Em 2015, em uma aula de Ciências para a turma do 7º ano, percebi que teria que ensinar uma unidade de astronomia na metade do tempo estipulado. Imaginei como poderíamos assimilar tanto conteúdo em apenas três semanas. Criei um plano de aula, cada aluno escolheu um tópico sobre o assunto que deveria apresentar aos colegas em 50 minutos, mas com um desafio: as apresentações teriam de ser completamente on-line. Pedi que os alunos apresentassem algum conteúdo oralmente, da maneira tradicional, em frente à turma, mas não mais que sete minutos. Em seguida, eles circulavam pela sala durante o restante da aula, ajudando seus pares a trabalhar por meio de vídeos, jogos on-line, quizzes e outras plataformas interativas.

 

As crianças adoraram e o nível de compreensão foi imenso. A avaliação feita mais tarde, por meio de um formulário do Google (nível de aumento SAMR, que explicarei com detalhes mais adiante), mostrou um verdadeiro entendimento da matéria e de retenção de conhecimento. Os estudantes ficaram tão engajados que o nível de aprendizado foi considerado brilhante. Eu fui aluna deles, participando e sendo a “advogada do diabo” para desafiá-los a modificar e(ou) adaptar a aula, de modo que todos na sala absorvessem o conteúdo. 

O que escrevi anteriormente  é um exemplo de ensino transformador por meio do uso da tecnologia. O ensino híbrido não é novidade: bons professores sempre citaram referências além de seus conhecimentos. No entanto, atualmente o termo vem sendo utilizado apenas para se referir ao uso de computadores em sala e, principalmente, às pesquisas on-line – como se elas fossem as ferramentas mais modernas do mundo. Sim, o ensino híbrido (ou blended learning, como é internacionalmente conhecido) engloba pesquisas na internet, mas as vantagens de utilizar o método em sala de aula vão muito além do simples uso de computadores, tablets e smartphones como substitutos dos tradicionais livros, caderno e caneta. A cada dia descobrimos novas possibilidades e nunca foi tão fácil desafiar os alunos, superar as dificuldades de aprendizado e apresentar extensões em uma matéria específica.

Para usar verdadeiramente a tecnologia na transformação do aprendizado, é preciso sair da caixa, modificar o paradigma do ensino e sair do palco, do papel de único formador. Como professores, precisamos recriar maneiras de ensinar para que a responsabilidade pelo aprendizado recaia também sobre o estudante. Pode parecer óbvio: quem mais trabalha em sala é o professor, e a tecnologia é a chave para que ocorra uma mudança, para que estudantes passem a ser responsáveis pelo próprio aprendizado, assumindo o protagonismo por meio dela.

A tecnologia pode facilitar o aprendizado de muitas maneiras. No colégio em que atuo, utilizamos o modelo SAMR, que citei no exemplo da aula de Ciências e significa substituição, aumento, modificação e redefinição. Nele, cada palavra significa um nível de interação com novas plataformas, hardwares e softwares. Tomemos o exemplo de uma simples máquina de escrever. No nível de substituição, podemos digitar em um notebook. O uso da tecnologia nesse sentido pode ser empregado em sala de aula, desde que não seja a única maneira. O próximo nível é o de aumento. Por exemplo: digitar algo em um Google Doc. Nele é possível adicionar uma foto a esse arquivo – você continua utilizando a tecnologia como um substituto ao método tradicional, mas aprimora o produto final.

No colégio, utilizamos o Google Apps for Education (Gafe) e todos os tipos de ferramentas possíveis: o site IXL no Elementary (ensino fundamental), como extensão e enriquecimento ao programa de matemática; a Edmodo, uma rede social usada como agenda on-line (nível de substituição do modelo SAMR), em que é possível adicionar links da internet para estudar posteriormente (nível de aumento do modelo SAMR) e indicar uma lista de tarefas on-line, que é um exemplo do nível modificação do SAMR, em que a tecnologia auxilia em um redesenho da maneira como a tarefa é realizada. Finalmente, temos o nível de redefinição, quando a tecnologia permite a criação de novas tarefas que anteriormente eram inconcebíveis.

Não acredito na existência de uma melhor maneira de utilizar o ensino híbrido, mas sim na necessária  habilidade de o professor entender a turma, avaliar a situação e oferecer opções. Para isso, é preciso experiência. Às vezes você apresenta uma atividade on-line que acaba sendo complicada e problemática. O aprendizado precisa estar focado em seus objetivos. Quando perde-se tempo apenas estando on-line ou se inscrevendo em um aplicativo, por exemplo, o foco está sendo perdido e, com ele, um tempo valioso. Às vezes, a melhor maneira de atingir uma meta de aprendizado é colocar toda a tecnologia de lado e simplesmente sair da sala.

Como especialista de integração de tecnologia, um de meus trabalhos é estar certa de que os aplicativos e o equipamento estejam lá e prontos para uso. Professores que estão no início do método SAMR ficam facilmente frustrados com a tecnologia e acabam voltando aos métodos tradicionais de ensino se sentirem que existem muitos obstáculos em seu caminho para atingir suas metas de aprendizado. E eles estão certos em se sentirem assim. Para ajudar professores a combinar mais suas lições, precisamos dispor de tecnologia consistente e acessível. Isso significa, por exemplo, Wi-Fi com sinal constante e hardware de qualidade, além de desenvolvimento do profissional. Conheço muitos professores que usam Kahoot!, Nearpod e Quizlet para avaliações. A Khan Academy é brilhante e já a utilizei bastante em minhas turmas de Ciências do ensino fundamental. Powtoons, Prezi, iMovie, Piktochart etc. são utilizados extensivamente para demonstrar aprendizado. Conforme os professores aprendem e exploram novas plataformas, eles contam a outros professores e, assim, cria-se um grande banco de ferramentas on-line voltadas ao ensino.

Acompanhar os métodos de aprendizado do século 21 pode parecer assustador, mas, se tivermos equipamentos de qualidade e formos profissionais atualizados, podemos estar na liderança pedagógica, e o ensino híbrido certamente estará lá também.

 

Matéria publicada na edição impressa da Profissão Mestre de fevereiro de 2016.

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