Diferentes e importantes estudos têm demonstrado que é a plasticidade cerebral que nos permite aprender, enquanto a memória nos possibilita guardar e usar o aprendido. Trata-se, portanto, de dois aspectos de um mesmo fenômeno, por isso é estranho falarmos da memória como uma faculdade mental à parte, isolada e alheia à aprendizagem, como se fossem processos distintos, antagônicos ou incompatíveis.

Frequentemente, ainda ouvimos que as crianças não devem memorizar, mas sim aprender. Ainda que se referenciem certos exageros de uma educação puramente conteudista do passado (cuja avaliação prendia-se ao que o aluno conseguia repetir, sem mudar uma vírgula daquilo que estava no texto do livro, no caderno e nas palavras do professor), na qual reflexão e compreensão passavam longe, havia uma maneira de aprendizagem implícita. Qualquer pessoa que hoje tenha mais de 35 anos, com raras exceções, lembrará o que significava estudar para uma prova: decorar páginas e páginas de livros, cadernos e mapas, todos recheados de informações, datas, acontecimentos que pareciam totalmente desconectados entre si e da própria realidade. O resultado da prova praticamente media a memória do aluno, visto que o que se escrevia era fruto do que se “sabia de memória”, e poucas questões exigiam mais que essa habilidade. Entretanto, pela continuidade do processo, pelas exigências pedagógicas e pelo amiúde das avaliações, o conhecimento ia se relacionando e se sedimentando ao longo dos anos, e a aprendizagem terminava por fazer sentido e, sem dúvida, era duradoura.

Além disso, há dessas gerações registros escritos que sinalizam alunos que escreviam bem, tinham repertório de conhecimento vasto e eram capazes de articular ideias em textos de autoria própria e de excelente qualidade. E isso praticamente desde o começo da escolarização. Portanto, também há pontos positivos nessa educação que visava à aquisição de conteúdos, em uma época em que as pesquisas eram realizadas em bibliotecas e a informação recente dependia das editoras, dos jornais, da TV, do correio.

 Por vários motivos, mas em boa parte pelo desenvolvimento das ciências e da tecnologia, existem facilidades na transmissão ultrarrápida das informações, que no final do último século levaram definitivamente para outra dimensão o entendimento sobre o processo de memorizar informações, que passou a ser (aparentemente) secundário à capacidade de elaboração cognitiva dos conhecimentos, quando não passou a ser considerado divorciado deste.

Tal movimento contribuiu também para a ideia de que os alunos poderiam utilizar as informações disponíveis para construir conhecimentos de acordo com seus interesses, sem se preocuparem em memorizar o que quer que seja, uma vez que não haveria mais essa necessidade. Assim, o professor deixou de ser a figura central da escola, passando ao aluno tal lugar e, em boa parte, a responsabilidade pelo aprender. O resultado que hoje vivenciamos em nossas escolas não prescinde de reflexões profundas e atitudes urgentes dos educadores, das famílias e dos governantes responsáveis pela educação. O princípio dessa nova visão passa a ser, de modo louvável, aprender pela compreensão, pela análise, pela síntese etc., e por tirar conclusões próprias, baseadas em fatos ou dados comprováveis. O objetivo continua a ser tornar-se autor, alguém capaz de expor coerentemente suas ideias, seus pensamentos, e acrescentar conhecimento ao conhecimento. No entanto, isso depende de um aparelho cognitivo e emocional competente, mas também de memorização de conteúdo, de informações armazenadas e relacionadas, compreendidas e facilmente acessíveis a quem pensa, fala e escreve. Memorizar é um processo natural de aprendizagem, faz parte dela. Pensemos nisso ao ensinar e avaliar nossos alunos.

Artigo publicado na edição de outubro de 2015

+ Educação
Assine a newsletter mensal e gratuita +Educação e receba ainda mais conteúdo no seu e-mail!