As funções cultural, social e de expressão de sentimentos da música são inquestionáveis. A música está presente em todas as sociedades e faz parte de ritos e cerimônias, como o nascimento, o casamento e até a morte. Desde 2008, a iniciação ao aprendizado de música tornou-se obrigatória na disciplina de Artes em todas as escolas do País. A música permite uma forma de linguagem acessível a todos e contribui para o desenvolvimento de um nível de escuta mais crítico e prazeroso.

A música também contribui para o desenvolvimento integral da criança nas suas dimensões afetiva, cognitiva, motora e social. Ela provoca sentimentos de bem-estar, organiza os movimentos do corpo, promove melhor interação, desenvolve a atenção e a concentração. O repertório musical de escuta de uma pessoa é desenvolvido ao longo de sua vida, de acordo com o meio social em que ela está inserida e as experiências significativas que teve com a música ou por meio dela. 

No meio acadêmico, a música pode e deve ser utilizada como recurso didático. Trata-se de uma forma de conhecimento e linguagem que pode ajudar as pessoas a desenvolverem outro nível de escuta, no qual a música deixaria de ser apenas um “pano de fundo” para outras atividades e passaria a ter significado próprio. Por outro lado, a música é, por natureza, interdisciplinar. Podemos classificá-la como uma linguagem ao mesmo tempo matemática e afetiva, que possibilita transpor limites geográficos e temporais, sempre inserida em um contexto social. A música na escola deve ser integrada como um conteúdo específico, mas sem perder de vista as possibilidades inter e transdisciplinares que ela oferece. 

Por ter essas características, muitos professores costumam utilizar letras de músicas nas aulas de Português e História, com o objetivo de facilitar o aprendizado dessas disciplinas. Um aluno me contou que o professor de História, ao explicar o período da ditadura militar no Brasil, levou canções de Chico Buarque e Caetano Veloso (ambos representantes de nossa cena e história nacional) para eles escutarem. Ele e alguns colegas, que conheciam as músicas e estudam ou estudaram música, ficaram emocionados porque conseguiram entender o que escutavam. E essa compreensão requer a “ativação” de um nível de escuta que se torna possível a partir de uma educação musical sistemática.

Podemos ver exemplos semelhantes com pessoas que conseguem identificar o som de apenas um instrumento em uma banda, um concerto ou um grande espetáculo. Com base nisso, ocorre uma ampliação desse nível de escuta que permite fazer escolhas conscientes do que se gosta de ouvir ou deseja escutar. A escuta consciente não envolve somente o nível da cognição, mas também os aspectos afetivos e sociais. Geralmente, gostamos mais de músicas que escutávamos em nossa adolescência, justamente porque é uma fase predominantemente afetiva, de descobertas, de paixões ou de conflitos. Também lembramos mais das músicas de nossa infância, principalmente por nos remeterem a um tempo em que tínhamos nossos pais e avós por perto.

Além das questões sociais e afetivas, a música traz benefícios ao desenvolvimento do raciocínio de crianças. A teoria psicogenética de Henri Wallon diz que o desenvolvimento intelectual envolve também corpo e emoções, e é nesse sentido que podemos afirmar que a música contribui para o desenvolvimento integral da criança em suas dimensões afetiva, cognitiva, motora e social.

Com base na teoria walloniana, ao escutar uma música, uma pessoa percebe as vibrações sonoras nela contida e é “afetada” organicamente por elas, ou seja, pela dimensão afetiva e exteriorizada por meio da dimensão motora. Essa primeira reação à música é uma sensação que pode ser descrita, às vezes, como um frio na barriga ou um coração acelerado, que se revela como um gesto, uma lágrima, um sorriso ou um movimento. Essa sensação inicial é o que chamamos de emoção. Ouvir música, então, pode fazer lembrar, rir, chorar, dançar, cantar, desenhar, escrever, estudar e até trabalhar. Portanto, o processo da escuta musical envolve todas as dimensões que constituem uma pessoa e, dessa forma, favorece o desenvolvimento.

As crianças que não têm acesso à música ou à educação musical perdem a oportunidade de desenvolverem plenamente o seu potencial. Portanto, quanto mais um professor sabe ou conhece sobre música e recursos pedagógicos necessários para apresentá-la às crianças, mais pode ajudar a ampliar as suas experiências de escuta e contribuir de forma abrangente e efetiva no processo de desenvolvimento e aprendizagem dessas crianças até a fase adulta.

Autora: Leila Sugahara é doutora e mestre em Educação: Psicologia da Educação pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), professora de Prática de Ensino e supervisora de estágio no curso de Licenciatura em Música da Faculdade Cantareira (SP).

 

Artigo publicado na edição de agosto de 2014.

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