A escola deste século enfrenta vários desafios. O mais importante entre todos eles é o de trazer para o universo do aluno a consciência de que, em algum momento, todos os conhecimentos adquiridos separadamente se conectam em uma visão mais globalizada e transversal da aprendizagem. Sabemos que o currículo fragmentado e separatista leva para a sala de aula conhecimentos encaixotados, blindados e desvinculados, até como uma forma de garantir a organização. Nesse ponto, destaca-se o papel dos projetos transdisciplinares. Com base neles, é possível fazer com que o aluno relacione conteúdos aprendidos em geografia, história, português, biologia, arte, filosofia, informática, ou seja, é possível fazer com que o aluno entenda que, ao estudar determinado conteúdo, ele pode estar fundamentando seu conhecimento em outras áreas.

Muitas vezes, o aluno perde o interesse pelas aulas porque não consegue ver utilidade ou aplicabilidade para esse conhecimento. Uma vez percebida essa utilidade, fica muito mais fácil despertar e manter o interesse pelas diversas matérias estudadas.

Em um projeto transdisciplinar de 8º ano, por exemplo, podemos partir de um livro paradidático e buscar conexões com Matemática, ao analisar dados estatísticos; com Tecnologia, ao utilizarmos o iPad; com História, ao pesquisarmos o passado de um lugar mencionado; com Geografia, ao tentarmos investigar a influência do meio sobre a personagem ou o autor; com Arte, ao ouvirmos uma música relativa ao tema ou ao assistirmos a um vídeo que estabeleça uma intertextualidade com o texto lido; com Biologia, ao pesquisarmos os efeitos físicos da tensão da personagem; com outras línguas, ao traduzirmos trechos e falas; até Religião ou Filosofia podem – e devem – entrar na discussão. Afinal, ao ler um livro paradidático, a prova deve ser a última intenção do professor. A reflexão, a conexão e a interação com o mundo real devem ser o primeiro foco.

O aluno, ao participar de um projeto transdisciplinar, começa a perceber que suas aulas são em blocos e seriadas, sendo o currículo uma forma de organizar os conteúdos, com base na grade curricular, mas que seus conhecimentos se dão em espiral. Todos esses conhecimentos convergem assim que se inicia uma abordagem transversal do conhecimento. Desse modo, fica fácil entender que cada ser humano vai interagir com os conteúdos estudados, levando em consideração suas experiências individuais.

Para desenvolver projetos que agreguem valor ao processo ensino-aprendizagem, a grade curricular deve buscar a articulação entre os vários aspectos da vida do cidadão: a vida pessoal, familiar e social, o trabalho, a ciência, o meio ambiente, a saúde, a tecnologia, a cultura, a política – com as áreas do conhecimento. Uma vez atribuído esse valor, resgata-se o prazer pelo aprender; a curiosidade e a vontade de conhecer e saber. Quando atinge a esfera da vida real, o conhecimento se instala de forma a se reproduzir em situações similares (competências), desfragmentando o saber.

Assim, os projetos consideram o aluno como sujeito da própria aprendizagem, abandonando a ideia de que os conteúdos se encerram em si e incentivando a ação do aluno na própria aquisição do conhecimento. Ele pode fazer isso sem nem se dar conta, quando estiver envolvido em um bom projeto transdisciplinar: transitar livremente de um campo do saber para outro.

Para garantir esse trânsito, os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) sugerem alguns eixos básicos: ética, saúde, meio ambiente, pluralidade cultural e orientação sexual. Com base nesses eixos, pode-se ampliar a perspectiva mais global do ensino e da aprendizagem. Tomar as experiências vividas no cotidiano como ponto de partida, abrir espaço para ação do próprio aluno, considerar e respeitar a diversidade são formas de garantir o sucesso do processo de aprendizagem, dentro do projeto transdisciplinar.

O registro é uma forma de conscientização: o aluno que contempla sua atuação em um projeto que envolve várias áreas do conhecimento toma ciência do quanto contribuiu em diversas áreas para o resultado final. Percebe-se, então, agente da própria aprendizagem. Além de trabalhar conteúdos, os projetos também desenvolvem a autonomia, a cooperação, o respeito, ao mesmo tempo em que se amplia a habilidade de leitura em vários níveis, da análise em vários níveis e da crítica fundamentada. Ao ampliar o repertório do aluno, interfere-se diretamente em suas opções futuras, garantindo-lhe a oportunidade de atuação e interferência na sociedade em que vive.

Autora: Liliana Angrisani de Andrade Gomes é professora de Português na Chapel School e pós-graduada em Gestão Escolar. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

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