Tempos atrás, quando as calçadas eram públicas, acessíveis e seguras, as crianças podiam brincar fora de casa. Não podiam descer o meio-fio porque no meio da rua era perigoso, mas na calçada não era. Naquele tempo, tinha um campinho onde hoje está o Mercado da Lapa. Era onde eu e meus colegas brincávamos sem medo.

No tempo em que a calçada era lugar de encontro, muitas vezes o muro do quintal também era um ponto de encontro e comunicação entre vizinhos, até porque telefone era coisa rara. Usávamos o da casa do jogo do bicho – que ficava inacessível das duas às três da tarde, quando se esperava o resultado do jogo.

Lembro-me claramente de conversar pelo muro com a Edir, minha vizinha de um dos lados, e de xeretar a vida na casa da Dona Naíme (que vivia com seus sete filhos – cinco homens e duas mulheres) pelo muro do outro lado. As áreas descobertas das casas eram quase públicas. Naquele tempo, em que não tínhamos vida fora de família a não ser com vizinhos, ficar em casa era melhor que ir à escola.

Na Lapa, a renda das famílias do lado de cá e de lá dos muros podia até ser diferente, mas o consumo era muito parecido. A vida em cada casa seguia a tradição da família, fosse ela do interior do Estado ou de terras de além-mar. A mãe da Edir era do interior e via como ascensão social matricular a filha no Mackenzie, coisa que fez. Do outro lado do muro, a Dona Naíme, que vinha dos fundões da Síria, considerava ascensão colocar os filhos para estudar nem que fosse em escolas públicas. Entre as duas ficava minha casa de húngaros judeus, em que não se falava ídiche e com tradições diferentes de todos os outros judeus da rua. O isolamento era grande. Tudo isso em cerca de 30 metros de frente para a Rua Dr. Cincinato Pomponet. Os filhos, claro, saíram de cada casa de um jeito. Mas quase todos acabaram fazendo faculdade. Era esse o grande salto.

Logo adiante da casa da Dona Naíme havia uma relojoaria que deu um salto maior ainda. Um dos filhos não casou. Era obeso, o que acontece nas melhores famílias. Uma das filhas casou com o titular do cartório que ficava em frente à relojoaria – e ascendeu socialmente pra valer. Foi morar na Pompeia, que era um pouco mais perto do Centro, onde morar era a glória. A outra filha do relojoeiro casou-se com um “garoto de ouro” que aprendeu a consertar gasogênio (estávamos na década de 1940, quando não havia gasolina). Zezinho abriu uma oficina na Avenida São Luís, onde hoje fica o Edifício Itália. Era então uma vila de casas em estilo normando que com o tempo foi se tornando comercial. Zezinho ficou rico, mas Lídia, sua mulher, não quis (ou não conseguiu) enriquecer. Chegou até a Pompeia, mas dali para frente não acompanhou o marido. Lídia gostava de automóveis vistosos e vinha todo dia ver os pais em seu rabo de peixe rosa e branco. Se era para se exibir, não sei, mas chamava atenção. Havia também uma senhora que ficava o dia todo na janela vendo o que acontecia lá fora, enquanto o marido subia e descia a rua empurrando um carrinho em que transportava panelas e outros artefatos de alumínio. Eu não ficava exatamente numa janela, mas, sem o saber, fazia como a Dona Sara: observava tudo.

A grande ruptura em nossa rua foi feita por um jovem de origem árabe. O “turquinho” – naquele tempo, perdão, chamávamos todos os árabes de “turquinhos” – abriu uma loja que cresceu e se multiplicou. Chamava-se Ao barulho da Lapa (existe até hoje, não sei se do mesmo dono): uma loja de tecidos baratos e retalhos. Com o Ao barulho da Lapa na rua, tudo mudou. Às segundas de manhã, eles faziam uma grande feira de saldos. As filas começavam a ser formar ainda no domingo. Claro que nas ruas vizinhas tínhamos dezenas de costureiras. Naquele tempo, ninguém em sã consciência comprava roupa pronta, a não ser os muito pobrezinhos ou milionários – estes  compravam roupas importadas.

Até então não tínhamos nem filial de banco na Lapa. Só as lojas Pernambucanas e a Drogasil eram filiais. Então ocorreu a grande mudança em nossa zona oeste. Foi inaugurada, no Largo Santa Cecilia, a Clipper, uma das primeiras lojas de departamento afastadas do Centro. No Centro, claro, ficava o Mappin com suas mercadorias e seu famoso chá das cinco (para poucos).  

Aos domingos, as pessoas cultas do bairro iam até a rádio Gazeta, na Avenida Cásper Libero. Excepcionalmente, iam até o Teatro Municipal. Não se ia tanto ao Teatro Santana, na Rua 24 de Maio, que era um teatro de revista. Não era “bem” moças solteiras frequentarem esse tipo de lugar. Nós frequentávamos o Teatro Gazeta, esse sim, onde se via no palco o que os outros estavam ouvindo pelo rádio. Essa concomitância encantava. O grande dia era quando nos levavam à rádio América para ver Nhô Totico em pessoa fazer a escola da Dona Olinda. Que farra ver Nhô Totico “ser tudo”: a professora e todos os alunos da classe!

Era tão barato criar acontecimentos e, ao mesmo tempo, tão raro. A rotina era uma imposição. Não era uma questão de preço, mas sim de romper ou não essa rotina. Como era bom o tempo em que cada movimento nosso tinha um significado e determinava quem éramos e quem haveríamos de ser. 

 

Artigo publicado na edição de abril de 2015.

+ Educação
Assine a newsletter mensal e gratuita +Educação e receba ainda mais conteúdo no seu e-mail!