No século XVII, o filósofo holandês Bento Spinoza defendia que todo o universo contém uma energia de conservação, uma vontade de permanecer na existência, a qual ele chamou de conatus. Assim, toda matéria do universo, toda essência singular, ao entrarem em relação com outra – essa também dotada de conatus –, produzem efeitos extraordinários que permitem a construção dos conhecimentos. Atualmente, a escola brasileira perdeu essa função de possibilitar aos alunos fazerem relações, pois há uma segmentação do conhecimento e um ensino por meio de regras e conceitos estanques.

Essas relações devem ser instigadas pelos professores de todas as disciplinas escolares e possibilitar que os alunos criem links entre elas. Algum professor de Química já perguntou ao seu aluno o porquê de a lagartixa se fixar na parede sem cair? A resposta a essa pergunta permitiria ao professor iniciar uma discussão sobre os componentes do átomo e a movimentação dos elétrons, pois o que ocorre é a circulação dos elétrons dos muitos pelos das patas da lagartixa com os elétrons da parede, relação que cria uma força intermolecular pela qual o animal fica “colado” na parede. Já temos um link entre Química e Física.

E por que não pensarmos em uma relação entre Geografia e Literatura? No romance Lucíola, de José de Alencar – muito cobrado em vestibulares –, a personagem principal, Lúcia, moça pobre e simples, transforma-se no decorrer da obra em uma prostituta e muda até o seu nome para Lucíola. Assim, ela se torna moradora de uma luxuosa casa noturna, típica do espaço urbano carioca do século XIX. Lá, ela conhece Paulo, seu grande amor. A paixão de Lucíola e Paulo faz a protagonista largar a sua ocupação para ir morar em uma casa no meio da floresta, em um lugar tranquilo pela proximidade com a mata e os animais. Com isso, José de Alencar nos mostra dois espaços ocupados pela personagem e que definem sua personalidade cruel, manipuladora e gananciosa, em um primeiro momento, mas pura e singela, em um segundo momento, ao final da narrativa. Ora, o estudo do espaço é objeto de análise da Geografia, e a Literatura, que também descreve e analisa espaços, pode ser útil nas aulas em que os espaços, seja o urbano, seja o rural, com todas as suas contradições (favelas, condomínios fechados, bairros etc.), são debatidos.

Nas aulas de Língua Portuguesa, a essência das relações gramaticais também não são contempladas. Pergunte a um professor de português a dificuldade de explicar ao aluno a diferença de adjunto adnominal e complemento nominal. Com certeza ele já passou apuros para que os alunos compreendessem isso. O problema poderia ser resolvido se o professor explicasse ao aluno que o complemento nominal estabelece uma relação de objeto com o nome, porém o termo “objeto” é reservado pelas gramáticas somente aos complementos verbais, enquanto o adjunto adnominal qualifica o nome.

Trabalhar com as relações, buscando a essência delas, não é uma tarefa simples. Lev Vygotsky, psicólogo bielo-russo do século passado, por exemplo, entendia que uma das maiores dificuldades para os professores é saber dosar o volume do conceito com o conteúdo do conceito, ou seja, dosar todas as relações que um conceito pode enquadrar e o que o conceito significa efetivamente como generalização de alguns indícios. No entanto, é fato que a fragmentação do conhecimento, aliada a um ensino por meio de regras e definições prontas, não está possibilitando a formação de alunos que pensem as relações entre os saberes e, consequentemente, eles não conseguem raciocinar para aplicar os conhecimentos escolares de forma produtiva.

Autor: Thiago Jorge Ferreira Santos é graduado em Letras Português e Francês, mestrando no programa de pós-graduação em Estudos Linguísticos, Literários e Tradutológicos em Francês da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e monitor de Língua Portuguesa no Laboratório de Letramento Acadêmico da FFLCH-USP. E-mail: O endereço de e-mail address está sendo protegido de spambots. Você precisa ativar o JavaScript enabled para vê-lo.

 

Artigo publicado na edição de novembro de 2014.

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