Há mais ou menos setenta anos, o piolho era uma ameaça terrível na vida das crianças. Quando se pegava piolho, a família toda ficava ocupada no engraçado esporte de caça a eles. E estes nunca vinham sozinhos: plantavam seus ovos nos fios de cabelo da vítima, os quais eram chamados de lêndeas, que eram os futuros piolhos. O nome é bonito, mas o filhote de piolho, não. Antes da Segunda Guerra Mundial, para combater este e outros insetos, só havia o Flit. Depois da guerra apareceu o DDT, um pesticida poderoso que hoje está banido em quase todo o mundo, inclusive no Brasil. Antes do Flit e do DDT, só mesmo a mão para matar o mosquito no tapa e o piolho entre as unhas dos polegares, assim como a pulga e o percevejo.

Hoje existem produtos bem menos agressivos e mais eficazes para combater os ftirápteros, nome técnico desses insetos, que têm mais de três mil espécies. Algumas mães ainda catam piolho na cabeça do filho ou filha, mas deixou de ser frequente a cena da criança com a cabeça entre os joelhos da mãe – ela arrancando os piolhos fio a fio. É bem verdade que o rádio ficava ligado e que a mãe podia ouvir a novela das quatro ou das cinco enquanto isso.

E quando uma escola se infestava de piolho? Socialmente, comentava-se em voz baixa, mas, entre as mães, falava-se de viva voz. Era pegar e matar! Vinagre era um dos recursos – paliativo apenas. Quando uma criança pegava piolho, não tinha jeito: todas as outras pegavam. Piolho é contagiante, pula de cabeça em cabeça. Ainda hoje, mesmo com xampus, pentes finos, pentes eletrônicos e outros métodos, não é fácil eliminar o piolho. Ele continua atacando, mesmo em escolas particulares. Deu piolho na terceira série!

Gostaria de fazer uma “ode” aos remédios de matar piolho. A vida melhorou tanto desde que eles existem! As novas gerações não podem imaginar o que era ver alguém coçar a cabeça e sair correndo. O piolho era ainda mais terrível para as meninas, que tinham que cortar o cabelo rente e todos ficavam sabendo por que. Cabelo cortado curtinho era confissão de culpa de piolho.

Como o mundo mudou! Houve tempo que havia percevejo nas casas, também de difícil eliminação. No quintal, o formigueiro era uma praga. Certa vez, depois de um piquenique, tirei quarenta carrapatos do meu corpo – daqueles minúsculos, os micuins. Nos jardins, o pulgão era uma verdadeira peste – que hoje conseguimos exterminar, mas não tão facilmente. Nos jardins internos de casas e apartamentos, ainda é um susto quando o pulgão ataca. Tem remédio, mas que, muitas vezes, mata a planta também. Os mosquitos eram evitados com o cortinado. Havia um cortinado (ou mosquiteiro) sobre toda cama. Os mosquitos gostavam de se esconder nos espaldares das camas patentes.

Vivemos em uma época em que os insetos domésticos são cada vez em menor número e têm menos variedade. Temos hoje menos inimigos escondidos nos desvãos da casa e do jardim. Nem minhoca se vê! Claro que ainda temos que combater o mosquito da dengue e outros inimigos ainda piores, invisíveis a olho nu – os micróbios. Mas o extermínio dos insetos está tão mais fácil que eu, em criança, jamais poderia imaginar a liberdade que temos deles hoje. Os insetos não são mais os inimigos que eram.

Já tivemos o Flit, o DDT, o espiral. Hoje temos o repelente eletrônico e ultrassônico, o spray, a raquete elétrica e muito menos inimigos íntimos para alimentar. Há cinquenta anos, remédio contra inseto era mão, palmada e chinelada. Pelo menos dentro de nosso quarto, o mundo mudou para melhor.

Artigo publicado na edição de agosto de 2015.

Ilustração: Tayná Milléo

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