Muito se fala da inclusão de alunos com deficiência nas escolas regulares, mas faltam ações para que ela aconteça efetivamente. A questão é um grande desafio, implica mudanças no sistema educacional e nas instituições de ensino e envolve professores, coordenadores, diretores e familiares. Não se pode ignorar que esse perfil de aluno faz parte da realidade das escolas. Os princípios inclusivos baseiam-se nas diferenças e suscitam discussões e transformações na educação. Cada estudante é singular, tem suas capacidades e habilidades. Muitas vezes, o aluno com necessidades educacionais precisa de um atendimento específico com psicólogos, fonoaudiólogos e assistentes sociais, a fim de ter condições fundamentais para seu desenvolvimento e sua aprendizagem.

 

Leciono Arte no ensino fundamental, na Escola Municipal Geraldo Teixeira da Costa, em Belo Horizonte (MG). Temos o apoio do Atendimento Educacional Especializado e o suporte da coordenação pedagógica. Infelizmente, não existe uma equipe de profissionais de saúde nas escolas da rede e falta formação específica para que os professores saibam lidar com as diversas deficiências e diferenças. A inclusão escolar é um processo gradual, complexo, mas o fato é que cresce o número de alunos com necessidades especiais na escola em que atuo. O que fazer com esses estudantes em classes comuns? Como atender às demandas específicas deles?

Há dois anos percebo o quanto é importante dar atenção especial a essas questões. Em 2013, participei de uma vivência pedagógica gratificante com o projeto “Fábulas em quilling”, inspirado por um aluno com necessidades educacionais especiais. A ideia baseou-se em retomar alguns ensinamentos morais trazidos pelas fábulas e aprender uma técnica artesanal com tiras de papel enrolado (quilling). A realização dessa estratégia pedagógica foi significativa, modificou positivamente o cotidiano das três turmas envolvidas no projeto e melhorou a convivência escolar. A prática exigiu flexibilidade, organização, dedicação, sensibilidade e criatividade para adequar as atividades ao perfil do aluno com necessidades especiais, o que determinou o caminho a ser traçado pelas coordenadoras do projeto. Apesar de encontrar várias dificuldades na realização das atividades, a participação geral foi efetiva. O mais importante foi respeitar as diferenças, incentivar, valorizar o esforço de cada um nesse processo de aprendizagem.

 Inovar, adequar e aperfeiçoar qualquer proposta exige tempo, motivação, disposição e dedicação do professor, que precisa saber lidar com as diferenças, investir em formação continuada, ler, discutir, elaborar mudanças em sua prática de ensino. Em 2015, planejei encontros extras e semanais com 12 alunos que apresentaram vários tipos de deficiências, visando melhorar sua adaptação escolar. O projeto “Prática em arte” consistiu em estimular a motricidade fina, elevar a autoestima e favorecer a inter-relação do grupo. Utilizando sucatas, introduzi elementos da arte (ponto, linha, cor, forma, textura, simetria), despertando a criatividade dos alunos.

Essas práticas pedagógicas foram possíveis devido à organização da escola, que permite que cada disciplina tenha duas aulas semanais e o professor tenha horários de planejamento. Com ritmos diferenciados, foi preciso estimular, constantemente, o respeito ao próximo, a participação e a importância de cada um no projeto, a fim de que os alunos se sentissem agentes do processo. Houve problemas de compreensão da proposta e na convivência social, mas aos poucos o grupo começou a interagir, participar com entusiasmo das aulas, e a aprendizagem fluiu naturalmente. “Essa experiência me ajudou nos movimentos motores” – a declaração é do aluno Vitor Damaceno, participante do projeto. O tempo e a experiência pedagógica nos ensinam que é melhor tentar algo criativo, apesar dos entraves e dos desafios que existem na rotina de um professor, principalmente no que se refere à inclusão escolar.

Matéria publicada na edição impressa da Profissão Mestre de março de 2016.

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