Quando, em 1919, a pedagogia Waldorf foi introduzida por Rudolf Steiner em uma escola para filhos de operários da fábrica de cigarros Waldorf-Astória (daí o nome), fazia extremo sentido numa conservadora Europa, recém-saída da Primeira Guerra Mundial. Havia quase um milênio que escolas agrupavam alunos por idade. As crianças começavam juntas, mas logo uma ou outra ia ficando pelo caminho, vítima do sistema de reprovação. Foi assim até que, em dado momento, pareceu importante levar em consideração as diferenças. Aquela escola milenar a qual me referi tinha por função equalizar: com 7 anos todo mundo faz isso, com 14 faz aquilo, com 21, aquilo outro. Ter 14 anos significava fazer atividades concebidas para aquela idade, e assim por diante. Isso criou uma categorização vigente até hoje. Nas escolas que seguem a pedagogia Waldorf, as crianças agrupam-se espontaneamente em torno de interesses comuns. O que não quer dizer que seja tudo inteiramente livre. Nessas escolas, aprende-se por curiosidade. A necessidade de aprender a ler pode vir, por exemplo, da curiosidade de aprender a plantar.

A criança começa aprendendo por partes; depois, ela as integra e, em seguida, as define, assimilando-as a outras partes, de acordo com certa idade. Tem criança “adiantada”, jovem “atrasado”, e assim vamos colocando etiquetas nas pessoas.  Ele é “bom aluno”; ela está “atrasada”. Isso é algo que a escola assinou embaixo: existem pessoas que se adiantam, se atrasam ou evoluem com a maioria.

Contudo, o sistema de produção mudou muito. O mundo passou do artesanato à produção em série e retornou a valorizar a competência individual, a aptidão, o talento. Houve uma retomada do capricho, da importância da habilidade manual. Hoje vivemos um período em que a inovação é um valor, mas a capacidade de se enquadrar e marchar com a maioria também é. A grande pessoa é a que inventa, inova, mas nem por isso deixa de estar em consenso com a maioria em outros aspectos. Para ser bem dotado, hoje, o indivíduo precisa ter aptidão média em quase tudo. Mas como encontrar o tipo de educação que abarque essa formação tão diferenciada, que precisa estar à disposição em um mesmo indivíduo, conforme a tarefa? Certos conhecimentos de fios e tomadas, por exemplo, necessitam ser dominados por todos. Mesmo que não sejamos capazes de construir um rádio, precisamos ser capazes de sintonizá-lo, o que demanda várias competências: delicadeza, audição, firmeza na mão.

É preciso avalizar nosso cotidiano e as exigências desse mundo complicado em que vivemos, fazer um rol das aptidões que a educação necessita tornar acessível aos seres em formação. Como formar o homem, o indivíduo capaz de tantas aptidões, para exercê-las sem estresse? Ao fazer um rol das atividades que realizamos no cotidiano, vemos que estamos sobrecarregados. Atualmente, um único indivíduo faz tudo sozinho, auxiliado por máquinas com as quais é preciso saber lidar. Antes tudo era feito à mão, e talvez isso fosse mais fácil que saber usar tantas máquinas. Uma casa média tem, no mínimo, dez motorezinhos em funcionamento. Não me refiro à tecnologia complicada, mas sim a objetos simples como rádio, televisão, máquina fotográfica etc. Hoje qualquer dona de casa precisa saber usar tudo isso.

Como treinar o ser humano para dominar tantas especialidades, aptidões manuais e visuais e tanto conhecimento? Afinal, qualquer aparelho doméstico que se compre durará só alguns anos. O próximo vem com outra tecnologia. Nós dominamos várias tecnologias, em um mesmo momento, em uma mesma casa. Como treinar essa pessoa? Nem a escola nem a família foram preparadas para isso.

A orientação básica é que a criança é naturalmente curiosa e conhece passo a passo tudo que a rodeia. Ao tornar-se adulta, saberá lidar com seu entorno. O convívio é a escola mais interessante da atualidade. Convivemos com vários tipos de maquinário e conseguimos manusear todos. Sabemos acionar portaria elétrica, elevador e campainha – tecnologias diferentes, de épocas diferentes, e dominamos todas. Já pensou na potência que somos?

O sistema Waldorf de ensino anteviu que curiosidade, interesse, manuseio e liberdade são essenciais para a vida moderna. Bela visão teve Rudolf Steiner! Será que sua metodologia orientará o futuro de alguma nação?

Artigo publicado na edição de outubro de 2015.

Ilustração: Tayná Milléo

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