Recebo vários e-mails de estudantes e profissionais da Psicologia questionando qual o papel do psicólogo na inclusão, o que me levou a escrever o livro Psicologia e deficiência: atuações psicológicas em pessoas com deficiência (Wak Editora). No entanto, falarei neste artigo especificamente da educação inclusiva e de sua provisão de oportunidades equitativas a todos os estudantes, incluindo aqueles com deficiências severas, para que recebam serviços educacionais eficazes, com os necessários serviços suplementares de auxílio e apoio, em classes adequadas à idade em escolas da vizinhança, a fim de prepará-los para uma vida produtiva como membros plenos da sociedade. A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) dá abertura à atuação do psicólogo quando diz que “haverá, quando necessário, serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender às peculiaridades da clientela de educação”.

Entre as várias possibilidades, muitas vezes os psicólogos precisarão interceder no processo de inclusão de alunos com transtornos globais do desenvolvimento (TGD), citados na LDBEN. Os TGD são distúrbios nas interações sociais recíprocas que costumam manifestar-se nos primeiros cinco anos de vida. Caracterizam-se pelos padrões de comunicação estereotipados e repetitivos, assim como pelo estreitamento nos interesses e nas atividades. A Classificação de Transtornos Mentais e de Comportamento da Classificação Internacional de Doenças (CID-10) define categorias que formam o conjunto F84: autismo infantil; autismo atípico; síndrome de Rett, outro transtorno desintegrativo da infância; transtorno com hipercinesia associado a retardo mental e a movimentos estereotipados; síndrome de Asperger; outros transtornos globais do desenvolvimento; e transtornos globais não especificados do desenvolvimento.

Com relação à interação social, crianças com TGD apresentam dificuldades em iniciar e manter uma conversa. Algumas evitam o contato visual e demonstram aversão ao toque do outro, mantendo-se isoladas. Podem estabelecer contato por meio de comportamentos não verbais e, ao brincar, preferem ater-se a objetos em vez de movimentarem-se com as demais crianças. Ações repetitivas são bastante comuns. Os TGD também causam variações na atenção, na concentração e, eventualmente, na coordenação motora. Mudanças de humor sem causa aparente e acessos de agressividade são comuns em alguns casos. As crianças apresentam seus interesses de maneira diferenciada e podem fixar sua atenção em uma só atividade, como observar determinados objetos. Na comunicação verbal, essas crianças podem repetir as falas dos outros – fenômeno conhecido como ecolalia – ou, ainda, comunicar-se por meio de gestos ou com uma entonação mecânica, fazendo uso de jargões.

Essas são orientações que os psicólogos podem passar aos professores e/ou orientadores pedagógicos. A atuação desses profissionais deve começar por evitar atitudes que agravam os problemas emocionais desses alunos: forçar a criança a ficar no espaço sem dialogar; ridicularizar seus sentimentos; usar chantagens e subornos; ignorar o medo para ver se a criança o esquece.

Na escola, mesmo em tempos diferentes de aprendizagem, esses alunos devem ser incluídos em classes com os pares da mesma faixa etária. Estabelecer rotinas em grupo e ajudar o aluno a incorporar regras de convívio social são atitudes de extrema importância para garantir o desenvolvimento. Boa parte dessas crianças precisa de ajuda na aprendizagem da autorregulação, e essas são sugestões pedagógicas a serem trabalhadas na sala de aula:

- Fazer da organização da sala uma rotina diária, com recursos visuais e auditivos;

- Dividir as atividades em tempos menores;

- Iniciar as aulas pelas atividades que requerem atenção, deixando para o fim aquelas que são mais agradáveis e estimulantes;

- Utilizar música de fundo, proporcionando um clima agradável, harmonioso e tranquilo;

- Adotar uma atitude positiva, com elogios e “recompensas” por comportamentos adequados. Isso cria um equilíbrio em relação às chamadas de atenção dirigidas aos alunos com transtorno do déficit de atenção com hiperatividade (TDAH).

No trabalho com os professores, os psicólogos devem incentivá-los sempre que for preciso. As dúvidas devem ser divididas com a coordenação e os colegas quando a escola receber uma criança com necessidades especiais. Jamais reduzir o aluno à sua deficiência. Apesar de ter características peculiares, ele tem possibilidade e carrega uma história e muitas expectativas que o tornam único. Conversar constantemente com outros especialistas que tratam a criança, pois eles podem ajudar a pensar em estratégias para lidar com ela, e os psicólogos devem estar preparados para receber esses professores para esses diálogos. Por fim, não esquecer que quem sabe como ensinar a criança é o professor.

Há várias contribuições que os psicólogos podem dar à educação inclusiva. Muitos estão trabalhando na formação pedagógica ou continuada de professores, e uma das primeiras tarefas quando falamos de educação inclusiva é levá-los a refletir que, ao contrário do que possa parecer, incluir o aluno com deficiência não significa apenas colocá-lo em uma classe de uma escola de ensino regular: é necessário preparo dos professores, além de adaptações de grande porte (de responsabilidade exclusiva dos órgãos federais, estaduais e municipais) e de pequeno porte, cabendo aos professores se especializarem para saber como transmitir ensinamentos para qualquer tipo de aluno.

Reportagem publicada na edição de novembro de 2015

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