O silêncio não é a condição natural dos homens e provavelmente não é a de outros animais. A audição é um sinalizador da aproximação do bem e também do mal; daquilo que nos faz aguardar ansiosos seja por algo desejado, seja por algo a ser evitado, seja por algo de que é melhor fugir. É pelo ouvido que nos alertamos de que é bom “dar no pé” depois de lançarmos mão também da visão. Ouvir avisa que é bom olhar.

A importância do ouvido, da visão e do olfato varia, em grau, entre vários animais. Existem até aqueles que se concentram em vibrações, como se fossem radares, mergulhados em um grande, profundo e longo silêncio, em que frequentemente teríamos medo – e com justa razão. Silêncio e solidão fazem um par estranho, que nos remete a imaginar coisas de outro mundo. E no silêncio mergulhamos em nosso íntimo ou nos sentimos irmanados com o Cosmos. Isso ocorre quando o silêncio é uma escolha pessoal. Imposta, de fora para dentro ou de cima para baixo, é castigo!

Nos sistemas correcionais, frequentemente se apela para o isolamento, a solitária, o quarto escuro ou outros esquemas considerados punitivos. Sem o silêncio externo também é difícil focar, concentrar, adquirir novos conhecimentos. Portanto, instalar silêncio em local de estudo não é punição, é condição para que a aprendizagem ocorra.

Silêncio é uma condição muito ambígua. Precisamos dele para reconhecer ruídos que podem representar ameaça. Contudo, sem silêncio não evoluímos intelectualmente. Assim, as crianças devem adquirir esta dupla aptidão: a do silêncio e a do barulho. Em ambas as situações, elas devem ser capazes de atuar. Parece-me ser indispensável o treinamento para o silêncio e sua ausência. Se os adultos estão convencidos de que às vezes o silêncio ajuda e, outras vezes, o barulho orienta, as admoestações não se tornam aversivas. Mandar fazer silêncio ou pedir silêncio por uma boa razão é diferente de dar um pito por causa do barulho.

Nós, humanos, temos direito ao silêncio, que permite a aprendizagem e a orientação. E também aos ruídos, que nos alegram e isolam. As torcidas organizadas e os bailes carnavalescos são elementos de isolamento, proteção e solidariedade.

Artigo publicado na edição de janeiro de 2016

Ilustração: Tayná Milléo

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