Mudar a educação contemporânea brasileira, básica ou superior, entre tantas outras atitudes possíveis, consiste em ressignificar a aula, imprimindo nela a condição de lugar de trabalho cognitivo, de atividade intelectual, de participação ativa dos principais sujeitos da aprendizagem: os estudantes. Para tanto, o modelo de aula como momento de locução de informações, como pronunciamento de dados por uma única fonte (método passivo), cede espaço para a interação, a aprendizagem entre pares, a colaboração em times, a investigação de casos e tantos outros métodos cujo interesse é dar significado e profundidade à aprendizagem, por meio da mobilização mental do aprendente. Porém, em comum, todos os métodos que incentivam o protagonismo do estudante precisam da leitura como condição e oportunidade para que se concretizem.

No livro A águia e a galinha, o autor Leonardo Boff afirma que “os olhos veem a partir de onde os pés pisam”. O que isso significa? Que as diferentes perspectivas pelas quais se observa um fato ou acontecimento dão origem a uma multiplicidade de objetos de conhecimento, cada qual com suas características e propriedades. Assim também acontece com a leitura. Em uma acepção bastante ampla, ler é atribuir sentidos. Por essa razão, qualquer exemplar de texto escrito ou oral apresenta-se possível e passível de leitura.  Como concepção, a leitura é compreendida por um ponto de vista ideológico, trazendo consigo valores de verdade ou de mentira que se atribuem à(s) representação(ões) que se faz(em) do(s) mundo(s), razão por que o termo é usado como “leitura de mundo”. Já no sentido de escolaridade, a leitura é associada à alfabetização, apresentando caráter de aprendizagem formal.

Desse modo, entre a atividade de percorrer com a vista o que está escrito ou de captar pela audição o que é dito, reconhecendo, percebendo, decifrando para compreender e interpretar, fazendo dessas atividades um hábito ou uma arte, há um espaço no qual se desenvolve uma multiplicidade de atos, o que permite afirmar que a leitura é uma atividade complexa.

Por isso, é tão necessário refletir sobre a leitura como processo de produção de sentidos e, do mesmo modo que a escrita, torná-la possível de ser trabalhada, durante toda a existência humana. Para tanto, ela precisa ser compreendida como uma maneira de proceder no mundo, na linguagem e(ou) pela linguagem. Há diferentes formas e(ou) modos de leitura porque há diferentes maneiras pelas quais o ser humano mediatiza-se com as coisas do(s) mundo(s) e com os outros indivíduos para produzir sentidos. Por essa razão, a leitura pode transformar o próprio ser humano, visto ser ela uma mediação que se dá pela força transformadora da linguagem.

Em síntese, a leitura é atividade e meio para que as pessoas possam aprender a aprender em todos os sentidos. É possível afirmar que, na aprendizagem, passar da passividade à atividade exige exercício constante e efetivo de leitura, mas de uma leitura integrada ao projeto, ao método, à estratégia escolhida para o aprender, pois, trabalhada separadamente, deixa de ser oportunidade para compreender a relação dinâmica responsável por transformar o dado em informação e a informação em saber.

Marcilene Bueno é doutoranda em Innovation in Engineering Education na Unesp (Guaratinguetá-SP) e mestre em Língua Portuguesa pela PUC-SP. Professora na graduação e na pós-graduação do Unisal e pesquisadora do Laboratório de Metodologias Inovadoras da mesma instituição

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