Não é de agora que me pergunto acerca do futuro profissional dos que hoje são jovens. Pergunto-me também sobre a importância de um diploma superior. A questão da profissionalização dos jovens está na ordem do dia há muitos anos. Há um quarto de século, cheguei a fazer algumas entrevistas, em profundidade, em torno das esperanças dos que cursavam Relações Públicas ou Relações Internacionais em faculdades locais. O único denominador comum que encontrei foi “glamour”. Os jovens estudantes imaginavam-se, futuramente, frequentando lugares bonitos com gente bonita. Era uma profissão escolhida não pela atividade a ser exercida, mas pela chave de porteira que levava a acontecimentos sempre descritos e fotografados glamourosamente pela mídia.

Estavam enganados. Entrevistei também recém-formados e formados que já estavam no mercado e verifiquei que, em pouco tempo, a ideia do glamour desaparece. Fica em seu lugar um ofício exigente, sem horário e com curtos fins de semana. Os que conseguiam emprego na área escolhida pareciam ter que passar muitos anos fazendo tarefas que não tinham sido sonhadas: espécie de assessorias ou secretariados. Não terminei a pesquisa, mas ela estava suficientemente adiantada para ter me dado algumas certezas. Claro que alguns devem ter se destacado, mas a maioria ficava às voltas com toda a sorte de subempregos ou empregos menores.

O número de cursos glamourosos aumentou tremendamente, mas eles se condensam em torno da procura de visibilidade por meio da comunicação. Vejo, desolada, jovens torturados pela dificuldade de saber por onde começar e para aonde ir. Minha investigação preliminar foi anterior a essa consciência que hoje nos atinge com maior ou menor intensidade. Não são somente os jovens a se debaterem. Entre um mundo em que se fazia carreira em instituições e o mundo atual, em que parece ser mais comum procurar um nicho, e não um lugar de acordo com um perfil de carreira, nós nos deparamos com uma teia de relações sociais para as quais não recebemos – em geral nem em casa, nem na escola – ensinamento ou orientação.

A escola, pela sua própria estrutura, nos ensina ordens, sequências, desenvolvimentos pré-estudados e programados – os chamados currículos. Neste mundo, entrar-se-ia como trainee, depois de algumas experiências. Até aí pode até acontecer algo de bom. Afinal, estagiário e(ou) trainee são mão de obra barata, de baixo encargo social. E depois? O sucesso, visto como satisfação no trabalho com remuneração suficiente para o projeto pessoal de cada um, nem sempre segue as etapas convencionais. Os modos de produção, a maneira e a variedade de objetivos não apresentam estabilidade. As técnicas de motivação, tão usadas em meados do século 20, estão caindo em desuso. É preciso, hoje, se dispor a juntar aptidões e interesses que nos tornem dotados de um currículo interessante, com cada um sendo capaz de empreender e inserir-se graças a um projeto puramente pessoal. A confecção de um currículo é quase uma arte. Um jovem que tem um book de fotografias precisa saber a quem apresentá-lo. De nada adianta ter um currículo rico, genérico, que pode ser enviado a gregos e troianos. A ideia da distribuição de um currículo era uma maneira normal e comum de apresentação. Hoje exige a logística: “o que direi e a quem”.

O nível de exigência que temos hoje em relação à vida é maior e mais complexo do que já foi. A ideia de que existe um jeito de ser feliz – basta ter a receita – é uma falácia. Não há receita que dê conta da complexidade dos modos de produção atuais. Nem todas as profissões exigem diploma, mas todas exigem certa aptidão, rede e interesse, senão nenhum diploma ajuda.

Artigo publicado na edição de dezembro de 2015

Ilustração: Tayná Milléo

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