Desde o início do ano passado, as escolas por todo o Brasil têm discutido o calendário escolar em virtude da Copa do Mundo. Claro que, em um primeiro momento, a logística de adequar os duzentos dias letivos aos dias de jogos, principalmente os do Brasil, quando o País literalmente para, foi o que predominou na maioria das discussões. Entretanto, passada essa fase, uma vez que os calendários de 2014 de cada colégio já estão prontos e divulgados e o ano letivo já corre a pleno vapor, é necessário pensar a Copa do Mundo no Brasil como uma oportunidade de aprendizado para os nossos alunos. Como? As possibilidades são inúmeras.

Mais que um tema transversal que pode abarcar várias disciplinas escolares, a Copa aproxima o cotidiano, que estará em todos os meios de comunicação, ao estudo teórico tantas vezes distante do alunado. Com a proximidade do torneio, as discussões ganham as casas, os escritórios e, por que não, as escolas.

A brazuca, a bola oficial do torneio, por exemplo, poderá sair rolando do gramado diretamente para uma aula de química. Qual o material por ela utilizado? Como se chegou a esse material? Por que 437 gramas, nem mais nem menos? Ao que os nossos professores de física podem colaborar ajudando os alunos a pensar e calcular trajetórias da brazuca, força do chute dos jogadores e tantos outros aspectos físicos que uma atividade como o futebol proporciona.

E, se não existe futebol sem chute, qual professor de biologia não ficaria honrado de poder explicar os músculos em ação da perna de Neymar, comentando aquele gol espetacular que, mesmo sem fazer um exercício de futurologia, acreditamos que virá para a alegria geral da nação verde-amarela? Ou, então, o trabalho cardiorrespiratório do jogador e todas as funções de seu corpo que também estarão em jogo enquanto a bola rola?

A distante e de nome estranho Bósnia e Herzegovina, cuja seleção tem presença confirmada nos estádios brasileiros, com certeza tem muito a ensinar aos nossos alunos sobre a região dos Bálcãs. Os professores de geografia vão finalmente poder aproximar as fronteiras longínquas – e muitas vezes geladas – de tantos países ao ensolarado Brasil.

A temida matemática ficará muito mais simpática aos olhares escolares caso se faça o cálculo da probabilidade de o Brasil ser campeão, ou vice, pelo menos. O cálculo do custo da construção de um estádio e da renda de cada jogo ajudará nossos jovens a entender o tempo que será necessário para se pagar uma construção desse porte. Por que também não ensinar juros tomando por base o salário astronômico de um jogador de futebol em qualquer aplicação financeira? As oportunidades de ensinar matemática a partir da Copa do Mundo são quase tão infinitas como são os próprios números.

Enfim, não há componente curricular que não possa ganhar outro brilho com algo que é tão caro ao brasileiro como é o futebol, sempre nossa paixão nacional.

Lições de civilidade

É óbvio que o nosso aluno não estará em campo, mas poderá estar nas arquibancadas torcendo por nossa seleção. Que lições de civilidade uma torcida deve dar ao mundo?

A Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI) realiza em 19 países um projeto de ensino de valores sociais, que passa pelo futebol, com atividades sobre resolução pacífica de conflitos e trabalho em equipe. Se esse projeto em particular alcança apenas as escolas municipais, em nada isso impede que seja um exemplo a ser seguido por todas as escolas, sejam elas privadas ou públicas.

A resolução pacífica de conflitos ultrapassa as barreiras do futebol: é uma educação para a vida. E quantos exemplos positivos e negativos da postura de uma torcida podem ilustrar uma discussão sobre esse tema? Dois times que se enfrentam, cada um querendo ganhar do outro, por si só já é uma situação delicada, mas não pode ser considerada em conflito. O estádio não pode ser visto por nenhum torcedor como um campo de guerra, e aprender a perder tanto quanto a ganhar é fundamental para a formação do caráter de nossos alunos.

Há ainda que se refletir como cada aluno pode e deve ser um multiplicador de hospitalidade para os turistas que passearão por nossas cidades. Nossos problemas internos não podem manchar a imagem que um evento desse porte transmite ao mundo. Já passou da hora de o Brasil mostrar que tem profissionais competentes, organização, planejamento e todas as condições de fazer uma Copa do Mundo impecável.

Consciência crítica e valores

Se há tantas manifestações em várias cidades brasileiras justamente contra a Copa, em que contexto elas aparecem? Que Brasil é esse que gasta milhões em uma copa do mundo de futebol, mas tem deficiências gravíssimas na saúde, na educação e em tantas outras áreas? Uma aula interdisciplinar de história, sociologia e filosofia poderia discutir profundamente a questão. Mostrar todos os interesses que estão por trás do torneio mundial, com certeza, ajudará a criar uma consciência crítica em nossos educandos.

E a Copa do Mundo pode ser apenas o pontapé inicial. Aulas de atualidades ou, pelo menos, as atualidades devem permear, sempre que possível, o trabalho de sala de aula. Temos que criar o hábito de discutir o jornal impresso ou virtual em sala de aula, semanalmente. A escola não pode ser uma ilha isolada do mundo e ensinar conteúdos que não se renovam. Os componentes curriculares não podem ser caixas estanques que não conversam entre si e, principalmente, não conversam com a realidade que os cerca.

O docente tem a obrigação de buscar oportunidades de sempre relacionar o conteúdo de sua disciplina ao mundo que está à volta do aluno e de todos nós. Com certeza, fazendo relações relevantes, o aluno não mais perguntará em sala de aula “Para que eu aprendo isso?”.

Se somos contra ou a favor da Copa do Mundo em nosso País é uma discussão que deveria ter sido feita previamente com a participação da sociedade. Não foi isso o que aconteceu. E não adianta, neste momento, querermos impedir um evento mundial de proporções e implicações gigantescas. O que resta, principalmente para nós, educadores, é explorar todos os aspectos possíveis de serem abordados em sala de aula e fazermos a nossa parte. Se a Copa do Mundo trará um grande prejuízo aos cofres públicos e à sociedade, pelo menos nossos alunos têm de sair ganhando. Isso não depende de nenhum juiz e pode ser feito em muito mais do que 90 minutos.

 

Artigo publicado na edição de maio de 2014.

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