Hoje, pensando no artigo para este espaço, lembrei do apontador, do lápis, da borracha e de outros objetos que levávamos no estojo, no curso primário. No começo usávamos só o lápis. A caneta, com a pena que molhávamos no tinteiro, vinha só mais tarde. Acreditem ou não, antigamente as carteiras tinham um buraquinho onde se encaixava o tinteiro, onde se punha a tinta, onde se enchia a caneta ou se molhava a pena com que escrevíamos e, muitas vezes, manchávamos os dedos. Numa mão a caneta, na outra, o mata-borrão. O lápis e a caneta formavam um calo indelével no canto interno do dedo médio (mais conhecido como “pai de todos”). O meu está aqui até hoje.

A caneta tinteiro só entrava em cena quando se dominava a escrita a lápis. A tinta era uma “promoção” que acontecia, se não me engano, lá pelo terceiro ano primário. Era uma época em que cada coisa tinha idade e ordem certas. Primeiro isto, depois aquilo. Nada de inverter a ordem. Caderno espiral e lapiseira de torcer eram coisas de criança rica. Na classe média e entre os mais pobres, os primeiros dias de aula eram dedicados a encapar livros e cadernos brochura com papel de seda. O plástico ainda não tinha sido disseminado em nosso cotidiano, o que só aconteceu depois da Segunda Guerra Mundial. Dá para imaginar um mundo sem plástico? Pois era assim, sem plástico, que estudávamos e fazíamos a lição de casa, com apontador de alumínio, régua e esquadro de madeira.

Há 60, 70 anos, a vida do aluno era bem mais complicada. Antes de mais nada, tínhamos que apontar o lápis, que ia ficando cada vez menor, menor, menor, até não dar mais para apontar. Hoje quem conhece um toco de lápis? Nós, os velhos, usávamos lapisinhos que só quando estavam bem no fim eram substituídos por novos – esguios, longos, inteiros. Um bom dia era o dia de ganhar lápis novo.

Todas as crianças tinham mala escolar, que precisava ser rearrumada diariamente para transportar os cadernos e livros das aulas de cada dia. Os mais grandinhos, já no fim do ginásio, tinham um objeto que era alvo de infinito desejo dos mais novos: o fichário. A capa dura do fichário tinha que durar pelo menos um ano. Todos esses apetrechos podiam ser caros ou baratos, nacionais ou estrangeiros. A produção nacional era simples, como toda a indústria nacional. Quem tinha família que viajava e trazia coisas dos Estados Unidos ou da Europa via seu status ser elevado às alturas. Material escolar era objeto de silenciosa inveja na classe. Quando as aulas começavam e levávamos para casa a lista de material, alguém da família ia conosco à papelaria. No meu caso, a do Seu Álvaro. Eram tão importantes essas semanas iniciais de aula, o dono da papelaria, o ritual de encapar o material e colar a etiqueta de identificação que me lembro deles em detalhes até hoje. E as decalcomanias, que mergulhávamos com delicadeza na água para depois calcar sobre as páginas do caderno? Lá se vão mais de 75 anos, mas as imagens continuam presentes em mim.

Em minha classe de primeiro ano primário havia um menino chamado Sidney, que tinha uma habilidade manual invejável. A professora o endeusava e dava-lhe a missão de fazer desenhinhos no canto direito do caderno dos outros alunos. Sidney era perfeito e intocável, um verdadeiro herói. Admirávamos também aquele que decorava fácil, aquela que recitava bem e os que eram chamados pela professora para escrever na lousa porque tinham letra bonita.

Como o mundo mudou! Nossos heróis eram os caprichosos, os que mantinham os cadernos e os livros bem encapados e organizados, sem borrões e orelhas. Hoje isso é responsabilidade do computador – do impessoal, industrial computador. Que pena! Todos nós perdemos alguma coisa. Não admiramos ou invejamos mais as aptidões dos outros. Nem nos gabamos das nossas. Ficamos todos iguais diante da tecnologia.

Antes da ditadura tecnológica, as aptidões pessoais eram um belo diferencial. Fulano era bom nisso, Beltrano naquilo – de graça, por natureza. Admirava-se este ou aquele e éramos todos diferentes entre nós. A habilidade manual, o capricho e a rapidez faziam, se não toda, muita diferença. Não adiantava ter uma ótima caneta se a pessoa tinha uma letra horrorosa. Hoje os dedos das crianças não têm mais calo nem mancha de tinta. Estão limpos e lisinhos, mas não sabem o que é capricho.

Ilustração: Tayná Milléo

Artigo publicado na edição de setembro de 2015

+ Educação
Assine a newsletter mensal e gratuita +Educação e receba ainda mais conteúdo no seu e-mail!