Dizer que é ruim misturar idades é vago. Tem criança de um ano que anda e criança de um ano meio que não anda. Tem criança que fala logo e criança que demora a aprender a falar. É complicado saber o que é bom ou ruim de misturar. Se no primeiro desenvolvimento infantil há diferenças que se notam claramente, mais tarde as mudanças de aptidão são mais lentas. É difícil determinar exatamente o que uma criança de 11 anos pode aprender e o que deveria aprender só aos 13 anos, mas não é uma questão muito complexa. Agora, se colocarmos em pé uma criança que ainda não tem os reflexos para ficar em pé, estamos cometendo uma violência.

Para aprender a usar a mão – pegar, rasgar, cortar, desenhar –, por exemplo, a criança precisa ter certa maturidade cerebral e mental. Acontecem nessa fase defasagens de seis meses, um ano no máximo. Mas, quando a criança é mais velha, é diferente. Com 11 anos, pode estar apta a cursar o 5º ou 6º ano do ensino fundamental. As defasagens são muito mais sutis porque dependem diretamente da capacidade de observar, imitar, copiar, repetir. Ao passo que, para a criança pequena, a questão é a capacidade de se levantar, se equilibrar, deglutir. São menos capacidades em jogo, mas muito mais dramáticas.

Na primeira infância, aprendemos estimulados pelo adulto. Somos elogiados quando damos um passo à frente em nossas capacidades. Desenvolver os primeiros movimentos para controlar nosso sistema digestivo e garantir nossa sobrevivência é totalmente diferente de aprender movimentos para guiar um carro, por exemplo. Grandes populações do mundo sobrevivem sem saber dirigir um automóvel ou andar a cavalo. Ensinamos às crianças as coisas essenciais quando elas são muito pequenininhas: pegar, largar, engolir, lamber. A forma de aprendizagem de crianças e adultos é diferente.

Existem relatos famosos sobre crianças que foram criadas por lobas. Um deles, muito conhecido no estudo da psicologia do desenvolvimento, é o de Victor de Aveyron, menino de 12 anos encontrado perto de uma floresta na França, no final do século 18. Conhecido por “menino-lobo” por andar de quatro, uivar e emitir grunhidos incompreensíveis, Victor foi adotado pelo educador Jean-Marc Gaspard Itard, que registrou os avanços diários do pupilo. Victor conseguiu aprender muitas coisas, mas, apesar dos esforços de Itard e seus colegas, morreu aos 40 anos sem conseguir falar mais que um punhado de palavras.

O que essa e outras histórias nos contam é que, se colocarmos um bebê perto de uma loba que tem leite, a loba alimenta e cuida do bebê. A criança sobrevive, mas não aprende a falar (como poderia se não há ninguém falando?). Fica limitada na emissão de sons e no que faz com a mão. A criança sempre fará mais com a mão do que a mãe loba, porque tem o polegar e a loba, não. Mas, ainda assim, ficará limitada também nos gestos.

Nossa anatomia determina nossas possibilidades. Nossas cordas vocais nos permitem emitir vários sons que outros mamíferos não conseguem emitir. Não porque sejam menos dotados, mas porque não têm as cordas vocais adequadas para emitir tais sons. Tornamo-nos esses hominídeos que somos porque o polegar nos permite pegar, agarrar e construir ferramentas. Também porque temos cordas vocais que nos permitem variar de sons, imitar os barulhos da natureza, emitir gritos, suspiros, articular palavras.

A anatomia tem tudo a ver com nos tornarmos o homem que a sociedade conhece. Sem as cordas vocais, sem o polegar e sem nossa capacidade de ficar em pé e de ter equilíbrio, não seríamos quem somos. Por outro lado, não somos capazes de nos pendurarmos em galhos, como fazem nossos primos macacos. Cada anatomia tem suas vantagens e desvantagens. Nossa superioridade vem das cordas vocais, do polegar e da capacidade de nos equilibrarmos em duas pernas. É importante atentarmos para a relação íntima entre nossa anatomia e nossa sensibilidade. Nossa anatomia nos permite realizar uma série de coisas e imitar vários movimentos. Existe uma perfeita adequação entre nossas capacidades mental e anatômica. Nossa escuta apta a captar sons e nossa capacidade de repeti-los – o elo entre audição e dicção que deve estar em algum lugar de nosso cérebro – são vitais. Somos capazes de ver e imitar gestos e sons. Pudemos, com isso, criar sociedades em que as pessoas têm comportamentos semelhantes e podem, portanto, criar objetos de uso coletivo. Um bom exemplo é a escrita: você, leitor, está lendo o que já esteve em minha mente. Isso só é possível porque desenvolvemos desde pequenos nossa capacidade de copiar e imitar.

Voltando ao início, a criança deve estar em contato com quem sabe mais que ela, desde o começo. Por isso, não se pode dizer que é ruim colocar lado a lado uma criança de 1 ano e uma criança de 3 anos. Faz parte da natureza das famílias a convivência de pessoas de diferentes idades – crianças, jovens, velhos. No entanto, a criança menor demanda mais cuidados e atenção, pois não sabe o que é perigo e não conhece o funcionamento dos objetos. Não sabe que a chuva faz mal, que as coisas caem, que algumas quebram e outras, não. Esses conhecimentos ela irá obter aos poucos, por meio de observação ou de avisos dos mais velhos. Acontece que família e escola são instituições diferentes. Escola é lugar para aperfeiçoar as capacidades e, dependendo da idade, ser vigiado com atenção. Não vamos misturar alhos com bugalhos nem idades onde não devem ser misturadas.

 

Artigo publicado na edição de maio de 2015. Ilustração: Tayná Milléo.

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