Para compreender melhor o papel de uma língua estrangeira (LE) na rede pública de ensino devemos ter em mente quatro fases importantes.

A primeira delas é a definição de objetivos gerais que justificam a implementação da disciplina no currículo. Em seguida, objetivos específicos que designam cada situação específica que o ensino requer no âmbito regional e de cada escola e série para o planejamento de cursos. Depois, vem a fase da escolha do material didático que precede a opção pela etapa metodológica, visando implementar objetivos e conteúdos mediante procedimentos de apresentação e prática linguística com ou sem apoio de recursos. Em quarto lugar vem a avaliação, que deverá corroborar os objetivos e metodologia adotados e, caso não sejam bons, acarretarão a mudança de estratégia, como define Almeida Filho.  O que tem denunciado a fragilidade do ensino público de línguas durante muitos anos tem sido um planejamento claudicante, sem objetivos claros, concretos e definidos. O método principal usado por muitos professores durante muito tempo tem sido a gramática tradução (Paiva, 2006). Não se dá a devida atenção à leitura e oralidade, e por isso o ensino de LE tem se mostrado tão frágil na contemporaneidade. Durante anos de estudos, como professor de Inglês em escolas da rede pública e privada, pesquisando questões relacionadas ao processo de ensino e aprendizagem de línguas, acredito que um bom ensino-aprendizagem de uma língua estrangeira parte de um sensato equilíbrio entre leitura, escrita e compreensão oral. Esses são objetivos claros e concretos que permitem um trabalho bem-sucedido, que começa no ensino fundamental e termina no ensino médio, desenvolvendo de forma mais eficiente a competência comunicativa – citada por Hymes – dos discentes.

A gramática precisa ter o seu papel redimensionado, tem que estar subordinada às necessidades de interesse pelo uso comunicativo da língua-alvo. Dessa forma,  ao elaborar nossos planos de curso, em primeiro lugar devemos partir de materiais didáticos (poderíamos também confeccionar nossos próprios materiais didáticos com base em uma concepção de linguagem como prática social) que priorizem o uso comunicativo da língua e que, posteriormente, implicarão conteúdos gramaticais decorrentes da análise de discursos já trabalhados anteriormente. Ou seja, depois de escolhermos um tema, debater aquele tema com os nossos discentes na LE, poderíamos selecionar, pelos comentários de nossos alunos, alguma estrutura gramatical e dar apenas algumas pinceladas (esclarecendo e tirando dúvidas) desse ou daquele tópico gramatical, sem nos ater demasiadamente em tal ponto. O aluno ficaria responsável por pesquisar mais a fundo, posteriormente. Se os nossos alunos estão iniciando o contato com a língua-alvo, é importante que nós, professores de línguas, usemos mais a língua-alvo em sala de aula (isso não impede que usemos também a língua materna), compensando algumas falhas de comunicação com expressões faciais, gestos, mímicas etc. O importante é expor os alunos a diversas amostras da língua estrangeira. Essas amostras poderiam partir de roteiros culturais, como sugerem os autores Unternbäumen e Escalante, começando por pequenas amostras da língua-alvo em diferentes contextos sociais de comunicação, em pequenos diálogos que, consequentemente, vão se incrementando em grau de dificuldade e intensidade, de acordo com o desenvolvimento comunicativo de nossos alunos.

Autor: Romar Souza Dias é professor da Universidade do Estado da Bahia (UNEB), campus VI, Caetité-BA. Mestrando em Linguística Aplicada pelo Programa de Pós-Graduação em Linguística Aplicada
da Universidade de Brasília (UnB), onde desenvolve pesquisa sobre identidade de alunos de classes menos favorecidas e ensino de línguas. E-mail para contato:  O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

+ Educação
Assine a newsletter mensal e gratuita +Educação e receba ainda mais conteúdo no seu e-mail!