos lembrar de uma infinidade de “prazos de validade”. Guardar uma banana descascada na bolsa é bobagem.

Dando um salto de desejante para consumista, defrontamo-nos com outra paisagem. O consumista suspende sua aptidão de pensar para se deixar levar pelo grito de seu desejo, como uma criança. Outro personagem que também suspende seu juízo de valor e oportunidade é o acumulador. Ele não usa prazos de validade, rol de necessidades, capacidade de categorizar: junta tudo, como se fosse tudo igual. Acumular é não querer rever o desejo atendido. Desejar, esperar, selecionar, optar, julgar e rever são aptidões mentais indispensáveis para uma harmônica relação de troca com o mundo. Enquanto esperamos e pensamos, estamos caminhando para a civilidade e a autonomia.

Artigo publicado na edição de fevereiro de 2016

Ilustração: Tayná Milléo

 

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