Conversar com quem concordamos é fácil. Pode ser divertido e dar uma sensação de “dever cumprido”. Nada como passar a noite conversando com pessoas que compartilham nossa visão de mundo, não é mesmo?

O real desafio é aprender a ouvir lados opostos aos nossos. Em minha vida pessoal, costumo usar até como medida para alguém que quero ter por perto. Se a pessoa sabe expor visões diferentes da minha, reconhecendo minha visão, e eventualmente se mostre tão disposta quanto eu a mudar o modo como vê o mundo, eis alguém que quero ter por perto. A melhor forma de continuar na ignorância é se cercar por aqueles que concordam com você.

Democracia só existe se as pessoas têm direito de pensar diferente. Se as pessoas à sua volta concordam com você e é assim que você gosta, você não vive em uma democracia. O sistema só é realmente testado a partir do momento que aprendemos a respeitar pontos de vista diferentes. É aquele momento em que a opinião do outro pode até doer, mas você prefere que ele tenha o direito a ter essa opinião do que ser impedido de dizê-la.

Como tudo que realmente vale a pena, lidar com opiniões divergentes é difícil. Tanto que existe um erro tão comum que tem até nome: reductio ad persona.

Você cai no argumento ad persona toda vez que, ao ouvir um argumento com que não concorda, ataca a pessoa em vez do argumento. O reductio ad persona é algo instintivo, natural para nós, animais que evoluímos há tão pouco tempo. Com nossa visão de mundo ameaçada e sem saber como lidar com a mensagem, atacamos o mensageiro.

Entender a visão do outro lado, pensar a respeito e dar uma resposta digna é fruto de inteligência e esforço. É difícil, mas é aí que pessoas expandem sua visão de mundo e evoluem.

Da próxima vez que alguém desqualificar sua opinião com base em uma característica sua, caia fora e esqueça. Não vale a pena perder tempo. É para isso que opções de silenciar e a milenar arte de se afastar de pessoas inconvenientes existem.

Se você, em um surto de empolgação, se pegou fazendo isso, respire, pense um pouco e repita a si mesmo: é o argumento, não é a pessoa. Lembre-se: não é questão de pensar “Ah, esse cara é um (insira seu adjetivo aqui)”, mas sim de enfiar na cabeça que diferentes pessoas pensam de forma diferente.

Você só saberá realmente viver em uma democracia quando ouvir algo que o incomoda e tentar entender aquela visão de mundo.

O resto é ignorância.

Autor: Fábio Zugman é professor universitário e mestre em Administração pela UFPR.

 

Artigo publicado na edição de fevereiro de 2015.

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