A discalculia é um distúrbio neurológico que gera dificuldade no aprendizado em matemática e faz com que a criança apresente dificuldade em compreender tudo o que se relaciona a números, como fazer operações matemáticas e classificações, entender conceitos matemáticos, aplicar a matemática no cotidiano e compreender uma sequência numérica. Cerca de 5% da população sofre desse distúrbio. Antigamente, a discalculia era conhecida como dislexia numérica; hoje, sabemos que uma criança pode ter apenas discalculia. Os pesquisadores ainda estão em busca das causas e, para tanto, têm investigado diversos domínios, mas acredita-se que sejam genéticas. A discalculia atinge crianças com vários níveis de QI.

Investigações baseadas na neurofisiologia e na neurociência têm demonstrado que o sulco intraparietal bilateral é a estrutura anatômica-chave envolvida na realização das tarefas de natureza numérica. Por meio do exame de ressonância magnética funcional, foi verificado que essa região é pouco ativada em crianças com discalculia. Outro exame em que se apresentam alterações nessa região é a tomografia por emissão de pósitrons.

O diagnóstico da discalculia é feito por meio de uma equipe multidisciplinar (fonoaudiólogos, psicopedagogos, psicólogos, neuropediatras, neurologistas, pedagogos e pediatras). Porém, para que esse diagnóstico ocorra, é necessário que a criança já tenha sido exposta ao conhecimento matemático. A discalculia não é oriunda de problema emocional, pedagógico e social, pois, nesse caso, seria dificuldade de aprendizagem em matemática. Mas a discalculia pode ocorrer concomitantemente com outras comorbidades.

Todavia, a discalculia vai além de problemas relacionados à matemática – ela é um problema psicossocial, pois a criança que apresenta esse distúrbio tem toda sua vida desestruturada, com prejuízos sociais, emocionais e psicológicos. Cabe aqui orientar familiares e professores para que compreendam que o aprendizado nos discalcúlicos acontece de maneira lenta e diferenciada. A compreensão acerca das habilidades matemáticas é dificultada e torna-se emergencial um novo olhar e algumas alterações nas ações do processo ensino-aprendizagem.

Precisamos considerar a matemática como uma linguagem. Assim, os alunos devem aprender os fundamentos do discurso matemático (palavras, sinais, símbolos, procedimentos, habilidades etc.) e como aplicá-los para resolver problemas em uma variedade de situações, para entender assim sua função social. Há uma grande semelhança  entre o aprendizado matemático e o da língua portuguesa. Estudos relatam que tanto para o aprendizado matemático como para a aquisição da língua é necessário que ocorra a transcodificação entre as diferentes representações de números e a decodificação grafo-fonêmica. 

Desse modo, uma ferramenta valiosa para o aprendizado das crianças com discalculia é a leitura e a interpretação de textos. Quando a criança compreende o enunciado de uma questão, ela consegue absorver melhor os conteúdos implícitos para solucionar o problema.  Não podemos ensinar matemática às crianças com discalculia com um método tradicional. Precisamos de recursos como contação de histórias, jogos, atividades lúdicas e brincadeiras. O professor deve valorizar essas ferramentas e, principalmente, os conhecimentos e as habilidades já conquistadas pela criança durante sua vida acadêmica e social, mostrando as barreiras já vencidas.

Atuar com afetividade contribuirá para trazer de volta autoestima, motivação, autoconfiança e bem-estar a essas crianças, pois os alunos que possuem uma boa autoestima participam, interagem, aprendem e socializam-se muito melhor. Logo, vemos que os problemas causados por esse distúrbio ultrapassam os problemas matemáticos.

Precisamos resgatar essa criança emocionalmente para poder incluir outros objetivos, como ensinar álgebra. Encorajar e acreditar nesses alunos farão com que voltem a acreditar em si mesmos, criando assim um vínculo afetivo e social entre professor e aluno, o qual possibilitará uma comunicação eficaz, servirá de base para a continuidade nos anos escolares dessa criança e permitirá que ela se desenvolva de maneira completa (nos aspectos cognitivo, social, emocional, afetivo, educacional etc.). O professor deve estar disposto a participar desse processo, com a participação da família e de multiprofissionais, que serão a base dele.

Autora: Ana Maria Antunes de Campos é psicopedagoga e graduada em Licenciatura Plena em Matemática. Especialista em Educação Lúdica e pós-graduada em Didática e Tendências Pedagógicas, é autora de diversos artigos e livros na área educacional. Professora de graduação e pós-graduação. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

 

Artigo publicado na edição de maio de 2015.

 

+ Educação
Assine a newsletter mensal e gratuita +Educação e receba ainda mais conteúdo no seu e-mail!